Mundo ficciónIniciar sesiónDesde os três anos de idade, Lívia Vasconcelos conheceu apenas um lar: um orfanato onde cresceu, aprendeu a cuidar de outras crianças e construiu sua única noção de família. Aos vinte e um anos, obrigada a deixar o lugar que sempre chamou de casa, ela precisa recomeçar do zero em uma cidade onde não conhece ninguém — e com pouco dinheiro para sobreviver. Quando surge a oportunidade de trabalhar como babá na mansão da poderosa família Albuquerque, Lívia acredita que finalmente encontrou estabilidade. O que ela não esperava era encontrar uma casa marcada pelo silêncio, pela saudade e por feridas que ninguém teve coragem de enfrentar. Magno Albuquerque é um empresário bem-sucedido que se perdeu no próprio luto após a morte da esposa, Cecília. Ausente emocionalmente, ele delegou a criação dos filhos aos funcionários da casa, enquanto tenta manter a vida sob controle sem perceber o quanto a família está se desfazendo. Theo, o filho mais velho, transformou a dor em revolta silenciosa. Bella, a caçula, ainda procura nos gestos mais simples o carinho que perdeu cedo demais. A chegada de Lívia desperta sentimentos que nenhum deles estava preparado para enfrentar. Entre memórias, culpa e o medo de substituir o passado, ela se torna, sem perceber, o fio invisível que começa a reconstruir aquela família. Mas para que o amor volte a existir, todos precisarão aprender a fazer o mais difícil de tudo: viver… depois da perda.
Leer másO quarto da pensão era pequeno, mas limpo. Lívia gostava disso. Desde que chegara ali, há pouco mais de três semanas, aprendera a valorizar qualquer espaço que não tivesse cheiro de despedida.
Sentada na beira da cama estreita, ela contava o dinheiro pela terceira vez naquela manhã, como se os números pudessem mudar por pena dela. As notas estavam cuidadosamente dobradas, e as moedas faziam um som seco quando se chocavam dentro do pequeno pote de vidro que havia encontrado no armário do quarto. O resultado era sempre o mesmo. Pouco. Muito pouco. Ela soltou o ar devagar e deixou o pote sobre o criado-mudo improvisado — uma caixa de madeira virada de lado. O olhar percorreu o quarto simples: uma janela estreita, cortinas desbotadas, uma cômoda antiga e a cama onde dormia desde que deixara o único lugar que, por anos, ousou chamar de lar. O orfanato Lar Santa Esperança. Lívia fechou os olhos por um instante, e as lembranças vieram como sempre vinham — sem pedir licença. Ela tinha apenas três anos quando fora deixada na porta do orfanato. Não lembrava de rostos, nomes ou vozes daquele tempo. Suas primeiras memórias verdadeiras eram do pátio, do cheiro de sabonete infantil e do barulho constante de crianças correndo. Cresceu ali. Aprendeu a dividir tudo — brinquedos, roupas, atenção… até o silêncio. Passou quinze anos como interna. Depois, quando completou dezoito, a diretora permitiu que ela continuasse morando ali, desde que ajudasse com as crianças menores. Lívia nem precisou pensar duas vezes antes de aceitar. Cuidar delas era a única coisa que sabia fazer com segurança. Durante aqueles três anos como funcionária, fez cursos básicos, participou de oficinas, aprendeu primeiros socorros e técnicas de recreação infantil. E, sem perceber, descobriu que tinha uma habilidade natural para acalmar choros, medos e noites inquietas. Foi ali que começou a cantar para as crianças antes de dormir. Não porque alguém ensinara, mas porque parecia funcionar. As vozes infantis diminuíam, os olhos pesavam, e por alguns minutos o mundo parecia menos solitário para todos. Então, três semanas atrás, tudo mudou. A diretora morreu de forma repentina. E com ela, morreu também o lugar de Lívia naquele mundo. A nova administração foi direta e impessoal. O cargo que ela ocupava nunca existira oficialmente. Não havia contrato, registro ou qualquer documento que justificasse sua permanência ali. Ela precisou sair. Simples assim. Uma batida suave na porta interrompeu seus pensamentos. — Lívia? Está acordada, querida? Ela reconheceu imediatamente a voz da dona da pensão. — Estou sim, Dona Marta. Pode entrar. A mulher surgiu com o habitual sorriso acolhedor e um pano de prato apoiado no ombro. — Fiz café fresco. Pensei que você pudesse querer um pouco antes de sair para procurar emprego. Lívia sorriu de volta, agradecida. — Eu aceito, sim. Obrigada. Na cozinha simples da pensão, o cheiro de café recém-passado misturava-se ao de pão quente. O ambiente era barulhento, com o rádio antigo tocando música baixa e o som de panelas vindo do fogão. Era um contraste enorme com o silêncio disciplinado do orfanato, mas havia algo reconfortante ali. — E então? Alguma resposta das lojas onde você deixou currículo? — perguntou Dona Marta, servindo café em uma xícara lascada, mas limpa. Lívia balançou a cabeça negativamente. — Ainda não. A mulher suspirou, pensativa. — Olha… talvez você devesse tentar uma agência de empregos. Eles costumam ter mais contatos. Às vezes aparece vaga em casa de família, escola, essas coisas. O coração de Lívia acelerou levemente. — A senhora acha que vale a pena? — Acho que você leva jeito com criança. Dá para ver isso só de conversar com você. Aquelas palavras aqueceram algo dentro dela. — Eu vou tentar — respondeu, decidida. A agência ficava em uma rua movimentada do centro. O prédio era antigo, mas bem conservado. O ar condicionado deixava o ambiente frio demais, e o cheiro de papel e toner de impressora pairava no ar. Lívia aguardou sua vez observando outras pessoas sentadas ali, algumas confiantes, outras tão ansiosas quanto ela. Quando foi chamada, sentou-se diante de uma atendente de olhar atento e postura profissional. O cadastro levou quase uma hora. Perguntas, formulários, experiências, cursos. — Você tem experiência com crianças? — perguntou a mulher, digitando rapidamente. — Sim. Trabalhei três anos cuidando delas em um orfanato. A atendente ergueu as sobrancelhas, interessada. — Isso é bom. Muito bom. Minutos depois, ela franziu o cenho diante do computador. — Estranho… estou vendo duas vagas de babá que combinam com o seu perfil. Ela clicou em algumas abas, murmurando para si mesma. — Uma delas está confirmada… posso imprimir a carta de encaminhamento. O barulho da impressora preencheu o silêncio. — A outra… — a atendente chamou uma colega. — Essa vaga aqui ainda está aberta? A colega olhou rapidamente a tela. — Não. Já foi preenchida. Deve ser erro do sistema. Lívia tentou disfarçar a pontada de decepção, mas prestou atenção quando a atendente comentou, distraída: — Era para a casa dos Albuquerque. Magno Albuquerque, CEO de uma construtora. O nome ficou gravado em sua mente. Ela saiu dali segurando a única carta que recebera. A entrevista ocorreu naquela mesma tarde. A casa era bonita, os empregadores educados, mas formais demais. Fizeram perguntas, anotaram respostas e, ao final, disseram que ainda estavam na fase inicial de seleção. Lívia saiu com um sorriso educado e o coração apertado. Na calçada, respirou fundo. O sol começava a se pôr, tingindo o céu de laranja suave. Ela caminhou alguns passos sem direção, tentando ignorar o peso crescente no peito. O dinheiro estava acabando. O tempo também. Foi então que o nome voltou à sua mente. Magno Albuquerque. Ela parou no meio da calçada. Talvez fosse loucura. Talvez fosse desespero. Talvez fosse apenas a recusa silenciosa em aceitar mais uma porta fechada sem sequer tentar empurrá-la. Lívia puxou o papel onde anotara alguns dados da agência e releu o nome, como se confirmasse que ele ainda estava ali. Antes que pudesse mudar de ideia, levantou o braço e chamou um táxi. Durante o trajeto, suas mãos permaneceram entrelaçadas no colo, e o coração batia rápido demais. Quando o carro parou diante dos portões imponentes da mansão Albuquerque, ela sentiu o estômago revirar. Pagou o motorista, desceu e permaneceu parada por alguns segundos, encarando a construção elegante e silenciosa à sua frente. O lugar parecia bonito. E assustadoramente solitário. Lívia respirou fundo. Depois, caminhou até o portão e apertou a campainha. E, naquele instante, não fazia ideia de que aquela porta poderia mudar completamente a sua vida.O restaurante ficava a poucas quadras da empresa, discreto e frequentado quase exclusivamente por executivos da região. Magno costumava almoçar ali quando precisava discutir assuntos importantes longe das paredes envidraçadas do escritório. Naquela tarde, porém, ele mal tocava na comida. Gabriel percebeu antes mesmo de sentar-se. — Se você continuar encarando esse prato desse jeito, ele vai pedir demissão — comentou, acomodando-se na cadeira. Magno soltou um suspiro curto, apoiando os talheres sobre a mesa. — Eu só estou… distraído. — Você nunca está só distraído. O garçom se aproximou, serviu as bebidas e se afastou. Gabriel esperou até que estivessem novamente sozinhos antes de continuar. — Quer me contar ou prefere fingir que isso vai desaparecer sozinho? Magno demorou alguns segundos antes de responder. Observava o movimento da rua através do vidro, como se buscasse ali uma resposta mais simples do que a que sabia que precisava dar. — Aconteceram algumas coisas
A casa estava mergulhada na calmaria noturna quando Magno abriu os olhos no escuro. O relógio digital ao lado da cama marcava pouco depois das duas da manhã. Ele passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro cansado. Já havia tentado dormir duas vezes naquela noite. Em ambas, o sono chegara leve… e logo fora substituído por pensamentos que ele não queria organizar. Virou-se de lado, encarando a janela parcialmente aberta. A brisa noturna movimentava discretamente as cortinas, trazendo o perfume suave do jardim. A casa parecia diferente. Não havia mudanças visíveis, mas algo novo preenchia os espaços antes silenciosos — e aquilo o inquietava mais do que deveria. A lembrança do comentário na sorveteria atravessou sua mente, seguida pelo olhar atento de Theo do outro lado da mesa. Magno fechou os olhos por um instante, tentando afastar o desconforto que crescia dentro do peito. Não conseguiu. Sentou-se na cama, passando a mão pelos cabelos. O quarto parecia abafado demais… c
Os dias seguintes ao sábado na piscina tornaram-se desconfortáveis para Lívia. Magno não comentou o ocorrido, mas a lembrança do olhar dele ainda a fazia se retrair. Ela reorganizou a rotina com cuidado quase estratégico, evitando cruzar com ele nos corredores e passando mais tempo nos quartos das crianças. Sempre que podia, pedia autorização a Teresa para atividades externas, apenas para manter distância. Bella percebeu primeiro. — Você está brigada com o papai? Lívia sorriu enquanto organizava os brinquedos. — Claro que não, princesa. Por que acha isso? — Você fica estranha quando ele aparece. Ela soltou um riso leve e ajeitou o cabelo da menina. — Vamos terminar sua lição? Bella assentiu, mas manteve o olhar curioso. Naquela mesma semana, algo mudou na rotina da casa. Magno passou a chegar mais cedo. No primeiro dia, ninguém comentou. No segundo, Teresa percebeu. No terceiro, Theo percebeu. — O papai vai sair depois? — perguntou ele durante o jantar, mexen
Os sábados na mansão Albuquerque costumavam ser mornos. Magno raramente permanecia em casa nesses dias. Entre eventos corporativos, reuniões sociais e compromissos que ele mesmo organizava para evitar o vazio da residência, o sábado tornara-se apenas uma extensão formal da semana. Por isso, quando o carro dele cruzou os portões pouco depois das dez da manhã, nenhum funcionário havia sido avisado de sua presença. Ele entrou pela lateral da casa, removendo os óculos escuros enquanto caminhava pelo corredor que levava ao jardim. O som distante de risadas infantis fez com que diminuísse o passo. Era raro ouvir aquele tipo de som dentro da propriedade. Ao aproximar-se da área externa, avistou Bella primeiro. A menina pulava na borda da piscina, usando um maiô colorido e uma boia inflável presa à cintura, rindo sem qualquer preocupação. — Mais uma vez! — pediu, batendo as mãos na água. Magno franziu levemente o cenho… surpreso ao perceber que a filha estava sendo observada
A conversa com Magno permaneceu ecoando na mente de Lívia durante todo o restante da noite Ela executou cada uma de suas tarefas com a mesma dedicação habitual, mas algo em sua postura havia mudado. Seus movimentos tornaram-se mais cautelosos, quase calculados, como se estivesse constantemente preocupada em ultrapassar limites invisíveis. Theo se manteve indiferente à presença dela. Bella, por outro lado, observava Lívia com frequência… como se tentasse entender aquela distância repentina. Mais tarde, ao preparar as crianças para dormir, Lívia manteve o mesmo cuidado de sempre. Separou o pijama de Bella, organizou o material escolar de Theo e certificou-se de que ambos haviam escovado os dentes. — Boa noite — disse, tentando manter o tom suave de costume. Theo apenas assentiu antes de fechar a porta do quarto sem dizer nada. Bella abraçou Lívia com espontaneidade. — Você está triste? A pergunta pegou Lívia de surpresa. — Não, querida. Só estou um pouco cansada.
Magno chegou à mansão pro volta dás 20h, mais tarde do que o habitual. O dia havia sido longo, repleto de reuniões e decisões que exigiam precisão e frieza — territórios onde ele se sentia confortável. Mas havia um incômodo persistente desde a conversa com Gabriel. Ele entregou o paletó a um dos funcionários e seguiu pelo corredor principal, afrouxando discretamente o nó da gravata. — Teresa — chamou ao avistá-la saindo da sala de jantar A governanta parou imediatamente. — Magno. — Recebi uma mensagem da escola confirmando que o assunto foi resolvido. Você conseguiu ir até lá? Teresa hesitou apenas o suficiente para indicar que a resposta não seria a esperada. — Não fui eu. Magno franziu o cenho. — Como assim? — Enviei a Lívia. A pausa que se instalou foi densa. — Você enviou… a babá? — Ela está oficialmente responsável pelas crianças durante o dia. Além disso, eu estava impossibilitada de sair da casa naquele momento. Magno cruzou os braços, absorvendo





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