Mundo de ficçãoIniciar sessãoLívia acordou antes mesmo do despertador tocar.
Demorou alguns segundos para lembrar onde estava. O quarto. A mansão. E, principalmente… a conversa que teria naquela manhã. Ela se sentou na cama, respirando fundo. Não era exatamente medo. Era a sensação de estar prestes a ser analisada por alguém que não aceitava erros. Vestiu o uniforme com cuidado, prendeu o cabelo e conferiu tudo ao redor antes de sair. Velhos hábitos. No corredor, encontrou Teresa organizando a rotina da casa. — Bom dia, Lívia. — Bom dia. — As crianças já estão terminando o café. Aquilo ajudou. Começar com algo familiar sempre ajudava. O café da manhã foi tranquilo. Bella falava animadamente. Theo permanecia mais fechado, mas não a evitava completamente. Já era um começo. Depois que as crianças saíram, o silêncio voltou. E com ele… a lembrança do que vinha a seguir. — Ele está no escritório — disse Teresa. — Pode ir. O coração de Lívia acelerou. Ela assentiu. O caminho até o corredor oeste pareceu mais longo do que realmente era. Parou diante da porta. Respirou fundo. Bateu. — Entre. A voz dele era exatamente como ela lembrava. Firme. Controlada. Ela entrou. O escritório era amplo, organizado demais. Tudo no lugar certo. Sem excessos. Sem distrações. Como ele. Magno não se levantou. Estava analisando alguns papéis, mas ergueu os olhos segundos depois. E parou. O olhar percorreu Lívia de forma rápida. Mas não superficial. Atento. Detalhista. Mais do que deveria. Ela era bonita. Não de um jeito chamativo… mas de um jeito que prendia o olhar. E isso foi o que mais o incomodou. E havia algo… diferente. Natural. Sem esforço. Magno desviou o olhar de volta para os documentos. Levemente incomodado. — Lívia Vasconcelos. — Sim. Ele indicou a cadeira. — Sente-se. Ela obedeceu. Postura firme. Mãos quietas no colo. Mas o coração… acelerado demais. Magno fechou a pasta. — Teresa me explicou como você chegou até aqui. O tom era neutro. Mas havia julgamento ali. — Não costumo ver esse tipo de iniciativa. Lívia sustentou o olhar. — Eu precisava tentar. Silêncio. Ele a observou por alguns segundos. — E achou que insistir em uma vaga sem indicação seria uma boa ideia? — Achei que não tentar seria pior. A resposta veio firme. Sem hesitação. Aquilo o fez recuar levemente na cadeira. Interessante. — Trabalhou em um orfanato. — Sim. — Isso explica sua experiência. Ele fez uma pausa. — Mas esta casa não é um orfanato. A frase veio direta. Cortante. Lívia não desviou. — Eu sei. — Meus filhos não precisam de improviso. Precisam de estabilidade. — E é isso que eu ofereço. A resposta veio rápida demais. Segura demais. Os olhos dele se estreitaram levemente. — Tem certeza? Ela respirou fundo. — Eu sei o que é crescer sem estabilidade. E sei o que isso causa. Silêncio. Mais pesado agora. Magno desviou o olhar por um instante. Aquilo… tocou. E ele não gostou. — Sobre ontem à noite... você cantando. Lívia hesitou. — Foi só para ajudar Bella a dormir. — Minha esposa fazia isso. A frase saiu sem emoção. Mas o peso estava lá. — Desde que ela morreu… evito mudanças desnecessárias. — Se o senhor quiser, eu paro. Magno ergueu o olhar imediatamente. E ficou quieto. Por alguns segundos. — Ela dormiu melhor. Lívia não respondeu. — Theo não reclamou. Outro silêncio. — Isso não tem sido muito comum. Agora havia algo diferente no tom dele. Menos rígido. Mais… atento. Magno abriu a gaveta e pegou um documento. — Regras da casa. Deslizou o papel até ela. — Horários, rotina, responsabilidades. Lívia pegou. — Eu vou seguir tudo. Ele assentiu. Mas não desviou o olhar. — Meus filhos vêm primeiro. Sempre. — Eu entendi. — E qualquer decisão passa por mim ou pela Teresa. — Certo. Silêncio. Mais uma vez. Mas agora… diferente. Ele ainda a observava. Como se procurasse algo. Ou tentando entender por que ainda não a dispensou. — Eu não gosto de repetir instruções — disse por fim. — Não vai precisar. A resposta foi calma. Segura. E, por algum motivo… isso o incomodou mais do que deveria. Lívia se levantou. Mas antes de sair, parou. — Obrigada pela oportunidade. Magno a encarou. Dessa vez… por mais tempo. Sem pressa. Sem desviar. E pela primeira vez desde que ela entrou naquela sala… não parecia apenas avaliando. Parecia… percebendo. — Vamos ver quanto tempo você dura aqui — disse. Mas o tom não era exatamente um aviso. Era quase um desafio. Lívia sustentou o olhar. — Eu não costumo desistir fácil. Silêncio. Denso. Carregado. E então ela saiu. A porta se fechou. Magno permaneceu imóvel. O olhar ainda fixo no espaço vazio. Havia algo errado. Não com ela. Com a forma como ela o fazia sentir. Ele recostou-se na cadeira, soltando o ar lentamente. — Não… — murmurou. Aquilo não podia acontecer. Mas, pela primeira vez em muito tempo… não tinha certeza se conseguiria impedir. E ele não gostou.






