Capítulo 2: O Inventário das Perdas

​O som da porta do quarto de hóspedes fechando-se foi o único ruído que Helena permitiu que escapasse de sua alma naquela noite. Ela não chorou imediatamente. O choro exige uma entrega que ela não podia se permitir enquanto Ricardo ainda estivesse sob o mesmo teto, exalando aquela confiança tóxica de quem acredita que o mundo é um tabuleiro de xadrez onde ele é o único jogador.

​Sentada na beira da cama, Helena olhava para as próprias mãos. Mãos que haviam desenhado os traçados iniciais de prédios que hoje definiam o horizonte da cidade. Mãos que haviam assinado contratos, que haviam escolhido cada textura daquela casa, desde o veludo das cortinas até o mármore Carrara da cozinha. Ela percebeu, com uma pontada de ironia, que era uma estranha num museu que ela mesma tinha construído.

​O que doía não era apenas a mensagem de "Bia V.". Era a constatação de que Ricardo a via como um acessório obsoleto. "Parte da mobília", ele dissera indiretamente. A "consultora" que iria para Dubai não era apenas uma amante; era o símbolo da substituição profissional e pessoal de Helena.

​Ela pegou o seu portátil. Se Ricardo achava que ela passaria a noite em posição fetal, ele não a conhecia. Ou talvez, o que era pior, ele a conhecia tão bem que sabia que ela era metódica demais para explodir sem provas.

​Helena começou o que chamou mentalmente de "O Inventário". Ela abriu as pastas ocultas do servidor da empresa que partilhavam — a Albuquerque & Associados. Como ela era a responsável pela organização administrativa, possuía senhas que Ricardo, na sua arrogância, nunca se deu ao trabalho de mudar. Ele achava que ela apenas "fazia as contas". Ele nunca percebeu que, ao fazer as contas, ela detinha o mapa de cada mina terrestre que ele havia plantado.

​A primeira descoberta foi como um soco no estômago. Nos últimos dezoito meses, Ricardo desviara quantias significativas para uma conta de consultoria fantasma. O nome da empresa? BV Intermediações. "Bia V.", Helena murmurou para o quarto vazio. Ele não estava apenas a traí-la com outra mulher; ele estava a usar o dinheiro que eles construíram juntos para financiar a vida dessa mulher e, possivelmente, para preparar uma saída financeira onde Helena ficaria com as mãos vazias.

​— Tu não me conheces, Ricardo — sussurrou ela, enquanto os seus olhos percorriam as colunas de débitos. — Tu conheces a Helena que te servia o café. Tu não fazes ideia do que a Helena Arquiteta é capaz de projetar quando o assunto é a sua própria sobrevivência.

​O relógio marcava três da manhã quando ela encontrou o rastro mais perigoso. Ricardo tinha assinado garantias de empréstimos usando o nome pessoal de Helena e bens que ela herdara do seu pai — um terreno valioso na zona sul e um antigo edifício industrial que ele sempre chamara de "sucata". Ele colocara o património dela em risco para cobrir os buracos das suas apostas arriscadas em Dubai.

​A raiva, fina e gelada, começou a substituir o choque. Helena sentiu uma clareza absoluta. Se ela confrontasse Ricardo agora, ele usaria o seu charme manipulador, pediria perdão, esconderia melhor o dinheiro e terminaria de a destruir financeiramente antes que o divórcio fosse assinado.

​Não. Ela precisava de tempo. Precisava de silêncio.

​Ela levantou-se e foi até ao closet. Olhou para as dezenas de sapatos de salto alto, para os vestidos de marca que Ricardo insistia que ela usasse para "manter o status". Atrás de uma fileira de casacos de inverno, ela puxou uma velha pasta de couro desgastado. Dentro dela, estavam os seus registos profissionais independentes e o título de propriedade do edifício industrial que Ricardo tentara penhorar. Por sorte — ou talvez por um instinto que ela ignorara durante anos — aquele documento específico exigia a assinatura física dela para qualquer transação definitiva, e Ricardo apenas tinha apresentado uma intenção de garantia.

​Ela guardou a pasta na mochila que usava nos tempos da faculdade, escondida sob o fundo falso de uma mala de viagem.

​De repente, a porta do quarto abriu-se. Ricardo estava lá, com a camisa desabotoada, parecendo ligeiramente ébrio e irritado.

​— O que estás a fazer aqui, Helena? Fizeste uma cena no jantar e agora estás escondida? Eu ganhei o contrato da minha vida e tu ages como se eu tivesse cometido um crime.

​Helena virou-se devagar. Ela vestiu a máscara que ele esperava: a da esposa compreensiva, mas magoada.

​— Eu só estou cansada, Ricardo. Tens razão... Dubai é um passo enorme. Talvez eu tenha ficado sobrecarregada com a ideia de estares longe.

​Ele sorriu, um sorriso predatório de quem sente que recuperou o controlo da situação. Aproximou-se e tentou tocar no ombro dela, mas ela esquivou-se com elegância, fingindo procurar algo na mesa de cabeceira.

​— É isso que eu gosto em ti — disse ele, bocejando. — Tu acabas sempre por entender a realidade. Eu sou o motor desta família, Helena. Só precisas de confiar em mim. Vou dormir. Amanhã temos uma reunião com os advogados da prefeitura. Quero-te lá, impecável. Tu és o meu melhor cartão de visita.

​— Estarei lá, Ricardo — disse ela, mantendo a voz firme. — Impecável. Como sempre.

​Ele saiu, fechando a porta com força. Helena soltou o ar que nem sabia que estava a prender. Ela aproximou-se da janela e olhou para as luzes da cidade.

​Ricardo queria um cartão de visita? Pois bem. Ela daria a ele uma lição de arquitetura: nunca se destrói a estrutura de suporte de um edifício sem esperar que o teto caia sobre a nossa cabeça.

​A partir daquele momento, cada sorriso dela seria um cálculo. Cada palavra, um pilar. Helena não ia apenas pedir o divórcio. Ela ia demolir o império de Ricardo, pedra por pedra, e usar o entulho para construir algo que ele nunca conseguiria alcançar.

​A caçada tinha começado.

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