Capítulo 5: O Plano de Fuga

A noite após a briga foi a mais longa da vida de Helena. Ela não dormiu no quarto de hóspedes, nem na suíte master. Ela se trancou em seu antigo escritório, um cômodo que Ricardo raramente visitava, pois dizia que "tinha cheiro de trabalho e tédio". Ali, cercada por tubos de plantas e réguas de cálculo, ela começou a executar a logística de sua libertação.

O plano de fuga de Helena não envolvia apenas sair de casa; envolvia desaparecer do radar de Ricardo enquanto ela movia as peças fundamentais do patrimônio para longe de suas garras gananciosas.

Às quatro da manhã, o silêncio da casa foi quebrado pelo som metálico de uma mala sendo fechada. Helena não levou as joias que ele lhe comprara, nem os vestidos de grife que serviam apenas para exibi-la como um troféu em jantares de negócios. Ela levou o essencial: seus documentos, seu laptop com as provas criptografadas e o colar de esmeraldas de sua mãe, que ela havia recuperado da maleta de Ricardo enquanto ele dormia um sono pesado, induzido pelo álcool e pelo choque.

Ela olhou pela fresta da porta. Ricardo estava apagado no sofá da sala, cercado por garrafas vazias, a imagem patética da decadência mascarada de sucesso. Helena sentiu um lampejo de piedade, que foi rapidamente sufocado pela lembrança da mensagem de Bia V.

— Adeus, Ricardo — sussurrou ela, fechando a porta principal com a suavidade de uma brisa. — Você disse que eu era a mobília. Pois bem... a mobília acaba de se retirar do imóvel.

Helena dirigiu até o galpão industrial no subúrbio. Marcos, seu fiel contato de TI, já a esperava, encostado em um carro utilitário discreto.

— Você tem certeza disso, Helena? — perguntou ele, entregando-lhe um novo cartão SIM e um dispositivo de internet móvel não rastreável. — Se o Ricardo descobrir que você está movendo os ativos da Albuquerque & Associados para uma holding independente, ele vai mover o céu e a terra para te processar por fraude.

Helena desceu do carro e olhou para o galpão escuro, que em breve seria seu novo quartel-general.

— Ele não pode me processar por algo que eu mesma projetei, Marcos. A holding foi criada há três anos como uma medida de segurança para a empresa. Ricardo assinou os papéis sem ler, achando que eram apenas renovações de seguro. Ele confiou na minha "previsibilidade". É hora dessa confiança custar caro a ele.

Nas horas seguintes, sob a luz fria de lâmpadas de LED, Helena e Marcos trabalharam freneticamente. O plano era cirúrgico: Helena não roubaria a empresa. Ela apenas reivindicaria a propriedade intelectual de todos os projetos que ela desenvolvera. Como Ricardo nunca colocara o nome dela como autora principal para inflar o próprio ego, Helena possuía os registros de direitos autorais originais em seu nome de solteira, guardados em um cofre digital que ele nem sabia que existia.

Sem esses projetos, a licitação de Dubai seria invalidada por plágio e falta de competência técnica.

— Preciso que você envie os alertas de conformidade para os investidores em 48 horas — ordenou Helena, os olhos fixos na tela. — Mas antes, preciso desaparecer. Vou me instalar aqui no galpão. Ninguém espera que "a elegante Helena Albuquerque" esteja vivendo em um depósito sujo no subúrbio.

— E se ele vier atrás de você?

— Ele vai me procurar nos hotéis cinco estrelas, na casa da minha irmã em Miami ou nos spas de luxo. Ele vai procurar a mulher que ele acha que eu sou. Enquanto isso... — Helena abriu um rolo de papel pardo e começou a desenhar a reforma do galpão — ...eu vou estar construindo a mulher que eu sempre deveria ter sido.

Enquanto o sol começava a despontar no horizonte, tingindo o céu de um laranja industrial, Helena sentiu a primeira lufada de liberdade real. Ela estava sem o luxo, sem o status e sem o marido que o mundo invejava. Mas, pela primeira vez em dez anos, ela era a dona do próprio destino.

Ricardo acordaria em breve, em uma casa vazia, com uma dor de cabeça terrível e a sensação de que algo estava faltando. Ele ainda não sabia que o que faltava era o próprio alicerce de sua vida. E Helena, no meio da poeira e do silêncio de seu novo império, sorriu. A construção da sua volta por cima estava apenas começando, e ela não pretendia economizar no concreto.

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