A luz do lustre de cristal da sala de jantar refletia-se nas taças de champanhe, criando pequenos prismas que dançavam sobre a mesa perfeitamente posta. Helena ajustou a posição de um dos talheres de prata pela terceira vez. Tudo precisava estar impecável. Aquela noite não era apenas mais um jantar; era a comemoração de dez anos de casamento e o anúncio de que a Construtora Albuquerque, sob o comando de seu marido Ricardo, havia acabado de ganhar a licitação para o maior complexo empresarial da capital.
Helena olhou para o próprio reflexo no espelho do hall. Aos 34 anos, ela exalava uma elegância contida. O vestido de seda pérola realçava sua postura ereta, mas seus olhos, se alguém olhasse de perto o suficiente, carregavam um cansaço que nem a melhor maquiagem conseguia esconder. Ela era arquiteta, mas há anos seus projetos eram apenas "sugestões" que Ricardo incorporava aos dele, colhendo todos os louros enquanto ela cuidava do marketing, da logística e da imagem da família.
O som do carro de Ricardo na garagem fez seu coração acelerar — não mais por paixão, mas por hábito.
— Helena! — a voz dele ecoou, vibrante. — Você não imagina o dia que eu tive! O prefeito assinou. Estamos ricos, minha querida! Mais ricos do que eu jamais sonhei.
Ricardo entrou na sala com o paletó pendurado no braço e o nó da gravata frouxo. Ele exalava o cheiro de sucesso, charutos e... algo mais. Um aroma floral, doce e invasivo que Helena não reconheceu como nenhum dos seus perfumes.
— Que notícia maravilhosa, Ricardo — disse ela, aproximando-se para um beijo que ele desviou levemente, oferecendo apenas a bochecha enquanto caminhava direto para o bar.
— Preparei um jantar especial. Lagosta, como você gosta. E mandei buscar aquela safra de 2012.
Ricardo serviu-se de um whisky puro, ignorando o champanhe que ela havia gelado. Ele parecia elétrico, mas não era com ela. Ele mal a olhava nos olhos.
— Ótimo, ótimo. Mas não se acostume, Helena. Com esse novo contrato, vou viajar muito. O canteiro de obras em Dubai vai exigir minha presença constante. Vou precisar de alguém jovem, com energia, para me acompanhar nas viagens técnicas.
— Eu posso ir, Ricardo. Sou a arquiteta sênior do escritório, esqueceu? Conheço o projeto estrutural melhor do que qualquer um.
Ricardo soltou uma risada curta e seca, que cortou o ar como vidro quebrado.
— Você? No canteiro de obras no deserto? Não seja ridícula. Você é o rosto da nossa casa, Helena. Sua função é garantir que esses jantares continuem perfeitos e que minha agenda social esteja em dia. Deixe a engenharia pesada para quem ainda tem fome de mundo.
Helena sentiu um nó na garganta. Ele estava falando dela como se fosse um eletrodoméstico que cumpria bem sua função, mas que já não tinha tecnologia para as novas demandas.
O jantar transcorreu em um monólogo dele sobre números e poder. No entanto, o momento que mudaria tudo aconteceu quando o celular de Ricardo, esquecido sobre o aparador, vibrou insistentemente. Ele estava no banheiro.
Helena, por puro instinto de organização, pegou o aparelho para guardá-lo. A tela brilhou com uma notificação de uma rede social. Não era um nome de empresa. Era uma mensagem de uma tal de "Bia V.".
"O champanhe de hoje à tarde foi pouco para o que vamos comemorar em Dubai. Mal posso esperar para ser sua 'consultora' oficial. Te amo, R."
O mundo de Helena não girou. Ele parou. O silêncio da casa, antes reconfortante, tornou-se sufocante. Ela olhou para a mesa, para as flores caras e para o homem que voltava do banheiro assobiando uma melodia qualquer. Naquele instante, o cristal da taça de Helena não foi a única coisa que se quebrou.
— Algum problema? — Ricardo perguntou, notando a palidez dela.
Helena colocou o celular de volta no lugar, com as mãos frias.
— Nenhum, Ricardo. Só percebi que a fundação desta casa está muito mais comprometida do que eu imaginava.
Ela deu as costas e subiu as escadas, deixando o marido confuso diante de uma lagosta que, de repente, parecia ter perdido todo o sabor.