O Tempero da Calmaria

Ponto de Vista: Maya

O som da primeira batida de batedeira na cozinha era o meu despertador oficial. Às sete da manhã, Dona Fátima já estava em seu reino, transformando farinha e ovos no bolo de laranja que perfumava o corredor inteiro. No pátio, eu já conseguia ouvir o som da vassoura de palha do Tião limpando o deck da entrada.

Porto do Silêncio estava acordando, e a Recanto da Maré ganhava vida.

— Maya, o Tião já subiu com as toalhas limpas pro quarto dois, mas aquele moço novo do quatro... ele ainda não deu sinal — Dona Fátima comentou, aparecendo na porta da cozinha com o avental enfarinhado. — Ele não veio tomar café?

— Ele chegou tarde, Fátima. Deve estar exausto — respondi, tentando manter a voz neutra enquanto organizava os livros no balcão do café. — Deixe ele descansar.

— Estranho, né? Um homem bonito daqueles, dirigindo um carro que custa mais que a cidade inteira, aparecer aqui sem mala nenhuma... — Ela semicerrou os olhos, desconfiada. — Se eu não soubesse que você tem dedo bom pra gente, diria que é encrenca.

— É só um hóspede, Fátima. Nada de fofoca antes do almoço, por favor.

Voltei minha atenção para a máquina de espresso, mas minha mente estava no quarto quatro. Eu tinha passado metade da noite acordada, tentando entender por que o rosto de "Leo" parecia uma melodia que eu quase conseguia cantarolar, mas não lembrava a letra.

Às dez da manhã, o café literário já tinha alguns clientes. Dois moradores locais liam o jornal e um casal de turistas silenciosos ocupava a mesa da janela. Foi quando ele desceu.

Sem o boné e a jaqueta, Leo parecia um homem diferente. A barba por fazer era escura e bem desenhada, mas não escondia o cansaço ao redor dos olhos. Ele vestia uma camiseta cinza simples, mas o jeito que ele se movia — como se estivesse tentando ocupar o menor espaço possível — me chamou a atenção.

— Bom dia — ele murmurou, aproximando-se do balcão.

— O café já esfriou, mas posso fazer um espresso novo — ofereci, observando como ele olhava ao redor, quase como se esperasse ser atacado a qualquer momento.

— Eu adoraria. E... que cheiro é esse? — Ele apontou para a cozinha.

— Almoço. Dona Fátima não brinca em serviço. Hoje é dia de peixe na telha. Servimos às treze horas para quem estiver hospedado ou para quem quiser pagar o dia.

Tião entrou no café carregando uma caixa de mantimentos e parou, avaliando Leo de cima a baixo com o olhar clínico de quem viveu oitenta anos naquela costa. Leo baixou a cabeça imediatamente, pegando um livro qualquer na estante mais próxima para disfarçar.

— Esse aí é o do carro caro? — Tião perguntou, sem nenhum filtro.

Leo ficou rígido. Senti a tensão emanando dele.

— É o Leo, Tião. Ele está de passagem — intervim rápido, entregando a xícara de café para o meu hóspede. — Tião cuida da manutenção, Leo. Se algo ranger no seu quarto, é com ele.

— Não vai ranger nada — Tião resmungou e saiu.

Leo soltou um suspiro longo, segurando a xícara como se fosse uma âncora.

— As pessoas aqui são... diretas.

— Elas são protetoras — corrigi baixinho, debruçando-me sobre o balcão. — Elas sabem que eu vim para cá fugindo de barulho. Elas filtram quem chega.

Ele deu um gole no café e me olhou nos olhos. Por um segundo, o mundo lá fora desapareceu.

— Eu entendo o sentimento. Mais do que você imagina.

O movimento começou a aumentar. Turistas de passagem começaram a chegar para o almoço, atraídos pelo cheiro da comida de Dona Fátima. O café literário, antes silencioso, começou a borbulhar com o som de talheres e conversas baixas.

Vi o pânico brilhar nos olhos de Leo quando um grupo de jovens entrou rindo, segurando celulares e tirando fotos da decoração rústica da biblioteca. Ele se encolheu na poltrona do canto, puxando um exemplar de poesia para cobrir metade do rosto.

Fui até ele, fingindo que ia recolher sua xícara vazia.

— Se quiser, posso pedir para a Dona Fátima montar um prato para você e o Tião leva lá em cima — sussurrei.

Ele me olhou com uma gratidão que me atingiu em cheio.

— Você faria isso?

— Eu sei como é querer sumir quando o mundo decide aparecer sem ser convidado — respondi.

Eu ainda não sabia quem era Leo, mas naquele momento, eu soube de algo muito mais importante: ele estava tão quebrado quanto eu já estive um dia. E, em Porto do Silêncio, a gente não deixa ninguém quebrar sozinho.

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