Mundo ficciónIniciar sesiónRicardo tateou a mesa de centro em busca de água, encontrando apenas o cristal estilhaçado da noite anterior. As memórias da briga voltaram em flashes violentos: o rosto de Helena, gélido e estranho; as ameaças dela sobre o contrato de Dubai; a humilhação de ser desmascarado.
— Helena! — ele gritou, sua voz saindo rouca e falha. — Helena, traga um remédio para dor de cabeça! Chega desse teatro! O silêncio foi a única resposta. Irritado, ele se levantou, cambaleando até a cozinha. A cafeteira estava fria. Não havia o cheiro de torradas ou de café recém-passado que costumava pontuar suas manhãs há dez anos. Ele subiu as escadas, bufando, pronto para despejar sua frustração sobre a esposa, mas o quarto de hóspedes estava impecável. Vazio. Um frio repentino subiu pela espinha de Ricardo ao entrar na suíte master. O closet de Helena parecia intocado à primeira vista, mas, ao abrir a gaveta de joias, ele viu o vazio onde deveria estar o colar de esmeraldas. No espelho da penteadeira, não havia bilhetes de despedida dramáticos. Apenas um batom vermelho deixado de pé, como uma sentinela. Ele correu até o escritório. O laptop de Helena havia sumido. As pastas de arquivos físicos que ele nunca se dera ao trabalho de conferir estavam lá, mas ao abrir a gaveta de contratos, encontrou apenas folhas em branco. — Aquela louca... — ele sibilou, o pânico começando a substituir a raiva. — Ela acha que pode fugir? Ela não tem para onde ir! Ele pegou o telefone e discou para Helena. Caixa postal. Tentou novamente. O número que você ligou não existe. Ela não apenas havia desligado o aparelho; ela havia cancelado a linha. Ricardo sentiu um tremor nas mãos. Ele ligou para o escritório da Albuquerque & Associados. — Márcia? A Helena ligou para aí? Não? Se ela aparecer ou ligar, me avise imediatamente. E chame o Dr. Gustavo, meu advogado. Agora! Menos de uma hora depois, Ricardo estava no escritório principal da empresa, andando de um lado para o outro como um animal enjaulado. Dr. Gustavo, um homem de meia-idade com olhos astutos, analisava os registros digitais da empresa com uma expressão cada vez mais sombria. — Ricardo... temos um problema. Um problema de proporções catastróficas. — Do que você está falando? Ela só levou umas joias e um computador! Eu quero que você processe ela por roubo! Quero ela na cadeia! — Não é tão simples — Gustavo ajustou os óculos. — Helena não "levou" apenas arquivos. Ela ativou uma cláusula de propriedade intelectual que estava enterrada no contrato de constituição da holding. Todos os projetos assinados por ela, ou que tenham os rascunhos originais sob a autoria dela antes da fusão, estão agora bloqueados por uma liminar de uso. Ricardo sentiu o chão sumir. — O projeto de Dubai... os investidores chegam na semana que vem para a assinatura final dos detalhamentos técnicos! — Se ela retirar a autorização de uso dos direitos autorais desses projetos, você não tem nada para apresentar, Ricardo. Você terá apenas um terreno vazio e uma dívida bilionária com os árabes. Pior... ela moveu o usufruto das contas de reserva para uma conta judicial, alegando má gestão e desvio de patrimônio por sua parte. O monstro dentro de Ricardo finalmente despertou. Não o monstro do sucesso, mas o da destruição. Ele socou a mesa de carvalho com tanta força que o som ecoou por todo o andar. — Eu vou destruir essa mulher! Eu vou caçá-la em cada buraco desta cidade! Ela acha que é arquiteta? Eu vou garantir que ela nunca mais projete nem uma casinha de cachorro! — Ricardo, mantenha a calma. Precisamos encontrá-la primeiro. Se ela for à justiça com as provas de traição e desvio de verbas antes de negociarmos... você estará acabado. Ricardo não ouviu o final da frase. Ele já estava pegando o celular e discando para Bia V. — Bia? Esqueça o shopping. Preciso que você use seus contatos. Helena sumiu. Quero saber quem ajudou ela, onde ela está escondida e quem é o desgraçado que está dando cobertura para ela. Eu vou transformar a vida dela em um inferno tão grande que ela vai rastejar de volta pedindo perdão. Enquanto Ricardo espumava de ódio em sua sala luxuosa, Bia V. sorria do outro lado da linha, mas seus olhos brilhavam com uma sombra de dúvida. Ela queria o dinheiro de Ricardo, não os problemas dele. Ricardo Albuquerque achava que estava caçando uma fugitiva. Ele ainda não havia percebido que, na verdade, era ele quem estava preso no labirinto que Helena, com sua mente brilhante e metódica, havia acabado de projetar para ele. A caçada começou, mas o monstro estava correndo em direção a uma armadilha de concreto armado.






