A Melodia do Prato Feito

Ponto de Vista: Leonardo

Minha cabeça ainda latejava. O silêncio do quarto era bom, mas o barulho de risadas e o clique seco de talheres vindo do andar de baixo pareciam tiros contra a minha têmpora. Eu estava sentado no chão do quarto quatro, as costas apoiadas na lateral da cama, observando o sol refletir nas ondas do mar através da janela.

Eu tinha o mundo aos meus pés em termos de números, mas estava escondido em um canto de parede porque tinha pavor de ser visto. O contraste era ridículo.

Uma batida curta e firme na porta me fez dar um solavanco.

— Sou eu, o Tião — a voz rouca do velho atravessou a madeira. — A patroa mandou seu almoço.

Levantei-me e abri a porta apenas o suficiente para passar o braço. Tião não tentou entrar. Ele me entregou a bandeja com um olhar que parecia ler minha alma e cada segredo que eu já escondi sob a aba de um boné.

— Come tudo. A Fátima não gosta de desperdício — ele disse, seco, e saiu sem esperar um obrigado.

Fechei a porta e respirei fundo. O cheiro do peixe com tempero caseiro era algo que eu não sentia há muito tempo. No meu mundo, a comida era técnica, cara e servida em pratos pequenos demais. Aquilo ali, com arroz soltinho e pirão, tinha cheiro de vida.

No canto da bandeja, havia um pequeno pedaço de papel dobrado. Abri com os dedos ainda um pouco trêmulos:

"O silêncio é o melhor tempero, mas não deixe a comida esfriar. O Tião disse que você parece um fantasma, então trate de comer. — Maya"

Soltei uma risada curta que não sabia que ainda vivia em mim. Maya. Ela tinha uma forma de ser direta que me desarmava completamente. Ela não me tratava como "O Fenômeno", ela me tratava como um homem que precisava de um prato de comida e de um pouco de bom senso.

Comi cada pedaço daquele almoço, sentindo o sabor de algo que não tinha gosto de contrato ou de marketing. Quando terminei, a ansiedade de ficar trancado naquele quarto começou a me sufocar. Eu precisava de ar, mas não o ar pesado de São Paulo. Eu precisava do ar daquela garota.

Desci as escadas com cuidado, tentando não fazer as tábuas de madeira rangerem. O movimento do almoço já tinha diminuído. No café literário, Maya estava sentada em uma das poltronas de couro, com os óculos de leitura na ponta do nariz e um livro grosso no colo. Ela parecia uma pintura de paz.

— O fantasma resolveu aparecer? — ela perguntou sem tirar os olhos das páginas, mas percebi um canto de sua boca se elevar.

— O peixe estava excelente — respondi, aproximando-me e sentando na poltrona à frente dela. — E o bilhete também. Obrigado.

Ela finalmente fechou o livro e me encarou. A luz da tarde realçava os tons de mel nos olhos dela.

— Você é um homem difícil de decifrar, Leo. Dirige um carro de luxo, foge de flashes como se fossem balas de revólver e não tem uma única mala de roupa.

— Eu saí com pressa — confessei, a verdade escapando antes que eu pudesse filtrar. — Eu só precisava que o mundo parasse um pouco.

— E ele parou? — ela inclinou a cabeça, curiosa.

— Aqui sim. Pela primeira vez em muito tempo, eu não estou ouvindo música comercial gritando na minha cabeça. Estou ouvindo apenas...

— A vida acontecendo? — ela sugeriu.

— É. Isso mesmo.

Ficamos em silêncio por um longo tempo. Eu olhava para as mãos dela, que pareciam tão seguras de si, e depois para as minhas, que não paravam de batucar um ritmo nervoso na lateral da poltrona. Tomei fôlego. Eu não queria mais ficar parado.

— Maya? — chamei.

— Sim?

— Você conhece algum lugar por aqui onde eu possa beber uma água de coco direto da fruta e... talvez dar um mergulho? Sem muita gente por perto.

Ela soltou um suspiro baixo, ajeitando os óculos.

— O lugar existe. Fica logo depois da encosta do farol. A água é clara e quase ninguém vai lá a essa hora. Mas... — ela olhou em volta, para o balcão do café e para a pilha de notas fiscais que precisava conferir. — Eu ainda tenho muito trabalho por aqui. Dona Fátima está terminando as sobremesas e o Tião precisa de ajuda com a entrega das roupas de cama.

Eu ia dizer que entendia, que não queria atrapalhar a rotina dela, mas uma voz vinda do corredor da cozinha me cortou.

— Ah, deixe de ser teimosa, menina! — Dona Fátima apareceu, limpando as mãos no avental, com um brilho travesso nos olhos. — O Tião já resolveu as roupas e eu já deixei o doce de abóbora no fogo baixo. O café está calmo agora. Vá mostrar a praia pro moço, ele está com cara de quem precisa de um banho de sal pra tirar essa uruca da cidade grande.

Maya olhou para a cozinheira, surpresa.

— Fátima, eu ainda tenho que organizar as entregas...

— Vá logo! — Dona Fátima acenou com a mão, imperativa. — Se chegar algum cliente, eu mesma sirvo o café. E se alguém perguntar pela dona, eu digo que ela foi salvar uma alma perdida.

Maya deu uma risada curta, balançando a cabeça em sinal de derrota. Ela me olhou, e pela primeira vez, vi um brilho de diversão genuína em seus olhos.

— Parece que eu não tenho escolha, Leo. Dona Fátima é quem manda de verdade nesta pousada.

— Eu não vou reclamar — respondi, sentindo um alívio imediato no peito.

— Tudo bem. Me dê cinco minutos para trocar de sapato e pegar uma toalha. Mas aviso logo: se você se afogar, eu não sou salva-vidas.

— Eu corro o risco — sorri.

Enquanto ela subia as escadas, Dona Fátima passou por mim e sussurrou, com a sabedoria de quem já viu muito da vida:

— Cuide bem dela, viu, moço do boné? Essa menina já teve muita tempestade na vida. Ela merece um pouco de sol.

Engoli em seco, as palavras da cozinheira pesando mais do que qualquer pressão de gravadora. Eu não sabia se eu era o sol ou a próxima tempestade, mas, naquele momento, eu só queria seguir Maya até onde o asfalto terminava e o mar começava.

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