Mundo de ficçãoIniciar sessãoLívia acordou antes mesmo do despertador tocar.
Demorou alguns segundos para lembrar onde estava. O teto claro, as cortinas elegantes e o cheiro suave das flores sobre o criado-mudo a fizeram retornar rapidamente à realidade. A mansão Albuquerque. E a conversa com Magno. Ela sentou-se na cama, respirando fundo. O nervosismo não era exatamente medo, mas algo próximo disso. Era a sensação de estar prestes a ser avaliada por alguém que representava muito mais do que apenas um chefe. Vestiu-se com cuidado o uniforme simples de babá. Prendeu o cabelo em um coque baixo, tentando transmitir organização e profissionalismo. Antes de sair do quarto, conferiu duas vezes se tudo estava em ordem — um hábito antigo, herdado dos anos no orfanato. No corredor, encontrou Teresa coordenando a movimentação da casa com a natural autoridade de quem conhecia cada detalhe daquele lugar. — Bom dia, Lívia — disse a governanta. — Bom dia. — As crianças já estão terminando o café. Pode acompanhá-las. Lívia assentiu, aliviada por poder começar o dia com algo familiar. O café da manhã transcorreu de forma tranquila. Bella conversava animadamente sobre uma atividade da escola enquanto Theo permanecia mais reservado, mas, ao menos, não evitava completamente a presença dela. Lívia ajudou discretamente a organizar as mochilas, observando os pequenos detalhes da rotina das crianças. Quando elas saíram acompanhadas pelo motorista, sentiu o silêncio da casa retornar, mais evidente sem a energia infantil preenchendo os espaços. Teresa surgiu logo em seguida. — O senhor Magno já está no escritório. Pode ir até lá. O estômago de Lívia se contraiu levemente. — Onde fica? — Final do corredor oeste. A última porta à direita. Lívia agradeceu e seguiu pelo caminho indicado, sentindo o som dos próprios passos ecoar mais alto do que gostaria. Parou diante da porta escura e respirou fundo antes de bater duas vezes. — Entre. A voz masculina veio firme, grave e controlada. Ela girou a maçaneta. O escritório era amplo, com paredes revestidas por estantes repletas de livros e documentos organizados com precisão. A luz natural entrava pelas janelas altas, iluminando parcialmente a grande mesa de madeira escura atrás da qual Magno Albuquerque estava sentado. Ele não se levantou. Magno analisava alguns papéis quando ela entrou, mas ergueu os olhos poucos segundos depois. O olhar dele percorreu Lívia de forma rápida e avaliativa, como se registrasse cada detalhe. Era jovem — mais do que ele imaginava. Tinha cabelos longos caindo sobre os ombros e uma beleza natural, sem esforço. As curvas femininas se insinuavam sob o uniforme simples, contrastando com a postura contida, quase cuidadosa demais. Ele voltou a atenção para os papéis, levemente incomodado por ter notado aquilo. — Lívia Vasconcelos. Não era uma pergunta. — Sim, senhor. Ele fez um leve gesto indicando a cadeira à frente da mesa. — Sente-se. Lívia obedeceu, mantendo a postura ereta e as mãos repousadas sobre o colo para evitar demonstrar o nervosismo. Magno fechou a pasta que analisava e cruzou os dedos sobre a mesa. — Teresa me informou sobre sua contratação… incomum. O tom era neutro, mas carregava uma rigidez evidente. — Sim, senhor. — Costuma procurar empregos sem encaminhamento formal? Ela engoliu seco antes de responder. — Não costumo. Mas… achei que valeria a tentativa. Ele a observou em silêncio por alguns segundos. — O que a fez acreditar que seria uma boa ideia insistir em uma vaga para qual não tinha indicação? Lívia respirou fundo. — Necessidade… e esperança. Uma leve tensão atravessou o ambiente. Magno inclinou-se discretamente para trás na cadeira, mantendo o olhar fixo nela. — Teresa disse que você trabalhou em um orfanato durante muitos anos. — Sim, senhor. Vivi lá desde os três anos. Trabalhei como auxiliar nos últimos anos. Ele assentiu lentamente. — Isso explica sua experiência com crianças… mas esta casa possui uma dinâmica específica. Meus filhos passaram por situações delicadas e não tolero instabilidade na rotina deles. — Eu entendo. — Entende mesmo? A pergunta veio direta, quase cortante. Lívia sustentou o olhar dele com cuidado. — Talvez eu não entenda exatamente a dor deles… mas entendo o que significa perder um lugar seguro. O silêncio que se seguiu foi pesado. Magno desviou o olhar brevemente, como se aquela resposta tivesse tocado algo que ele não pretendia revisitar. — Ouvi você cantando ontem à noite — disse ele, retomando o tom profissional. O rosto de Lívia corou levemente. — Era apenas uma canção de ninar. — Não era uma música que eu conhecesse. — Aprendi no orfanato. Costumávamos cantar para ajudar as crianças menores a dormirem. Magno tamborilou os dedos levemente sobre a mesa, pensativo. — Minha esposa… costumava cantar para nossos filhos. A frase saiu seca, quase mecânica, como se fosse uma informação administrativa e não uma memória pessoal. — Desde que ela morreu… evito mudanças que possam confundir as crianças. Lívia assentiu com respeito. — Se o senhor preferir, posso evitar cantar. Ele ergueu o olhar rapidamente, avaliando-a. — Bella dormiu melhor ontem — respondeu após alguns segundos. — Theo não reclamou durante a noite. Isso… não costuma acontecer. Ela permaneceu em silêncio, sem saber se aquilo era aprovação ou apenas observação. Magno abriu uma gaveta e retirou um pequeno documento. — Aqui estão as regras básicas da casa. Horários, rotinas, responsabilidades. Espero que sejam seguidas com precisão. Ele deslizou o papel sobre a mesa. Lívia pegou o documento com cuidado. — Sim, senhor. — Outro ponto — continuou ele. — Meus filhos são prioridade absoluta. Qualquer decisão que envolva eles deve ser comunicada à Teresa… ou a mim, se necessário. — Entendido. Magno permaneceu observando-a por alguns segundos, como se procurasse algo que ele mesmo não sabia definir. — Não costumo repetir orientações — disse por fim. — Se permanecer nesta casa, espero profissionalismo, discrição e constância. — O senhor terá isso. A firmeza na voz dela pareceu surpreendê-lo discretamente. Ele assentiu uma única vez. — Pode voltar às suas atividades. Lívia levantou-se, mas hesitou antes de sair. — Senhor Albuquerque… Ele ergueu o olhar novamente. — Obrigada pela oportunidade. Magno sustentou o olhar dela por um instante mais longo do que o necessário. Não respondeu. Apenas fez um leve gesto com a cabeça, dispensando-a. Quando a porta do escritório se fechou, Magno permaneceu imóvel, encarando o ponto onde ela estivera segundos antes. Havia algo naquela jovem que o incomodava. Não era incompetência. Não era inadequação. Era a tranquilidade com que ela falava sobre perdas, como se carregasse cicatrizes que ele reconhecia… e isso o deixava desconfortavelmente atento. Ele recostou-se na cadeira, soltando o ar lentamente. Do outro lado do corredor, Lívia caminhava com passos controlados, tentando manter a postura profissional até virar a esquina. Só então permitiu-se respirar fundo, sentindo o peso da tensão finalmente deixar seus ombros. Não sabia se havia causado uma boa impressão. Mas sabia que, pela primeira vez desde que entrara naquela casa, o verdadeiro desafio havia começado.






