CAPÍTULO 2

Tyler acordou antes do alarme.

A cabine ainda estava mergulhada na penumbra, cortinas fechadas, o leve balanço do navio lembrando-o de onde estava. Por alguns segundos, não soube dizer se tinha dormido ou apenas fingido. O corpo parecia cansado demais para a quantidade de horas passadas na cama.

Levantou-se, tomou um banho rápido e vestiu uma camiseta clara. O espelho devolveu uma imagem que ele já conhecia bem: olheiras fundas, barba por fazer, o olhar de alguém que estava sempre em outro lugar. Ainda assim, havia algo diferente. Um fio de expectativa incômoda, quase juvenil, que ele não se lembrava de sentir.

Saiu da cabine e seguiu pelo corredor em direção ao restaurante principal. O cheiro de café recém-passado se espalhava pelo andar inferior, misturado ao som distante de risadas e talheres. O cruzeiro começava oficialmente o dia — animado, organizado, indiferente às inquietações individuais.

O grupo já estava reunido quando Tyler chegou.

— Olha quem resolveu viver — disse Lucas Moreno, empurrando uma cadeira com o pé. — Achamos que você ia perder o café.

— Quase — respondeu Tyler, sentando-se.

Chloe Bennett levantou os olhos do celular e sorriu. Era um sorriso bonito, treinado, desses que pareciam sempre prontos. — Dormiu melhor?

Tyler deu de ombros. — O suficiente.

Mark começou a falar sobre o roteiro do dia, excursões em terra, piscina, bebidas incluídas. Tyler escutava sem realmente ouvir. Parte de sua atenção permanecia presa a algo que ele não via.

Então ela entrou.

Jane caminhava sozinha entre as mesas, usando um vestido claro, simples, os cabelos presos de forma despretensiosa. À luz do dia, parecia diferente da mulher da noite anterior — menos etérea, mais real. Ainda bonita, mas de um jeito mais contido, quase cotidiano.

Ela escolheu uma mesa próxima à janela e se sentou, observando o mar enquanto aguardava o café. Tyler percebeu que ela não procurava ninguém com o olhar. Não parecia esperar companhia.

— Você está encarando — murmurou Lucas, sem virar o rosto.

Tyler desviou os olhos imediatamente. — Não estou.

Lucas sorriu de canto. — Claro que não.

Alguns minutos depois, enquanto o grupo discutia se iria ou não descer na primeira parada, Tyler se levantou. Não anunciou nada. Apenas seguiu na direção da máquina de café, buscando fingir naturalidade.

Jane estava de costas quando ele se aproximou.

— Bom dia — disse, mantendo a voz neutra.

Ela se virou, surpresa breve no olhar antes de reconhecer. — Bom dia.

Havia algo mais suave nela àquela hora. Menos mistério, talvez. Ou apenas menos sombras.

— Dormiu bem? — perguntou ele, percebendo tarde demais o quão banal soava.

— O suficiente — respondeu ela, repetindo quase exatamente as palavras que ele usara minutos antes. Um leve sorriso surgiu, discreto, quase involuntário.

Tyler serviu café para si. — Primeira vez em um cruzeiro?

— Não. — Ela mexeu o açúcar devagar. — Mas faz tempo.

Ele assentiu. — Pra mim também.

O silêncio que se seguiu não foi constrangedor. Apenas aberto. Como se nenhum dos dois estivesse com pressa de preenchê-lo.

— Está viajando com alguém? — perguntou Tyler, sem saber exatamente por que queria a resposta.

Jane hesitou por um instante mínimo. — Não. E você?

— Amigos.

Ela assentiu novamente, como se aquilo confirmasse algo que já imaginava.

— Bom… — disse ela, pegando a xícara. — Nos vemos por aí, vizinho.

— Provavelmente — respondeu ele.

Jane se afastou em direção à mesa próxima à janela. Tyler ficou parado por alguns segundos, observando-a se sentar, antes de retornar ao próprio grupo.

— Quem é? — perguntou Chloe, sem levantar os olhos do celular.

— Jane — respondeu ele, simples demais.

Chloe ergueu o olhar dessa vez, avaliando-o com curiosidade aberta. — Bonita.

Tyler não respondeu.

Mais tarde, sozinho no convés inferior, ele observou o movimento dos passageiros e tentou entender o desconforto que crescia silencioso dentro dele. Não era culpa. Não era desejo explícito. Era algo mais sutil — a sensação de estar à beira de uma escolha que ainda não tinha nome.

Quando voltou à cabine no fim da tarde, encontrou um bilhete escorregado por baixo da porta.

A piscina fica vazia depois das seis.

Sem assinatura.

Tyler segurou o papel por alguns segundos, sentindo o coração acelerar de um jeito que não sentia havia meses. Olhou para a porta ao lado. Silêncio.

Dobrou o bilhete e entrou.

O dia ainda não havia terminado.

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