Capítulo 4 — Lembranças

Magno caminhou pelo corredor em silêncio após deixar Teresa na pequena sala próxima à escada. O som abafado dos próprios passos ecoava contra o piso polido, mas ele mal percebia. A melodia que ouvira ainda vibrava em algum lugar dentro dele, como um eco que se recusava a desaparecer.

Ao entrar no quarto, fechou a porta com cuidado, apoiando a mão na madeira por alguns segundos, como se precisasse daquele contato para se manter presente.

O cômodo permanecia praticamente intacto, mesmo após tantos anos. Os móveis continuavam nos mesmos lugares, as cortinas do mesmo tom suave escolhido por Cecília, e sobre a cômoda repousava uma fotografia emoldurada.

Ele evitava olhar para ela.

Naquela noite, não conseguiu.

Magno caminhou lentamente até o móvel e pegou o porta-retrato. Cecília sorria na imagem, com o cabelo solto e o olhar luminoso, segurando Theo ainda bebê nos braços. Ele se lembrava exatamente daquele dia. Lembrava da risada dela ecoando pela casa, da facilidade com que transformava qualquer instante comum em algo especial.

A lembrança veio sem aviso.

Cecília sentada na poltrona próxima à janela, a luz da tarde desenhando contornos dourados ao redor dela. Theo, com poucos meses de vida, aninhado contra o peito da mãe enquanto ela cantava uma canção suave, repetindo a melodia como se embalasse o próprio tempo.

Magno estava encostado no batente da porta, observando em silêncio, encantado com a forma como Theo relaxava ao som da voz dela.

— Você vai estragar nosso filho desse jeito — ele provocou, sorrindo.

Cecília ergueu os olhos, divertida.

— Estou só ensinando ele que o mundo pode ser um lugar gentil.

A memória mudou, avançando sem que ele pudesse impedir.

Cecília estava grávida de Bella. Sentada na cama, segurava o próprio ventre com carinho enquanto cantarolava a mesma música, agora em tom ainda mais baixo. Ele estava ao lado dela, com a mão apoiada sobre a barriga, sentindo os pequenos movimentos da filha que ainda nem conhecia.

— Ela também precisa ouvir — Cecília dissera, com um sorriso sereno. — Para saber que já é amada antes mesmo de nascer.

O aperto no peito de Magno veio forte demais.

Ele piscou várias vezes, tentando afastar as imagens, mas elas pareciam gravadas na própria pele. Colocou o porta-retrato de volta no lugar e passou as mãos pelo rosto, respirando fundo.

A música daquela noite… não era a mesma. Mas carregava a mesma delicadeza. A mesma sensação de abrigo que ele julgava ter perdido para sempre.

Magno caminhou até a janela, observando a escuridão que cobria os jardins. Não gostava de admitir, nem para si mesmo, mas algo naquela voz desconhecida havia despertado memórias que ele mantinha cuidadosamente trancadas.

E isso o incomodava.

No andar inferior, Lívia desceu as escadas com passos cautelosos. O silêncio da casa à noite parecia diferente — menos pesado do que quando chegara, mas ainda carregado de uma quietude respeitosa.

Teresa a aguardava próxima à sala de jantar.

— Estava mesmo esperando você — disse a governanta, com naturalidade. — Venha. Vou apresentá-la ao restante da equipe.

Lívia assentiu, sentindo o nervosismo retornar discretamente.

A cozinha era ampla e iluminada, com cheiro acolhedor de comida recém-preparada. Três pessoas estavam organizando os últimos detalhes do jantar.

— Pessoal, esta é a Lívia, a nova babá — anunciou Teresa.

Uma mulher de expressão gentil e avental impecável aproximou-se primeiro.

— Prazer, querida. Sou Helena, cozinheira da casa.

— Prazer — respondeu Lívia, sorrindo.

— Eu sou Jorge — disse um homem de meia-idade, limpando as mãos em um pano antes de cumprimentá-la. — Cuido da manutenção e dos jardins.

— E eu sou Rosa — completou uma mulher mais jovem, com postura tímida. — Auxiliar da limpeza.

Lívia cumprimentou todos com educação, sentindo-se surpreendentemente acolhida. Havia uma familiaridade simples naquele ambiente que a fez lembrar, por um instante, das funcionárias do orfanato que cuidavam das crianças com carinho.

— A rotina da casa costuma ser tranquila — explicou Teresa. — Mas todos aqui trabalham em harmonia. Qualquer dúvida, você pode procurar qualquer um deles.

— Obrigada… de verdade.

Helena serviu o jantar em pratos simples, porém bem apresentados. Lívia sentou-se um pouco afastada, ainda tentando entender qual era exatamente seu lugar naquele novo universo.

A conversa entre os funcionários fluía com naturalidade, entre comentários sobre compras, manutenção da casa e pequenos acontecimentos do dia. Era uma convivência respeitosa, quase familiar, mas com limites bem definidos.

Após alguns minutos, Teresa voltou-se para ela.

— Preciso avisá-la de algo importante.

Lívia ergueu os olhos imediatamente.

— O senhor Magno pediu para conversar com você amanhã pela manhã.

O garfo parou no meio do caminho.

— Comigo?

— Sim.

O coração de Lívia acelerou.

— Eu… fiz algo errado?

Teresa soltou um pequeno suspiro, quase divertido.

— Não que eu saiba.

O rosto de Lívia aqueceu levemente.

— Imagino que ele queira conhecê-la oficialmente — continuou Teresa, com suavidade. — O senhor Magno costuma ser reservado, mas é um homem justo.

Lívia assentiu, tentando controlar a ansiedade que começava a crescer no peito.

— A que horas devo descer?

— Após o café da manhã das crianças. Eu a aviso quando ele estiver disponível.

Lívia voltou a comer, embora o sabor da comida agora passasse quase despercebido diante do turbilhão de pensamentos. A imagem que construía mentalmente do homem que comandava aquela casa parecia grande demais, distante demais da realidade que conhecia.

Quando o jantar terminou, ajudou a recolher discretamente os pratos, mesmo após Helena insistir que não era necessário.

— Costume — explicou, envergonhada.

Helena apenas sorriu.

Mais tarde, já no quarto, Lívia sentou-se na cama com as mãos entrelaçadas sobre o colo.

O silêncio ali era diferente do silêncio do orfanato, diferente do silêncio da pensão. Era uma quietude que parecia observar, esperando para ver quem ela seria dentro daquela casa.

Ela respirou fundo, tentando acalmar o nervosismo.

Conversar com o dono da casa.

Com o pai das crianças.

Com o homem que, mesmo sem conhecê-la, agora tinha poder para decidir se ela poderia permanecer naquele lugar.

Lívia levantou-se, caminhou até a janela e observou os jardins iluminados suavemente pelas luzes externas. O vento noturno balançava as árvores com delicadeza, criando sombras que dançavam no gramado.

Ela levou a mão ao próprio peito, sentindo o coração bater acelerado, mas firme.

Talvez aquele encontro definisse muito mais do que apenas seu emprego.

Talvez definisse se ela poderia, finalmente, construir algo que sempre lhe faltou.

Pertencimento.

Sem perceber, repetiu em pensamento uma das frases que costumava dizer às crianças do orfanato quando elas tinham medo do desconhecido:

“Às vezes, as coisas mais assustadoras também podem ser o começo das melhores histórias.”

E, pela primeira vez desde que atravessara os portões daquela mansão, Lívia permitiu-se acreditar que aquilo poderia ser verdade.

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