Mundo ficciónIniciar sesiónHelena Marlow perdeu tudo ainda jovem: a empresa da família, os pais e a segurança que conhecia. Agora, enquanto tenta reconstruir a própria vida, aceita trabalhar como babá na casa de uma das famílias mais influentes do país — sem imaginar que está se aproximando de alguém que marcou sua infância muito mais do que ela lembra. Ethan Hartman cresceu cercado por poder, silêncio e expectativas impossíveis. Filho de um senador respeitado e de uma mãe implacável, vive preso a um casamento vazio e ao peso de um legado que nunca escolheu. Sua lembrança mais preciosa é a da menina com quem dividiu um jardim escondido… uma menina que desapareceu de sua vida sem explicação. Quando Helena entra na mansão recém-construída por Ethan, nenhum dos dois se reconhece. Mas algo — um olhar, um gesto, um desconforto inexplicável — desperta neles a mesma sensação: uma familiaridade que cutuca o passado. Enquanto Helena se aproxima de Henry e um misterioso “jardim secreto” parece chamá-la como um eco adormecido, passado e presente começam a se entrelaçar. Ele passou a vida sentindo falta de alguém que nunca soube nomear. Ela passou a vida tentando sobreviver ao que veio depois. E algumas conexões de infância não desaparecem — apenas aguardam o momento certo para serem descobertas de novo.
Leer másA música vibrava pelo bar como um pulso vivo, uma batida grave que parecia sincronizar todos os corpos presentes. Luzes baixas em tons de âmbar e neon recortavam o ambiente, refletindo em copos suados, mesas ocupadas demais e rostos marcados pela euforia de uma sexta-feira sem responsabilidades imediatas.
Helena dançava com Lia no centro da pista. Os braços erguidos acompanhavam o ritmo enquanto o calor grudava sua roupa à pele. O cabelo preso já não dava conta dos fios soltos que colavam na nuca, mas ela não se importava. Pela primeira vez em semanas, sua mente estava em silêncio. Não pensava nos prazos acumulados, nas contas vencendo ou nas decisões que vinha adiando. Tudo parecia suspenso, como se o mundo tivesse encolhido até caber apenas naquele espaço entre uma batida e outra. — Você precisava disso! — Lia gritou, rindo, girando perto dela. Helena sorriu de volta. Um sorriso verdadeiro. Daqueles que não se ensaiam. Mas o alívio durou pouco. Aos poucos, algo começou a mudar. O ar ficou pesado demais, quase espesso. O cheiro doce de bebida misturado ao suor e ao calor humano começou a incomodar. A pista parecia mais cheia, mais apertada. Helena respirou fundo, tentando ignorar a tontura súbita, mas o desconforto cresceu rápido demais. O sorriso desapareceu. — Lê? — Lia percebeu imediatamente. — Tá tudo bem? — Acho que não… — Helena respondeu, levando a mão ao peito. — Vou tomar um ar. Tá muito abafado aqui. Ela não esperou resposta. Saiu da pista devagar, abrindo caminho entre corpos que se moviam sem notar sua urgência. Cada passo exigia esforço. O som da música começou a se transformar em um zumbido distante. A saída estava logo ali. Quase sentiu o alívio da porta aberta quando uma mão segurou seu braço. — Ei… vai embora assim? Helena se virou, forçando o foco. Paulo. Reconheceu vagamente o rosto. Alguém que tinha se aproximado mais cedo, falado demais, rido alto demais, invadido espaços sem ser convidado. — Não estou me sentindo bem — disse, com firmeza. — Preciso ir. Tentou se soltar, mas ele não recuou. — Ah, para com isso — ele riu, aproximando-se mais. — É só uma fase. Mais um drink resolve. Helena deu um passo para trás, sentindo as costas quase encostarem na parede lateral do corredor. — Eu disse que não. Solta meu braço. A mão dele apertou um pouco mais. Não foi agressivo o suficiente para chamar atenção, mas foi o bastante para disparar o alerta em seu corpo. O coração acelerou. A respiração ficou curta. A sensação de perda de controle voltou com força. — Paulo, solta — repetiu, agora com a voz trêmula. Ele parecia se divertir com a resistência. — Calma… só quero conversar. Foi então que tudo parou. — Ela disse pra soltar. A voz surgiu firme, baixa, sem necessidade de elevar o tom. Não havia ameaça explícita, apenas certeza. Uma autoridade que não pedia permissão. Paulo soltou o braço de Helena imediatamente. — Eu… a gente só tava conversando — murmurou, já recuando. Não esperou resposta. Desapareceu de volta na multidão. Helena piscou algumas vezes, tentando recuperar o equilíbrio. O ar frio da rua entrou pela porta aberta, tocando seu rosto como um choque de realidade. — Tá tudo bem? — a voz perguntou novamente, agora mais próxima. Ela tentou responder, mas o chão pareceu se mover sob seus pés. A visão escureceu nas bordas. O som do bar virou um eco distante. O corpo cedeu. Mas ela não caiu. Braços firmes a seguraram antes que tocasse o chão. Um apoio sólido, seguro, que a manteve de pé quando tudo dentro dela parecia falhar. — Ei… calma — disse a mesma voz, agora mais baixa, próxima demais para ser ignorada. — Respira comigo. Devagar. Helena sentiu a mão segura em suas costas, sustentando seu peso. O calor ali não sufocava. Acalmava. — Vou te levar pra sentar lá fora — ele continuou. — Tá tudo bem agora. Ela assentiu, sem forças para discutir. Confiava — sem saber por quê. Enquanto era conduzida para fora, o bar foi ficando para trás como uma lembrança distorcida. A música virou um ruído abafado, sem forma, dissolvendo-se aos poucos. O ar da noite tocou seu rosto, frio o bastante para fazê-la respirar melhor. Helena tentou se apoiar no chão sob os pés, mas a sensação era instável, como se tudo estivesse ligeiramente fora do lugar. O corpo respondeu antes do pensamento — os sons ficaram distantes, as luzes se alongaram, e o peso do cansaço desceu de uma vez. Ela fechou os olhos por um instante.Lucas Donavan. O amigo que restou quando o mundo dela caiu. O menino que dividiu a infância com ela. Anos se passaram, vidas mudaram, mas Lucas permaneceu — a última ponte com o que um dia foi lar. Lia viu a reação dela antes mesmo que Helena pudesse esconder a tela. — Lucas voltou? — o brilho nos olhos de Lia cresceu. — Menina… aquele homem atravessaria o mundo se você pedisse. Helena riu baixinho, empurrando o braço da amiga. — Para. Ele é meu amigo. Desde sempre. — Desde sempre mesmo — Lia reforçou, divertida. — Vocês eram inseparáveis. Vocês dois… e ele. A última palavra ficou suspensa no ar como um fantasma sem nome. Helena fingiu não ouvir. Respirou fundo e escreveu com calma — quase como tocar uma memória sem deixá-la quebrar. Helena “Consegui sim. Comecei ontem. Babá residente. Quero te ver também. Vamos marcar no fim de semana?” Mensagem enviada. Um suspiro escapou — suave, porém carregado de lembrança. Lia cruzou os braços, sorriso travesso.
A manhã seguiu tranquila.Depois que a casa se esvaziou, Helena organizou o que precisava ser feito sem pressa. Guardou os objetos que havia usado com Henry, revisou a agenda deixada por Quinn, conferiu horários, separou o material da tarde. Aos poucos, aquela casa deixava de parecer estranha — não acolhedora ainda, mas compreensível.Quando o relógio marcou o horário combinado, ela pegou a bolsa e desceu.Rodrigo já aguardava na frente da casa, encostado no carro preto, como se sempre tivesse estado ali. Cumprimentou-a com um aceno simples quando a viu se aproximar.— Pronta? — perguntou, abrindo a porta traseira.— Sim — respondeu ela.O trajeto até o colégio foi silencioso e confortável. Helena observava a paisagem mudar pelas janelas, sentindo algo próximo de normalidade — sensação rara demais para ser ignorada.Rodrigo quebrou o silêncio perto de um semáforo:— Ele saiu animado hoje cedo.— Percebi — Helena respondeu. — Acho que a rotina ajuda.— Ajuda mesmo — ele concordou, sem
Helena dormiu mal. A cama era confortável demais para justificar o cansaço que sentia, mas ainda assim passou a noite acordando em intervalos curtos, como se o corpo não tivesse decidido se aquele lugar era seguro ou não. O silêncio da mansão não ajudava. Não era o silêncio comum de um apartamento pequeno — era amplo, profundo, atento. Ela abriu os olhos antes do despertador. Por alguns segundos, não reconheceu o quarto. As paredes claras, a janela alta, a escrivaninha organizada demais. Então lembrou. A entrevista. O menino. A casa. O emprego. A realidade voltou inteira, sem delicadeza. Sentou-se na cama e respirou fundo, tentando afastar a sensação estranha de estar sendo observada, mesmo sozinha. Não era medo. Era presença. Como se aquela casa tivesse regras próprias — e ela ainda não as conhecesse. Tomou um banho rápido, prendeu o cabelo de forma simples e escolheu uma roupa discreta: confortável, neutra, funcional. Não queria chamar atenção. Ainda não. Quando saiu do quarto
A noite se acomodou sobre a mansão como um véu silencioso quando Helena deixou Henry dormindo. Fechou a porta devagar. Do lado de fora, a senhora Quinn já a aguardava, postura ereta, expressão serena. — Ele pegou no sono rápido — comentou em voz baixa. — Foi um bom começo. Helena sentiu um alívio discreto atravessar o peito. — Fico feliz — respondeu. — Não quis apressar nada. Quinn assentiu e fez um gesto para que a acompanhasse pelo corredor. — Agora vou levá-la até a cozinha. A equipe da noite já está reunida. É importante que todos se conheçam. A cozinha era ampla, aquecida por uma luz amarela suave que contrastava com o silêncio do restante da casa. Havia vozes baixas, o cheiro reconfortante de comida recém-preparada e uma sensação de rotina que não parecia rígida — apenas organizada. — Pessoal — anunciou Quinn, com naturalidade —, esta é a Helena. A nova responsável pelo Henry. Alguns rostos se voltaram para ela com curiosidade aberta. — Prazer — disse uma mu
— Então bora — disse Lia, levantando da cama com energia renovada. — Roupas confortáveis, pijama decente… e, pelo amor de Deus, leva o estojo com lápis. Criança adora isso. Helena pegou o estojo da escrivaninha, passando o polegar pela tampa gasta. — Você acha mesmo? — Acho — Lia respondeu, sem hesitar. — Isso é parte de você. Não deixa pra trás. As duas se espalharam pelo quarto, separando roupas, produtos de higiene, alguns livros da faculdade. Helena escolheu com cuidado, como se cada peça precisasse justificar o espaço na mala. O celular vibrou sobre a cama. Helena atendeu. — Boa tarde, Helena. Aqui é a senhora Quinn — disse a voz firme do outro lado. — O senhor Hartman pediu para avisar que, quando estiver pronta, o motorista irá buscá-la. Helena olhou para a mala fechada. Para o quarto simples. Para a vida que estava ficando para trás — ou, talvez, apenas mudando de forma. — Estou pronta — respondeu. — Ótimo. Ele chega em vinte minutos. Ao desligar, Lia sol
Henry estava no gramado, concentrado em empilhar blocos coloridos sobre uma manta estendida no chão. O sol do fim da tarde atravessava as árvores do jardim, recortando sombras suaves sobre o verde bem cuidado. Ele não falava, mas aceitava a presença de Helena com uma naturalidade silenciosa, empurrando um dos brinquedos na direção dela como convite. Helena se abaixou sem pressa, sentando-se perto o bastante para não invadir, mas próxima o suficiente para estar ali. Observou, comentou algo simples, acompanhou o ritmo dele. Nada forçado. Nada apressado. Do outro lado do jardim, a senhora Quinn observava em silêncio, braços cruzados à frente do corpo, expressão atenta demais para ser casual. Quando percebeu que Henry já não se afastava — pelo contrário, permanecia —, aproximou-se. — Senhorita Helena — chamou, com voz baixa, respeitando o momento. — Podemos falar um instante? Helena se levantou com cuidado, lançando um último olhar para o menino antes de seguir até a lateral do jardim.










Último capítulo