O Som do Zero

Ponto de Vista: Leonardo

Minha cabeça ainda latejava com o eco de 50 mil vozes gritando meu nome no Morumbi há quarenta e oito horas. O problema da fama não é o barulho quando você está no palco; é o zumbido que fica no ouvido quando as luzes se apagam e você percebe que é apenas um produto com data de validade.

Eu dirigi por dez horas. Desliguei o celular no quilômetro trinta e o joguei no porta-luvas como se fosse uma bomba relógio. Eu só precisava que o mundo parasse de me pedir fotos, autógrafos e uma alegria que eu não sentia mais.

Quando entrei naquele bar de madeira no final da estrada, a última coisa que eu esperava era encontrar o que vi.

Maya.

Eu a observei da penumbra. Enquanto eu tentava me fundir à parede, ela comandava o lugar com uma risada que parecia mais afinada que qualquer nota que eu já tivesse cantado. Ela jogava sinuca com uma concentração feroz, e o que mais me chocou: ela nem sequer olhou na minha direção com aquele brilho de reconhecimento que eu tanto temia.

Agora, caminhando ao lado dela pela calçada de pedras irregulares, o silêncio da cidade era quase ensurdecedor.

— É aqui — ela disse, parando diante de um casarão de madeira branca com janelas azul-turquesa.

Uma placa de madeira pendurada por correntes balançava suavemente com o vento: Recanto da Maré. Abaixo, em letras menores: Café e Biblioteca.

— É bonito — comentei, e minha própria voz soou estranha para mim. Menos projetada, mais real.

— É calmo. É a única coisa que eu exijo aqui — ela respondeu, abrindo a porta principal e me dando passagem.

Assim que dei o primeiro passo para dentro, parei. O cheiro de café torrado e papel antigo me atingiu como um soco de nostalgia. Não havia música ambiente. Não havia TVs ligadas nas paredes. Apenas estantes e mais estantes de livros, poltronas de couro que pareciam abraçar quem sentasse nelas e uma paz que eu não sabia que ainda existia no Brasil em 2026.

— Não temos Wi-Fi, Leo — Maya disse, caminhando até o balcão e pegando uma chave pesada. — Se precisar postar algo no seu I*******m ou checar e-mails, vai ter que caminhar até a praça da matriz, a uns dez minutos daqui. Mas aviso logo: o sinal lá é péssimo.

Eu quase sorri. Pela primeira vez em anos, eu quis sorrir de verdade.

— Eu não poderia estar mais feliz com essa notícia.

Ela me entregou a chave. Seus dedos tocaram os meus de novo, e eu vi um lampejo de dúvida nos olhos dela. Ela estava me estudando. Talvez estivesse começando a achar meu rosto familiar, ou talvez apenas achasse estranho um cara chegar sem malas no meio da noite.

— Você está bem? — ela perguntou, a voz suave, mas direta. — Parece que não dorme desde o último álbum do Roberto Carlos.

Eu soltei uma risada seca. Se ela soubesse que meu último álbum estava no topo do Spotify há meses...

— Só uma viagem longa, Maya. Só isso.

— O quarto quatro é o seu. Fica no final do corredor, à direita. Tem vista para o mar. Amanhã o café começa às oito. Se quiser silêncio, aqui é o lugar certo. Se quiser barulho... bem, você já viu que o deck é a única opção.

— O silêncio está ótimo — eu disse, segurando a chave com força. — Obrigado, Maya. Por não fazer perguntas.

Ela me deu um aceno de cabeça curto, um tanto misterioso, e subiu as escadas, deixando-me sozinho naquela biblioteca que cheirava a recomeço.

Subi para o quarto, joguei minha jaqueta na cadeira e me aproximei da janela. O mar estava ali, escuro e infinito. Pela primeira vez em muito tempo, eu não era o "Leonardo Veronese". Eu era apenas o cara do quarto quatro.

E o mais estranho? Eu estava desesperado para que o dia amanhecesse logo, só para tomar aquele café e ver se aquela garota era real ou apenas um sonho de uma mente exausta.

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