O Sal e o Silêncio

Ponto de Vista: Maya

Caminhar até a Enseada do Farol com o Leo era um exercício de autocontrole. Ele não falava muito, mas a presença dele preenchia cada espaço vazio daquela praia. Ele tinha um jeito de andar, meio bicho acuado, meio dono do mundo, que me deixava em alerta.

— Você não relaxa nem na areia, estrangeiro? — perguntei, parando perto de um coqueiro solitário. — Aqui, o máximo que pode te acontecer é um coco cair na cabeça.

Leo parou e olhou para o horizonte. O vento bagunçou o cabelo dele, revelando um rosto que parecia esculpido para ser capa de qualquer coisa, mas que ele insistia em esconder.

— O silêncio daqui é... barulhento, Maya. Eu esqueci como é não ter ninguém tentando adivinhar o que eu estou pensando.

— E o que você está pensando agora? — provoquei, dando um passo para o lado, sentindo o calor que emanava dele mesmo com a brisa do mar.

Ele me olhou de cima a baixo. Não foi um olhar vulgar, foi algo mais profundo, como se ele estivesse tentando ler as entrelinhas de um livro proibido.

— Estou pensando que Porto do Silêncio tem esse nome por um motivo. As pessoas vêm aqui para esquecer. Ou para serem esquecidas.

Senti um nó na garganta.

— Algumas vêm apenas para respirar sem pedir licença — respondi, tentando manter a voz firme. — Vai ficar aí filosofando ou vai entrar na água?

Tirei o short e a camiseta. Senti o olhar dele queimar nas minhas costas, seguindo o desenho da minha coluna, mas não me virei. Quando entrei na água, o choque térmico foi um alívio para a temperatura que meu corpo estava atingindo.

Mergulhei e, quando emergi, ele estava tirando a camiseta na areia. Parei de respirar por um segundo. Ele tinha tatuagens que pareciam marcas de guerra e uma partitura pequena perto da clavícula que vibrava a cada movimento dos músculos dele. Ele entrou no mar com braçadas fortes, vindo direto na minha direção.

Ficamos ali, onde a água batia na altura do peito. A maré estava puxando um pouco, e em um solavanco da água, meu corpo esbarrou no dele. Foi só um toque de pele molhada com pele molhada, mas pareceu um choque elétrico.

— A correnteza está forte — ele disse, a voz ficando mais rouca, os olhos fixos nos meus lábios.

— Eu conheço o mar, Leo. Sei me segurar — respondi, mas não me afastei.

Ele deu um passo para mais perto. A água entre nós borbulhava, mas o resto do mundo parecia ter ficado no mudo. Ele levantou a mão, hesitou, e então usou o polegar para tirar uma mecha de cabelo molhado que estava no meu rosto. O toque foi lento, deliberado. A mão dele desceu pela minha bochecha e parou no meu pescoço, onde meu pulso batia feito um animal desesperado.

Eu podia ver as gotas de água escorrendo pelo rosto dele, parando na barba cerrada. O desejo ali era uma coisa física, palpável. Ele inclinou o rosto, devagar, testando o limite. Eu sentia o hálito dele, o cheiro de sal e pele quente.

Nossos lábios estavam a milímetros. Eu conseguia sentir o calor que vinha dele, a promessa de um beijo que mudaria tudo. Meu coração martelava tanto que eu achei que ele fosse ouvir.

Mas, no último segundo, eu desviei o rosto, encostando minha orelha no ombro dele. Eu não podia. Não com um estranho que carregava um mistério que cheirava a problema.

Senti ele soltar um suspiro pesado contra o meu pescoço, uma mistura de frustração e alívio.

— Você é perigosa, Maya — ele sussurrou perto do meu ouvido, a mão dele ainda firme no meu pescoço, apertando de leve antes de soltar.

— Você não viu nada, estrangeiro — respondi, me afastando e nadando de volta para a areia sem olhar para trás, com as pernas tremendo mais do que eu jamais admitiria.

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