Mundo ficciónIniciar sesión
O mar estava calmo demais para alguém que carregava tanto ruído por dentro.
Tyler Hale apoiou os antebraços no corrimão do convés superior e deixou o vento noturno bater no rosto, como se pudesse arrancar pensamentos à força. O cruzeiro avançava em silêncio, cortando a água escura com uma elegância quase cruel. Tudo ali era bonito demais. Organizado demais. Feliz demais. Ele não pertencia àquele lugar. Quatro meses haviam se passado desde a morte de Diana. Tempo suficiente para que o mundo seguisse em frente, mas não ele. Tyler aprendera a responder às perguntas com frases curtas e um sorriso educado. Estou indo, dizia. Ninguém precisava saber que algumas noites ainda pareciam longas demais para atravessar sozinho. — Se continuar encarando o mar assim, vai acabar se jogando — disse Mark Bennett, aproximando-se com dois copos de uísque. Tyler aceitou um deles. — Ainda não — respondeu, sem humor. Mark riu, um riso leve demais para o peso da conversa. — Essa viagem é pra isso. Pra distrair. Pra lembrar que ainda existe vida fora da memória. Tyler assentiu, embora não tivesse certeza se queria lembrar disso. O grupo se dispersara após o jantar. O navio parecia maior à noite, mais silencioso. Tyler respirou fundo, tentando se convencer de que aquela sensação de deslocamento passaria. Então ele a viu. Ela estava alguns metros adiante, apoiada no corrimão, observando o mar como se não houvesse mais nada ao redor. Os cabelos loiros se moviam suavemente com o vento. O vestido escuro delineava o corpo com naturalidade, sem chamar atenção — e, ainda assim, chamava. Não havia exagero nela. Nenhuma tentativa de ser notada. Tyler percebeu que não era exatamente a beleza que o prendia. Era o modo como ela parecia… ausente. Como se estivesse ali por um motivo que não precisava ser explicado. — Conhece? — perguntou Mark, seguindo o olhar dele. — Não — respondeu Tyler, sem desviar os olhos. Ela virou o rosto, quase por acaso. Os olhos claros encontraram os dele por um instante breve demais para ser íntimo, longo demais para ser indiferente. Não houve sorriso. Nem convite. Apenas um reconhecimento silencioso que fez algo se mover dentro dele. Mark se afastou, deixando-o sozinho com aquele incômodo novo, inesperado. Algum tempo depois, ela se afastou do convés. Tyler não pensou — apenas seguiu, mantendo uma distância respeitosa, consciente demais do próprio gesto para fingir que era casual. O corredor das cabines estava vazio. O som distante do navio preenchia o silêncio. Ela parou diante de uma porta e ele fez o mesmo, alguns passos atrás. Ela olhou para o número da cabine, depois para a porta ao lado. — Parece que somos vizinhos — disse, com um leve tom de surpresa na voz. Tyler seguiu o olhar. 512. 513. — Parece — respondeu. Ela estendeu a mão. — Jane. O toque foi rápido, correto. A pele fria. Nada além disso. — Tyler. — Boa noite, Tyler — disse ela, com um sorriso discreto, quase tímido. A porta se fechou. Tyler entrou em sua cabine alguns segundos depois, tentando ignorar a estranha sensação de que algo havia se deslocado do lugar — não no navio, mas dentro dele. Naquela noite, ele demorou a dormir. E, quando finalmente fechou os olhos, não foi o rosto de Diana que surgiu em sua mente. Foi o da mulher da cabine ao lado.






