Mundo de ficçãoIniciar sessãoArabella Whitmore sempre acreditara que o amor fosse uma escolha. Até descobrir que, às vezes, ele nascia do abandono. Quando sua irmã retornou de uma viagem ao exterior decidida a romper um noivado que nunca revelara à família, Arabella acreditou que tudo se resumia a uma incompatibilidade de mundos. Mas a verdade era outra, e muito mais cruel. Zayn Al-Rashid não era o homem que Arabella esperava encontrar. Nem a situação que o cercava. O que deveria ser uma conversa breve transformou-se em algo muito maior: um pedido que jamais deveria ter sido feito, uma verdade dita tarde demais e uma decisão que mudaria o rumo de todos os envolvidos. Um acordo silencioso fora firmado entre dois estranhos. E enquanto o mundo insistia em lembrar Arabella de que ela não fora a escolhida, sentimentos inesperados começavam a crescer onde só deveria existir dever. Porque o maior risco não era casar com o homem errado. Era amar sabendo que, desde o início, ela fora apenas a substituta.
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Helena voltou de viagem como sempre voltava de tudo: ocupando espaço.
Sua mala ainda estava no hall quando ela já falava, gesticulando com entusiasmo exagerado, descrevendo hotéis que pareciam palácios e jantares que meus pais ouviam como se fossem relatos de um conto distante. A viagem fora um presente de aniversário — mais um entre tantos — e, como esperado, ela fizera questão de aproveitá-la até o último detalhe.
— Dubai é surreal — dizia, sorrindo. — Tudo é grande demais, brilhante demais. É impossível não se sentir especial lá.
Minha mãe observava com orgulho. Meu pai assentia, satisfeito por ter proporcionado mais uma experiência memorável à filha favorita, ainda que jamais admitisse isso em voz alta.
Eu permaneci encostada no batente da porta da sala, apenas ouvindo.
Helena sempre teve esse dom. Onde ela chegava, o mundo parecia girar em torno de si. Mas eu a conhecia bem demais para me deixar enganar completamente por aquele entusiasmo.
Havia nervosismo escondido entre os sorrisos. Pequenos silêncios fora de ritmo. Um brilho inquieto no olhar.
Quando nossos pais finalmente se recolheram, Helena me seguiu escada acima, ainda falando, ainda rindo, até que, já no corredor, sua voz perdeu força.
— Bella, espera.
Entrei no meu quarto, acendendo apenas o abajur. A luz suave desenhou sombras conhecidas nas paredes, trazendo uma sensação breve de segurança. Helena fechou a porta atrás de si e permaneceu ali, parada, como se tivesse esquecido o motivo de ter vindo.
— Você está estranha desde que chegou — observei.
— Estou? — respondeu rápido demais. — É só o fuso.
Ela se sentou na poltrona perto da janela, cruzando as pernas com elegância estudada, mas seus dedos se moviam sem parar sobre o tecido do vestido.
— Helena — chamei com cuidado. — O que aconteceu?
Ela suspirou, passando a mão pelos cabelos castanhos e longos como os meus, porém, mais esticados, perfeitamente arrumados.
— Às vezes eu me pergunto se as pessoas realmente sabem o que querem... ou se apenas gostam da ideia de querer.
Sentei-me na cama, sentindo o aviso silencioso se formar dentro de mim.
— Isso não parece conversa de quem só está cansada.
Ela sorriu, frágil.
— Eu conheci alguém na viagem.
Esperei.
— Foi rápido — continuou. — Intenso. Daqueles encontros que fazem tudo parecer inevitável.
Meu coração apertou.
— E?
Ela engoliu em seco.
— Ficamos noivos.
A palavra pareceu errada no quarto. Grande demais. Definitiva demais para Helena.
— Noivos? — repeti, em choque. — Você nunca falou desse noivado quando nos telefonou durante a viagem.
— Porque queria fazer isso pessoalmente — disse, com a voz trêmula. — Mas agora... agora entendo que me precipitei e estou com medo.
Senti meu humor obscurecer, ao imaginar o que poderia amedrontá-la a ponto de ter escondido o noivado da família.
— Medo de quê?
— De estar presa por causa de uma atitude impulsiva. De ir até o fim e perceber que não é a vida que eu quero por nossas culturas serem tão diferentes. — Seus olhos se encheram de lágrimas. — Mas se eu for até lá de novo... eu não sei se consigo dizer não.
Aquilo soou verdadeiro. E sabia que era. Não tinha ideia se a família e até mesmo o noivo de Helena eram culturalmente tradicionais, porém, sabia que se fossem, minha irmã seria infeliz por ter a alma livre demais. E era por isso que ela estava com lágrima nos olhos. Porque ela seria capaz de abrir mão dessa liberdade para honrar a promessa que fez por impulso a esse homem por quem teve uma simples paixonite. O que não era justo para nenhum dos dois.
Levantei-me, aproximando-me dela por instinto.
— Você não pode se obrigar a nada — respondi. — Um noivado não é uma prisão. Se sente que não pode lidar com a diferença cultural, deve deixar isso claro para ele e romper esse noivado. Você não teria aceitado se ele não tivesse um pingo de bondade, então acredito que esse homem entenderá.
— Eu sei. — Ela respirou fundo, como se estivesse reunindo coragem. — Mas não é tão simples assim. Ele é... intenso. Seguro de si. E eu tenho medo de fraquejar.
Houve um silêncio curto, pesado.
— Às vezes penso — continuou, quase distraída — que tudo teria sido diferente se não fosse eu indo falar com ele. Se fosse alguém que não estivesse envolvido. Alguém que não se deixasse levar.
Franzi a testa.
— Como assim?
Ela me encarou então, com aquele olhar que sempre misturava fragilidade e expectativa.
— Você, Bella. Você sempre foi assim. Firme. Justa. Quando decide algo, vai até o fim. — Apertou minhas mãos com delicadeza. — Se fosse você conversando com ele… ele entenderia. Não tentaria me convencer. Não usaria da minha empatia para tentar me fazer honrar esse noivado.
Meu coração acelerou, como se tivesse entendido antes de mim.
— Você está dizendo que eu deveria ir até lá terminar com seu noivo no seu lugar? — perguntei, ainda incrédula.
Helena não respondeu de imediato. Apenas abaixou a cabeça, como quem já se sentia culpada por pedir demais.
— Eu não pediria se não estivesse realmente com medo de ele não entender e me fazer ficar — murmurou.
Aquilo me inquietou mais do que o pedido em si. Helena não insistiria nesse ponto se não acreditasse, de fato, que perderia a firmeza diante dele. Ainda que eu não conseguisse compreender o porquê.
— Helena... — comecei, meio incerta de como continuar, a mente girando com o pedido inusitado. — Isso não está certo! Se você teve coragem de aceitar o noivado, tem que ter também para rompê-lo. Não pode pedir que terceiros terminem um relacionamento por você.
— Você está certa. Como sempre. — A voz saiu baixa, contida. — Mas eu... eu não sei se conseguiria sustentar isso até o fim.
As palavras se perderam quando ela desviou o olhar. Não tinha choro, apenas um silêncio pesado e triste, daqueles que dizem mais do que qualquer confissão.
— Então por que aceitou? — perguntei, com suavidade.
Helena demorou a responder.
— Porque, naquele momento, tudo parecia simples — disse enfim. — E agora nada parece.
Senti-me compadecida, ciente de que o noivado tinha sido mais uma das loucuras da minha irmã no auge da sua felicidade, onde ela só pesava a responsailidade do ato depois da euforia passar.
Não conhecia seu noivo, mas quase senti pena do pobre homem por ter sido apenas mais um dos rompantes de entusiamo de Helena. Só não cheguei a sentir de fato, porque, pelo relato da minha irmã, ele aparentava ser um homem bem intimidador para que Helena, tão livre e forte como era, fosse incapaz de romper o noivado com receio da reação dele... ou, mais precisamente, com receio do seu poder de persuasão.
No fim, respirei fundo, sabendo que precisava de tempo para processar o problema que minha irmã mais velha havia se enfiado.
— Você não precisa decidir nada hoje — acrescentei. — Mas fugir não vai apagar o que já foi dito.
Ela assentiu, lentamente.
— Eu só precisava que você soubesse — murmurou. — Que não foi levianidade.
Quando ela saiu do meu quarto, fiquei parada por alguns segundos, encarando a porta fechada.
Algo havia sido colocado sobre mim sem ser nomeado. Uma responsabilidade que eu não pedira, mas que, de algum modo, parecia já ter sido aceita.
Naquela noite, demorei a dormir, ao ficar me questionando se seria mesmo tão ruim assim tomar o partido de minha irmã, quando essa não seria a primeira vez que eu cedia para preservar sua paz.
Helena sempre fora assim. Intensa, impulsiva, certa de que o mundo se ajustaria depois.
E eu sempre fora a que ficava para juntar os pedaços.
Arabella WhitmoreAlgo realmente sacudiu dentro do meu peito.Não foi exatamente atração.Foi reconhecimento.Como se, depois de tudo o que Samira dissera, eu estivesse olhando para Zayn pela primeira vez.Minha mente só conseguia pensar que ele era o homem que se jogara no meio de uma rua para salvar Helena. O homem que perdera os movimentos das pernas por causa disso. O homem cuja vida fora rearranjada à força.E agora, ele me olhava.Houve um segundo inteiro em que nenhum de nós se moveu.O som da água da fonte parecia mais alto. Constante. Quase solene. O céu acima dele estava absurdamente azul, limpo demais para a violência que aquela história carregava.Samira fez um leve movimento ao meu lado, como se fosse se afastar. E então Zayn desligou o celular.Disse algo baixo ao homem que o acompanhava, que se afastou alguns passos, ficando próximo a uma palmeira. Não o suficiente para desaparecer. O suficiente para nos deixar. Após, Zayn movimentou a cadeira, aproximando-se da fonte,
Arabella WhitmoreAcordei com a sensação estranha de que meu corpo havia descansado, mas minha mente não.O quarto estava envolto naquela calma artificial que só casas grandes e bem organizadas conseguiam sustentar. A luz da manhã entrava filtrada pelas cortinas claras, projetando formas suaves no tapete. Por alguns segundos, permaneci imóvel, encarando o teto, como se estivesse tentando decidir quem eu era agora que certas verdades haviam sido ditas em voz alta.O rosto de Zayn voltou à minha mente antes mesmo que eu conseguisse me levantar.Não o olhar duro. Nem a cadeira de rodas.Mas a sua beleza escura, o rosto com maçãs altas, estrutura forte, maxilar afiado como os olhos quase negros. Ele era um homem bonito e sua condição atual não anulava nem um pouco esse fato.Levantei devagar, tomei um banho rápido e vesti roupas simples, práticas demais para alguém que, dias antes, acreditava estar ali apenas para devolver um anel e desaparecer. Prendi o cabelo sem cuidado, tentando ignora
Arabella WhitmoreO quarto parecia menor agora. Como se o ar tivesse se tornado mais denso desde que eu fechara a porta atrás de mim. Caminhei alguns passos, larguei a bolsa sobre a poltrona e fiquei parada no centro do ambiente, sem saber muito bem o que fazer com as mãos.Sentei-me na beirada da cama apenas para levantar logo em seguida. Andei até a janela. Voltei. Nada parecia confortável. Meu corpo ainda reagia como se estivesse em perigo, mesmo sabendo que não havia ameaça alguma ali.Fechei os olhos por um instante.A imagem de Zayn permanecia nítida demais. Não o homem imponente que Helena descrevera em suas mensagens — distante, exigente, quase ameaçador —, mas o homem real. Contido. Orgulhoso. Sentado em uma cadeira de rodas sem fazer disso um espetáculo. Sem pedir absolvição. Sem implorar por nada.Era isso que mais me inquietava.Ele não havia tentado se justificar. Não tentara me convencer de coisa alguma. Apenas contara os fatos, como quem aceitava que certas verdades não
Arabella WhitmoreEu não soube o que responder de imediato.Não porque faltassem palavras, mas porque todas pareciam inadequadas diante do que acabara de ser revelado. Meu olhar se fixou nele por mais tempo do que seria educado, mas Zayn não pareceu se importar. Havia algo em sua postura que não pedia compreensão nem piedade. Apenas aceitava o impacto.Senti um peso estranho no peito. Não era pena. Era algo mais desconfortável: a sensação de ter sido conduzida até ali por uma versão cuidadosamente editada da verdade.— Eu... — comecei, mas minha voz falhou. Inspirei fundo antes de tentar novamente. — Helena nunca mencionou nada disso.Ele inclinou a cabeça levemente, como se já esperasse aquela resposta.— Não estou surpreso.O tom não era amargo. Era cansado.Desviei o olhar por um instante, encarando o anel ainda sobre a mesa. Aquele objeto, que minutos antes simbolizava um compromisso rompido, agora parecia representar algo muito maior. Um erro. Uma dívida. Uma fuga.— Ela disse qu
Arabella WhitmoreComo se pudesse sentir que eu estava prestes a enlouquecer, estando sozinha com meus pensamentos no quarto de hóspedes em que me alojou, Samira surgiu como uma salvadora.— Se a senhorita desejar, posso lhe apresentar a casa — disse, num tom neutro que não soava como obrigação, mas como protocolo.Assenti. Ficar parada naquele quarto só tornaria meus pensamentos mais insistentes. Estava me sentindo oprimida e imatura por estar prestes a terminar um relacionamento pela minha irmã, portanto, precisava ocupar a mente com qualquer outra coisa que não fizesse eu me sentir tola.Caminhamos por corredores amplos, iluminados por luz natural filtrada por painéis geométricos. Ela explicava funções, horários, regras simples. Nada invasivo. Nada excessivo. Havia uma naturalidade quase doméstica em tudo, como se aquela casa tivesse sido pensada para ser habitada, não exibida.Descobri que aquele lugar funcionava como um organismo.Nada ali acontecia por acaso. Pessoas surgiam e d
Arabella WhitmoreDubai não me recebeu com ruído.Essa foi a primeira coisa que me chamou atenção ao sair do aeroporto. Eu esperava movimento excessivo, vozes altas, calor extremo e algum tipo de choque imediato que justificasse todo o medo que Helena associara àquele lugar. Em vez disso, encontrei plenitude organizada, eficiência calculada e uma sensação estranha de estar sendo observada sem que ninguém realmente me encarasse.Havia quietude, mas não ausência. Pessoas circulavam com naturalidade, cada uma consciente de seu próprio espaço, como se o ambiente tivesse regras invisíveis que todos compreendiam, menos eu. Nada parecia improvisado. Nada parecia fora do lugar. Aquilo, por si só, já contrariava tudo o que Helena insinuara em suas mensagens aflitas.O ar era quente, mas controlado. O tipo de calor que não sufocava, apenas envolvia. Respirei fundo enquanto ajustava a alça da bolsa no ombro, sentindo o peso simbólico daquele gesto simples: eu tinha atravessado meio mundo por uma
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