Mundo de ficçãoIniciar sessão
Ponto de vista: Maya
A placa na entrada da cidade estava desbotada pelo sol e pelo salitre, mas o aviso era claro: Porto do Silêncio. Reduza a velocidade e ouça o mar. Eu me mudei para cá há cinco anos, carregando apenas três malas e um trauma que não cabia em nenhuma delas. Naquela época, meu nome estava em todas as abas de fofoca da minha antiga cidade. "A garota da foto", eles diziam. Uma imagem distorcida, uma mentira viral e o silêncio cúmplice de quem eu achava que eram meus amigos. Eu descobri cedo demais que a internet pode ser um tribunal sem juiz. Aqui, eu reconstruí tudo. Comprei o casarão de madeira caindo aos pedaços na encosta e o transformei na Recanto da Maré. No andar de baixo, criei meu santuário: um café literário. Não temos Wi-Fi. Não temos pressa. Se você quer falar com alguém, precisa olhar nos olhos. Foi assim que recuperei minha dignidade. Mas, naquela sexta-feira à noite, a calmaria parecia prestes a ser testada. O bar do deck estava lotado. O som das tacadas de sinuca e as peças de totó batendo freneticamente eram a trilha sonora da minha diversão com Beto e os outros moradores. Eu estava rindo, segurando o taco de sinuca com confiança, quando senti um arrepio na nuca. Afastei o olhar da mesa e o vi. Ele estava numa mesa de canto, quase engolido pelas sombras do telhado de palha. Usava um boné escuro e uma jaqueta que parecia pesada demais para o clima litorâneo. Tinha uma barba por fazer, bem mais cerrada do que a dos pescadores locais, e olhos que pareciam estar em alerta máximo. Ele me observava. Não com malícia, mas com uma estranheza, como se estivesse vendo um espécime raro. Quando nossos olhos se cruzaram, ele não sorriu. Ele apenas abaixou a cabeça, escondendo-se atrás da garrafa de cerveja. — Maya, sua vez! — Beto gritou. Eu tentei focar no jogo, mas o barulho das risadas começou a soar alto demais. O calor das lâmpadas amareladas me sufocava. Eu precisava do mar. Saí do bar sem avisar, deixando o taco encostado na mesa. Caminhei até a borda do deck de madeira e desci os três degraus que levavam à areia úmida. O vento gelado do Atlântico bateu no meu rosto, e eu finalmente consegui respirar. — Noite agitada lá dentro? Me virei rapidamente. O estranho do boné estava encostado em uma das pilastras do deck, a poucos metros de mim. De perto, a barba dele parecia ainda mais escura e os traços do rosto, apesar de cansados, eram marcantes. — Só um pouco de barulho demais para uma sexta-feira — respondi, cruzando os braços. — E você? Achei que estivesse aproveitando as sombras. Ele deu um passo à frente, mas parou antes de entrar totalmente na luz que vinha do bar. — As sombras são ótimas até você perceber que está sozinho nelas. — Filosofia de bar a uma hora dessas? — tentei brincar, mas ele não relaxou. — Só cansaço. Dirigi o dia todo. Saí de... — ele hesitou por um segundo — saí de longe sem rumo. Só parei aqui porque o asfalto acabou e o cheiro do mar era forte. — Porto do Silêncio tem esse efeito. É o fim da linha para muita gente — eu disse, sentindo uma ponta de empatia. Eu também tinha chegado ali daquele jeito. — É uma cidade bonita. Mas parece pequena demais. Tem algum lugar por aqui que aceite alguém que só quer um travesseiro e nenhuma pergunta? Eu olhei para ele de cima a baixo. Havia algo de familiar nele, algo que eu não conseguia identificar, mas o cansaço nos olhos dele era genuíno. — Você está com sorte. Eu sou a dona da única pousada que ainda tem uma vaga decente nesta época do ano. Ele pareceu surpreso, as sobrancelhas subindo sob a aba do boné. — Você? A jogadora de sinuca? — Dona de pousada, jogadora de sinuca e mestre em café — estendi a mão. — Me chamo Maya. Ele apertou minha mão. A pegada dele era firme, mas ele pareceu recuar um pouco quando os dedos se tocaram, como se tivesse medo de ser reconhecido pelo toque. — Leo. Prazer, Maya. — Venha, Leo. O Recanto da Maré fica a duas quadras daqui. Vou te mostrar onde o mundo realmente fica em silêncio.






