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Capítulo 5 — Regras da casa

Lívia acordou antes mesmo do despertador tocar.

Demorou alguns segundos para lembrar onde estava. O teto claro, as cortinas elegantes e o cheiro suave das flores sobre o criado-mudo a fizeram retornar rapidamente à realidade.

A mansão Albuquerque.

E a conversa com Magno.

Ela sentou-se na cama, respirando fundo. O nervosismo não era exatamente medo, mas algo próximo disso. Era a sensação de estar prestes a ser avaliada por alguém que representava muito mais do que apenas um chefe.

Vestiu-se com cuidado o uniforme simples de babá. Prendeu o cabelo em um coque baixo, tentando transmitir organização e profissionalismo. Antes de sair do quarto, conferiu duas vezes se tudo estava em ordem — um hábito antigo, herdado dos anos no orfanato.

No corredor, encontrou Teresa coordenando a movimentação da casa com a natural autoridade de quem conhecia cada detalhe daquele lugar.

— Bom dia, Lívia — disse a governanta.

— Bom dia.

— As crianças já estão terminando o café. Pode acompanhá-las.

Lívia assentiu, aliviada por poder começar o dia com algo familiar.

O café da manhã transcorreu de forma tranquila. Bella conversava animadamente sobre uma atividade da escola enquanto Theo permanecia mais reservado, mas, ao menos, não evitava completamente a presença dela.

Lívia ajudou discretamente a organizar as mochilas, observando os pequenos detalhes da rotina das crianças. Quando elas saíram acompanhadas pelo motorista, sentiu o silêncio da casa retornar, mais evidente sem a energia infantil preenchendo os espaços.

Teresa surgiu logo em seguida.

— O senhor Magno já está no escritório. Pode ir até lá.

O estômago de Lívia se contraiu levemente.

— Onde fica?

— Final do corredor oeste. A última porta à direita.

Lívia agradeceu e seguiu pelo caminho indicado, sentindo o som dos próprios passos ecoar mais alto do que gostaria. Parou diante da porta escura e respirou fundo antes de bater duas vezes.

— Entre.

A voz masculina veio firme, grave e controlada.

Ela girou a maçaneta.

O escritório era amplo, com paredes revestidas por estantes repletas de livros e documentos organizados com precisão. A luz natural entrava pelas janelas altas, iluminando parcialmente a grande mesa de madeira escura atrás da qual Magno Albuquerque estava sentado.

Ele não se levantou.

Magno analisava alguns papéis quando ela entrou, mas ergueu os olhos poucos segundos depois.

O olhar dele percorreu Lívia de forma rápida e avaliativa, como se registrasse cada detalhe. Era jovem — mais do que ele imaginava. Tinha cabelos longos caindo sobre os ombros e uma beleza natural, sem esforço. As curvas femininas se insinuavam sob o uniforme simples, contrastando com a postura contida, quase cuidadosa demais.

Ele voltou a atenção para os papéis, levemente incomodado por ter notado aquilo.

— Lívia Vasconcelos.

Não era uma pergunta.

— Sim, senhor.

Ele fez um leve gesto indicando a cadeira à frente da mesa.

— Sente-se.

Lívia obedeceu, mantendo a postura ereta e as mãos repousadas sobre o colo para evitar demonstrar o nervosismo.

Magno fechou a pasta que analisava e cruzou os dedos sobre a mesa.

— Teresa me informou sobre sua contratação… incomum.

O tom era neutro, mas carregava uma rigidez evidente.

— Sim, senhor.

— Costuma procurar empregos sem encaminhamento formal?

Ela engoliu seco antes de responder.

— Não costumo. Mas… achei que valeria a tentativa.

Ele a observou em silêncio por alguns segundos.

— O que a fez acreditar que seria uma boa ideia insistir em uma vaga para qual não tinha indicação?

Lívia respirou fundo.

— Necessidade… e esperança.

Uma leve tensão atravessou o ambiente.

Magno inclinou-se discretamente para trás na cadeira, mantendo o olhar fixo nela.

— Teresa disse que você trabalhou em um orfanato durante muitos anos.

— Sim, senhor. Vivi lá desde os três anos. Trabalhei como auxiliar nos últimos anos.

Ele assentiu lentamente.

— Isso explica sua experiência com crianças… mas esta casa possui uma dinâmica específica. Meus filhos passaram por situações delicadas e não tolero instabilidade na rotina deles.

— Eu entendo.

— Entende mesmo?

A pergunta veio direta, quase cortante.

Lívia sustentou o olhar dele com cuidado.

— Talvez eu não entenda exatamente a dor deles… mas entendo o que significa perder um lugar seguro.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Magno desviou o olhar brevemente, como se aquela resposta tivesse tocado algo que ele não pretendia revisitar.

— Ouvi você cantando ontem à noite — disse ele, retomando o tom profissional.

O rosto de Lívia corou levemente.

— Era apenas uma canção de ninar.

— Não era uma música que eu conhecesse.

— Aprendi no orfanato. Costumávamos cantar para ajudar as crianças menores a dormirem.

Magno tamborilou os dedos levemente sobre a mesa, pensativo.

— Minha esposa… costumava cantar para nossos filhos.

A frase saiu seca, quase mecânica, como se fosse uma informação administrativa e não uma memória pessoal.

— Desde que ela morreu… evito mudanças que possam confundir as crianças.

Lívia assentiu com respeito.

— Se o senhor preferir, posso evitar cantar.

Ele ergueu o olhar rapidamente, avaliando-a.

— Bella dormiu melhor ontem — respondeu após alguns segundos. — Theo não reclamou durante a noite. Isso… não costuma acontecer.

Ela permaneceu em silêncio, sem saber se aquilo era aprovação ou apenas observação.

Magno abriu uma gaveta e retirou um pequeno documento.

— Aqui estão as regras básicas da casa. Horários, rotinas, responsabilidades. Espero que sejam seguidas com precisão.

Ele deslizou o papel sobre a mesa.

Lívia pegou o documento com cuidado.

— Sim, senhor.

— Outro ponto — continuou ele. — Meus filhos são prioridade absoluta. Qualquer decisão que envolva eles deve ser comunicada à Teresa… ou a mim, se necessário.

— Entendido.

Magno permaneceu observando-a por alguns segundos, como se procurasse algo que ele mesmo não sabia definir.

— Não costumo repetir orientações — disse por fim. — Se permanecer nesta casa, espero profissionalismo, discrição e constância.

— O senhor terá isso.

A firmeza na voz dela pareceu surpreendê-lo discretamente.

Ele assentiu uma única vez.

— Pode voltar às suas atividades.

Lívia levantou-se, mas hesitou antes de sair.

— Senhor Albuquerque…

Ele ergueu o olhar novamente.

— Obrigada pela oportunidade.

Magno sustentou o olhar dela por um instante mais longo do que o necessário. Não respondeu. Apenas fez um leve gesto com a cabeça, dispensando-a.

Quando a porta do escritório se fechou, Magno permaneceu imóvel, encarando o ponto onde ela estivera segundos antes.

Havia algo naquela jovem que o incomodava.

Não era incompetência.

Não era inadequação.

Era a tranquilidade com que ela falava sobre perdas, como se carregasse cicatrizes que ele reconhecia… e isso o deixava desconfortavelmente atento.

Ele recostou-se na cadeira, soltando o ar lentamente.

Do outro lado do corredor, Lívia caminhava com passos controlados, tentando manter a postura profissional até virar a esquina. Só então permitiu-se respirar fundo, sentindo o peso da tensão finalmente deixar seus ombros.

Não sabia se havia causado uma boa impressão.

Mas sabia que, pela primeira vez desde que entrara naquela casa, o verdadeiro desafio havia começado.

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