Início / Romance / A Babá Que Eu Não Podia Amar / Capítulo 9 — Palavras Que Ferem
Capítulo 9 — Palavras Que Ferem

O final da tarde caiu sobre a mansão com um peso incomum.

O desenho de Bella ainda estava sobre a mesa da sala de estar, com traços incompletos e manchas leves onde lágrimas haviam borrado a tinta. Lívia permanecia ao lado da menina, ajudando-a a reorganizar os materiais com gestos tranquilos, tentando devolver ao ambiente uma sensação de normalidade que claramente havia se perdido.

Foi quando passos firmes ecoaram pelo corredor.

Magno surgiu na entrada da sala.

O olhar dele percorreu rapidamente o ambiente — o desenho espalhado, os lápis fora do lugar, Bella ainda com os olhos avermelhados… e, por fim, pousou em Lívia.

— O que aconteceu aqui?

O tom era controlado, mas carregado de tensão.

Lívia levantou-se imediatamente.

— Foi apenas um desentendimento, senhor Albuquerque. Theo ficou—

— Eu ouvi.

A interrupção veio seca.

Bella segurou a barra da blusa de Lívia, escondendo-se parcialmente atrás dela sem perceber.

Magno observou o gesto com expressão indecifrável.

— Meu filho se sentiu desconfortável dentro da própria casa — continuou ele, mantendo o olhar fixo em Lívia. — E isso aconteceu enquanto estava sob sua responsabilidade.

Lívia sentiu o impacto das palavras, mas manteve a postura.

— Theo reagiu ao trabalho escolar da Bella. Eu estava apenas ajudando ela a entender a atividade.

— Ajudando… ou ultrapassando limites que não lhe cabem?

O silêncio que se formou pareceu cortar o ar.

— Eu jamais ultrapassaria os limites da minha função — respondeu ela, com firmeza respeitosa. — Bella pediu ajuda com um trabalho sobre família. Eu apenas ofereci apoio.

Magno cruzou os braços, rígido.

— Meus filhos passaram por perda que a senhora não compreende. Qualquer interferência inadequada pode piorar o estado emocional deles.

Antes que Lívia pudesse responder, Bella deu um passo à frente, o rosto ainda molhado pelas lágrimas recentes.

— A culpa não foi dela!

A voz da menina saiu mais alta do que o habitual, tremendo, mas decidida.

Magno voltou o olhar para a filha, surpreso.

— Bella—

— Eu pedi ajuda! — insistiu ela, segurando o papel amassado do trabalho. — Eu que fiquei confusa… Theo que ficou bravo… a Lívia só tentou ajudar!

O silêncio caiu pesado sobre o ambiente.

Lívia colocou a mão suavemente no ombro da menina.

— Bella, tudo bem…

— Não está tudo bem! — ela respondeu, agora chorando novamente. — Todo mundo vai embora e quando alguém tenta ajudar vocês ficam brigando!

A frase ecoou pela sala como um vidro quebrando.

Magno permaneceu imóvel por alguns segundos. O rosto endurecido parecia uma máscara que escondia algo muito mais profundo.

Ele desviou o olhar.

— Suba para o seu quarto, Bella.

A menina hesitou, olhando para Lívia como se pedisse permissão silenciosa. Lívia assentiu com um gesto leve, tentando transmitir segurança.

Bella subiu as escadas lentamente, ainda soluçando.

Quando ficaram sozinhos, o silêncio tornou-se quase insuportável.

Magno voltou-se para Lívia.

— Espero que entenda que minha prioridade absoluta são meus filhos. Não posso permitir que situações como essa se repitam.

A bronca vinha fria, formal… e, para Lívia, dolorosamente injusta.

Mesmo assim, ela manteve o controle.

— Eu compreendo sua preocupação, senhor Albuquerque. Mas também acredito que ignorar os sentimentos deles não vai protegê-los.

O olhar dele endureceu imediatamente.

— Está sugerindo que não sei cuidar dos meus próprios filhos?

— Não. Estou dizendo que eles ainda estão tentando entender a dor que sentem.

O silêncio seguinte foi carregado de tensão quase palpável.

Magno sustentou o olhar dela por alguns segundos, claramente irritado… mas também desconcertado.

— Limite-se às suas funções, senhorita Vasconcelos.

A formalidade no tratamento foi mais cortante do que qualquer tom de voz elevado.

Ele virou-se e saiu da sala sem esperar resposta.

Lívia permaneceu parada por alguns segundos, tentando reorganizar os próprios pensamentos. Sentia o peito apertado, não pela bronca em si, mas pela sensação clara de que havia tocado em uma ferida que ninguém naquela casa parecia disposto a enfrentar.

— Venha comigo, querida.

A voz suave de Teresa surgiu atrás dela.

Lívia virou-se, surpresa por não ter percebido a chegada da governanta.

— Eu… sinto muito pelo que aconteceu.

Teresa fez um pequeno gesto com a cabeça.

— Você não tem do que se desculpar.

Ela conduziu Lívia até a pequena sala próxima à cozinha, fechando a porta com cuidado. O ambiente era mais acolhedor, com iluminação suave e cheiro de chá recém-preparado.

Teresa serviu duas xícaras antes de sentar-se à frente dela.

— Magno não é um homem cruel — disse com calma. — Mas é um homem que se perdeu depois da morte da esposa.

Lívia segurou a xícara quente entre as mãos, em silêncio.

— Cecília era… o equilíbrio dessa casa — continuou Teresa. — Alegre, paciente, cheia de luz. Ela mantinha Magno próximo dos filhos, lembrava ele de descansar, de brincar, de viver.

O olhar da governanta suavizou ao recordar.

— Quando ela morreu… ele se enterrou no trabalho. Achou que sustentar a casa financeiramente seria suficiente para manter tudo de pé.

— E não foi — murmurou Lívia.

Teresa balançou a cabeça negativamente.

— Theo sentiu a ausência da mãe… e, aos poucos, a ausência do pai também. Bella praticamente cresceu cercada por empregados.

O silêncio se instalou por alguns segundos.

— A música… — Teresa continuou — era algo muito especial para Cecília. Ela cantava para acalmar as crianças, para alegrar a casa… para lembrar Magno de que a vida podia ser leve.

Lívia abaixou o olhar, absorvendo cada palavra.

— Quando você cantou pela primeira vez… achei que ele mandaria você parar imediatamente — confessou Teresa. — Mas ele não fez isso. Isso já significa mais do que imagina.

— Ele parece me odiar.

Teresa soltou um pequeno sorriso compreensivo.

— Ele odeia qualquer coisa que o faça lembrar do que perdeu… ou do que ainda pode perder.

Lívia permaneceu em silêncio, sentindo o peso daquela verdade.

— Não desista fácil — disse Teresa com suavidade. — Essa casa precisa de alguém que não tenha medo de permanecer… mesmo quando ninguém pede para ficar.

Lívia respirou fundo, sentindo a emoção apertar a garganta.

— Eu não tenho outro lugar para ir.

Teresa tocou a mão dela com carinho.

— Talvez… você tenha acabado de encontrar um lugar para ficar. Mesmo que ainda não saiba disso.

No andar superior, Magno permanecia sozinho no escritório, encarando relatórios que não conseguia ler.

A voz de Bella ecoava na memória dele.

“Todo mundo vai embora…”

Ele fechou os olhos por um instante, mas não subiu para falar com Theo. Não foi ao quarto da filha. Não tentou consertar nada.

Apenas permaneceu sentado, preso entre o orgulho e a culpa que se recusava a admitir.

E, pela primeira vez desde que contratara Lívia, ele começou a perceber que a presença dela não representava apenas uma mudança na rotina da casa.

Representava uma ameaça ao muro que ele passara anos construindo ao redor do próprio coração.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App