Mundo ficciónIniciar sesiónO sol da manhã seguinte nasceu com uma claridade insultuosa, filtrando-se pelas cortinas de seda italiana do quarto que, até ontem, Helena chamava de santuário. Para ela, porém, o mundo havia perdido as cores vibrantes, restando apenas o contraste nítido entre o preto e o branco da traição. Ela observou Ricardo pelo reflexo do espelho enquanto ele ajeitava o nó da gravata Hermès. Ele assobiava uma melodia leve, a personificação do homem de sucesso que não carregava um pingo de culpa no peito.
— Você está deslumbrante, Helena. O cinza grafite realça a sua seriedade. É exatamente o que precisamos para a reunião com os investidores hoje — disse ele, sem sequer desviar o olhar do próprio reflexo. Helena sentiu um gosto amargo de bile na garganta. Ele não via uma mulher à sua frente; ele via um ativo. Um acessório de luxo que validava sua competência diante de homens tão vazios quanto ele. — Obrigada, Ricardo. Aprendi com o melhor que as aparências são o alicerce de qualquer negócio — ela respondeu, a voz saindo tão polida e fria quanto o mármore da bancada. — Essa é a minha garota. Aquele "minha" soou como uma marca de propriedade que fez a pele de Helena formigar de repulsa. Enquanto entravam no SUV blindado, o silêncio entre os dois era denso, mas Ricardo estava mergulhado demais em seu próprio ego para notar que o ar ao redor de sua esposa estava gélido. A reunião na prefeitura foi um teatro de horrores. Ricardo falava sobre "visão", "legado" e "modernidade", enquanto usava os gráficos que Helena passara noites em claro produzindo. A cada elogio que ele recebia, Helena sentia o cinzel da determinação esculpir seu novo caráter. Ela sorria no momento certo, apertava as mãos certas e confirmava dados técnicos com uma precisão cirúrgica. Mas, por dentro, ela estava mapeando as fraquezas de cada investidor presente. Ela sabia quem era movido por ganância e quem tinha medo de escândalos. Ao final da reunião, um dos maiores financiadores do projeto, o Dr. Arnaldo, aproximou-se dela enquanto Ricardo se vangloriava com um grupo de jornalistas. — Helena, o projeto estrutural é impecável. É raro ver tal sofisticação técnica hoje em dia. Ricardo tem sorte de ter você como... assessora. Helena sustentou o olhar do homem, um sorriso enigmático brincando em seus lábios. — Ricardo tem sorte por muitas razões, Dr. Arnaldo. Mas projetos impecáveis exigem fundações que não se quebram sob pressão. Espero que o senhor se lembre disso quando a tempestade chegar. O homem franziu o cenho, confuso, mas Helena já havia se afastado com a leveza de um fantasma. À tarde, enquanto Ricardo se perdia em "almoços de negócios" que ela agora sabia serem encontros regados a champanhe e mentiras com Bia V., Helena deu seu primeiro passo real para fora daquela gaiola dourada. Ela não foi ao salão de beleza ou ao shopping. Ela dirigiu até o bairro industrial, longe dos arranha-céus reluzentes. Parou diante de um edifício de tijolos aparentes, coberto por fuligem e pelo descaso do tempo. Era o antigo galpão de seu pai. Ricardo sempre o chamou de "verruga na paisagem", um lixo que só servia para ser dado como garantia de dívidas. Para Helena, entretanto, aquele lugar tinha cheiro de infância, de serragem e de planos reais. Ao girar a chave enferrujada, o ranger do metal soou como um grito de libertação. O interior era vasto, poeirento e cheio de ecos. Helena caminhou até o centro do espaço, onde um feixe de luz atravessava uma telha quebrada, iluminando as partículas de pó que dançavam no ar. — Isso não é uma verruga, Ricardo — sussurrou ela para as paredes nuas. — Isso é o meu novo império. Ela pegou o telefone e discou um número que não usava há anos. — Marcos? É a Helena. Preciso de um favor. Preciso que você rastreie todas as movimentações financeiras da Albuquerque & Associados nos últimos vinte e quatro meses. Não pela conta principal... use os acessos secundários que eu criei para o suporte de TI. E Marcos... isso precisa ficar entre nós. Meu marido acha que eu sou apenas a mobília da casa. Está na hora dele descobrir que a mobília pode esconder segredos fatais. Ao desligar, Helena sentiu um peso sair de seus ombros, substituído por uma adrenalina cortante. Ela passou as horas seguintes ali, naquele galpão sujo, desenhando no chão com um pedaço de gesso. Não eram apenas plantas de prédios. Eram as linhas de sua nova vida. Ela projetou a saída do dinheiro, a proteção dos bens de sua família e o momento exato em que cortaria os freios do sucesso de Ricardo. Quando voltou para casa naquela noite, Ricardo já estava lá, deitado no sofá com uma taça de vinho, parecendo irritado. — Onde você estava? Tentei ligar e deu caixa postal. O jantar está atrasado e os sócios da Dubai Tech ligaram querendo confirmar os dados da fundação. Helena largou a bolsa e o olhou com uma serenidade que o desarmou. — Eu estava apenas garantindo que a fundação recebesse o tratamento que merece, querido. E quanto ao jantar... — ela caminhou até ele, inclinando-se até que ele pudesse sentir o perfume que ela usava, o mesmo que ele costumava elogiar — ...acho que você deveria começar a se acostumar com o sabor da própria companhia. Ela subiu as escadas sem olhar para trás, ouvindo o som confuso dele chamando seu nome. Helena entrou no banho e deixou a água quente lavar a poeira do galpão, mas não a sua resolução. Ela era uma arquiteta. E toda grande construção começa com uma demolição impecável. A máscara estava posta, mas o cinzel já estava trabalhando na escuridão. Ricardo achava que estava no topo do mundo, sem perceber que Helena já havia começado a remover os parafusos do chão onde ele pisava.






