Capítulo 05

Arabella Whitmore

Como se pudesse sentir que eu estava prestes a enlouquecer, estando sozinha com meus pensamentos no quarto de hóspedes em que me alojou, Samira surgiu como uma salvadora.

— Se a senhorita desejar, posso lhe apresentar a casa — disse, num tom neutro que não soava como obrigação, mas como protocolo.

Assenti. Ficar parada naquele quarto só tornaria meus pensamentos mais insistentes. Estava me sentindo oprimida e imatura por estar prestes a terminar um relacionamento pela minha irmã, portanto, precisava ocupar a mente com qualquer outra coisa que não fizesse eu me sentir tola.

Caminhamos por corredores amplos, iluminados por luz natural filtrada por painéis geométricos. Ela explicava funções, horários, regras simples. Nada invasivo. Nada excessivo. Havia uma naturalidade quase doméstica em tudo, como se aquela casa tivesse sido pensada para ser habitada, não exibida.

Descobri que aquele lugar funcionava como um organismo.

Nada ali acontecia por acaso. Pessoas surgiam e desapareciam no momento exato, corredores eram atravessados com precisão quase coreografada, e cada detalhe parecia obedecer a uma lógica que eu ainda não dominava. Não era opressivo. Era eficiente. E, para alguém como eu, acostumada a improvisar para consertar erros alheios, aquilo era desconcertante.

— O senhor Al-Rashid prefere manter a rotina previsível — comentou enquanto passávamos por uma sala ampla, mobiliada de forma minimalista. — Facilita o dia a dia.

Guardei aquela informação.

Previsível não era a palavra que Helena usara para descrevê-lo.

Ao atravessarmos um pátio interno, notei algo que me fez diminuir o passo. Havia rampas discretas integradas à arquitetura, largas e suaves demais para serem apenas decorativas. Os degraus, quando existiam, vinham sempre acompanhados de alternativas. Nada chamava atenção. Tudo estava simplesmente ali.

— A casa foi adaptada recentemente — explicou Samira, respondendo à pergunta silenciosa que não fiz.

A nova informação me deixou pensativa e com um pressentimento ruim na beira da consciência.

Não perguntei nada. Mas algo começou a se reorganizar dentro de mim.

Um bom tempo se passou quando Samira me deixou outra vez no quarto de hóspedes, depois de me apresentar a casa inteira. Minha mente estava pipocando com detalhes incomuns que reparei em alguns locais, mas eu sentia que uma parte minha se negava a ver o óbvio, porque...

Fechei os olhos, já sentindo o coração apertar diante da ideia de que, talvez, minha irmã tivesse me colocado em uma situação muito pior do que eu imaginava.

Não tive tempo para chegar em conclusão alguma, pois, não se passou nem meia hora e Samira retornou ao quarto uma vez mais.

— O senhor Al-Rashid chegou mais cedo do que o esperado e disse que está disponível para recebê-la agora — informou. — Se estiver pronta.

Senti meu corpo gelar, as palmas das mãos suarem e o batimento cardíaco disparar.

Mesmo que tivesse atravessado o oceano para estar ali desempenhando um papel que não me cabia, estar prestes a fazer isso me deixou tonta e gélida em cada célula do corpo.

Tentei dizer algo a Samira, mas minha voz tinha sido roubada pelo choque do destino iminente, portanto, só pude assentir.

Caminhei atrás dela pelos corredores com a sensação incômoda de estar entrando em uma conversa que já começara muito antes da minha chegada. Não havia curiosidade em mim. Apenas a necessidade de cumprir o que viera fazer e ir embora antes que a ansiedade me engolisse.

Samira parou diante de uma porta e eu quase choquei em suas costas. Ela fez um gesto com a mão antes de dizer:

— A senhorita pode entrar — e se afastou.

Respirei fundo várias vezes, o coração conseguindo acelerar o que já estava agitado, e avancei com a coragem que sempre tive, embora por dentro estivesse confusa e alarmada.

O que me recepcionou foi uma sala ampla que aparentava ser um escritório. Mas, como tudo naquela casa, havia um detalhe e outro que não tornava o espaço algo típico e esperado. Constatar isso mais uma vez fez meu peito se comprimir antecipadamente.

No fim, buscando mais uma dose de coragem, parei de fingir que estava prestando atenção no espaço e deixei meus olhos encontrarem quem esperava por mim.

E lá estava ele.

Zayn Al-Rashid já me tinha em sua mira e me contemplava com um olhar direto, avaliador. Nada caloroso. Quase hostil. Ele estava atrás de sua mesa de mogno e não fez menção nenhuma de sair de trás dela ou ao menos ficar de pé para me receber, quando fez um gesto indicando que eu terminasse de entrar na sala.

— Então — disse ele, em um inglês tão impecável quanto do seu motorista —, foi você quem veio.

A frase não era uma pergunta.

— Sou Arabella Whitmore — respondi, mantendo a postura firme. — Irmã de Helena.

— Eu sei quem você é.

O tom era seco. Meio ferino, longe de ser cordial.

Aproximei-me alguns passos, consciente do espaço entre nós.

— Acredito que minha presença aqui já seja, por si só, um indicativo de que houve um equívoco — comecei, ansiosa para acabar logo com aquilo tudo e voltar para Londres. — Vim para esclarecer a situação e encerrar algo que não deveria ter sido levado adiante.

Um músculo se contraiu levemente em seu maxilar.

— Encerrar — repetiu, como se experimentasse a palavra. — É curioso como essa decisão nunca parece urgente enquanto envolve promessas.

Ignorei a provocação.

— Helena pretendia vir pessoalmente — expliquei. — Houve um acidente. Ela não está em condições de viajar no momento.

— Um acidente — disse ele, com uma leve inclinação de cabeça. — Sim. Imagino.

Algo em seu olhar mudou. Não era surpresa. Era confirmação.

Senti-me ofendida no lugar da minha irmã quando ficou totalmente exposto no rosto daquele homem, que ele acreditava que Helena havia armado tudo só para não estar ali. Deu para ver as engrenagens de sua mente funcionando e chegando a essa conclusão.

Meu lado irmã protetora já quis se expandir e criar uma objeção, contudo, decidi que o melhor para todos era finalizar aquela conversa e seguir adiante na vida.

— Seja como for — continuei —, estou aqui para devolver isto.

Abri a bolsa e retirei o anel. O objeto parecia pesado demais para algo tão pequeno. Coloquei-o sobre a mesa entre nós.

— Helena reconhece que cometeu um erro — acrescentei. — E não deseja prolongar uma situação que não pode sustentar.

O olhar de Zayn caiu sobre o anel, mas ele não o tocou.

— Ela sempre teve talento para fugir no momento exato — comentou. — Não me surpreende que tenha enviado outra pessoa para fazer o que ela não teve coragem.

O comentário atingiu mais do que eu esperava, confirmando o que tinha notado antes em sua expressão.

Ele achava que Helena tinha dado um jeito de terminar tudo sem ter que estar no mesmo ambiente que ele.

Tudo bem que isso quase tinha acontecido inicialmente, todavia, já não era mais o caso. Helena não deixou de estar ali por covardia, tinha se acidentado.

— Como disse, ela se acidentou. Por isso, não pôde vir pessoalmente — retruquei. — E como o noivado de vocês já estava na mídia em seu país, ela achou que seria justo me enviar para resolver tudo com respeito, antes que a notícia se alastrasse ainda mais.

Ele ergueu os olhos para mim novamente.

— Respeito — repetiu, agora com algo mais afiado na voz. — Foi isso que ela chamou de respeito quando decidiu partir?

— Não vim discutir caráter — disse, sentindo a tensão se adensar. — Vim encerrar um compromisso que não foi pensado com a devida responsabilidade.

— Responsabilidade — ele ecoou, sarcástico. — Irônico você me dizer isso, quando sua irmã está fugindo da dela.

Minha espinha gelou.

— Ela não está fugindo! Apenas reconheceu que foi precipitada em aceitar o noivado de vocês e decidiu te deixar livre para se casar com alguém que realmente o ama.

Zayn soltou uma risada nada divertida. Um segundo após, sua expressão se fechou em fúria. Foi quase automático sentir vontade de me encolher diante do olhar afiado como lâmina, mas consegui manter a compostura.

— Ela não te contou, contou? — disse ele, a voz baixa, controlada demais.

— Contou o quê? — perguntei, sentindo um frio estranho se espalhar pelo peito.

Os dentes deles rangeram antes de ele responder:

— Que nosso noivado foi um acordo. Não ocorreu por amor.

Pisquei lentamente, quase demorando a processar o que ele disse.

— Acordo? — Agora era eu que repetia as palavras com descrença.

— Sim, acordo.

— Mas... que tipo de acordo? — sussurrei, mal conseguindo raciocinar a razão de Helena ter aceitado se casar com aquele homem para honrar alguma coisa.

Era dívida? Coisa pior? Não conseguia compreender.

Zayn me estudou por um instante, então respirou fundo e movimentou os braços ao lado do corpo de maneira que, antes mesmo de eu ver, eu já sabia para que servia aquele gesto.

Senti a garganta arranhar ao passo que Zayn se afastava de sua mesa e me deixava ver o modo como ele estava posicionado. A razão pela qual não se levantara quando entrei.

Sentado em uma cadeira de rodas, o sheik me observava em desafio, com ressentimento e raiva.

— Eu fiquei assim por causa dela — completou, sem elevar a voz. — E o nosso acordo era ela se casar comigo depois de eu quase ter morrido para salvar a vida dela.

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