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Capítulo 3 — Vozes no Corredor

O quarto destinado à babá era maior do que qualquer espaço que Lívia já tinha chamado de seu.

Ela ainda estava parada perto da porta, observando o ambiente com certo receio, como se tocar nas coisas pudesse quebrar o encanto. A cama de solteiro tinha uma colcha clara e perfeitamente esticada. Havia um armário espaçoso, uma escrivaninha junto à janela e até um pequeno vaso com flores frescas sobre o criado-mudo.

Flores frescas.

Ela não lembrava da última vez que teve algo vivo e bonito colocado ali apenas para existir.

Teresa aguardava pacientemente atrás dela.

— Se precisar de algo, pode me procurar — disse a governanta. — Mas imagino que queira buscar seus pertences antes de se instalar de vez.

Lívia virou-se, um pouco sem graça.

— Sim… eu ainda tenho minhas coisas na pensão. Não são muitas, mas…

— Vá tranquila. O motorista pode levá-la e trazê-la de volta.

A facilidade com que Teresa dizia aquilo ainda era algo difícil de assimilar.

— Obrigada… Teresa.

A governanta apenas assentiu com um leve sorriso.

A pensão parecia ainda menor quando Lívia voltou.

O cheiro familiar de café passado e bolo simples vindo da cozinha a recebeu antes mesmo que ela cruzasse a porta. Dona Marta estava atrás do balcão, organizando algumas contas quando levantou os olhos e abriu um sorriso largo.

— Menina! Voltou rápido!

Lívia sorriu, sentindo o peito aquecer.

— Voltei para pegar minhas coisas… eu consegui o emprego.

Dona Marta levou a mão ao peito, visivelmente emocionada.

— Eu sabia! Sabia que aquela agência ia te ajudar!

— Foi meio… inesperado — admitiu Lívia, rindo baixo. — Nem era exatamente a vaga que saiu na carta de encaminhamento… mas deu certo.

— E é bom o lugar?

Lívia hesitou por um instante, lembrando da imponência da mansão, do silêncio carregado, dos olhos cautelosos de Bella.

— É… diferente. Mas acho que é um bom lugar.

Dona Marta segurou as mãos dela com carinho.

— Você merece coisa boa, minha filha. Já batalhou demais nessa vida.

O nó na garganta veio rápido demais. Lívia apenas assentiu, temendo que, se falasse, a voz não saísse firme.

Subiu para o pequeno quarto que ocupava havia poucas semanas. O espaço parecia ainda mais modesto agora, com paredes simples e móveis antigos. Mesmo assim, havia sido seu primeiro lugar no mundo totalmente seu.

Arrumou suas poucas roupas, alguns cadernos antigos, documentos e um pequeno porta-retrato vazio que guardava apenas por gostar do desenho delicado na moldura.

Quando desceu com a mala modesta, Dona Marta insistiu em abraçá-la demoradamente.

— Vá ser feliz, ouviu?

— Vou tentar.

O céu já começava a escurecer quando o carro atravessou novamente os portões da mansão.

Ao entrar, Lívia foi recebida pelo aroma suave de comida recém-preparada e pelo som discreto de talheres sendo organizados. Teresa apareceu logo em seguida.

— Conseguiu trazer tudo?

— Sim.

— Ótimo. O jantar será servido em breve. As crianças costumam jantar cedo.

Lívia assentiu e subiu para o quarto para guardar suas coisas. Arrumou cada peça no armário com cuidado, como se aquele gesto ajudasse a tornar a situação mais real.

Quando terminou, respirou fundo e desceu novamente.

Theo e Bella já estavam sentados à mesa quando ela entrou na sala de jantar. O menino mantinha a postura ereta, mexendo distraidamente no guardanapo. Bella balançava os pés sob a cadeira, observando a comida com curiosidade infantil.

— Boa noite — disse Lívia, com suavidade.

Bella abriu um pequeno sorriso.

Theo apenas fez um aceno quase imperceptível.

O jantar ocorreu em relativa tranquilidade, conduzido principalmente por Teresa, que conversava com naturalidade com as crianças sobre a escola e pequenas rotinas do dia.

Lívia observava, tentando entender o ritmo daquela família, aprendendo silenciosamente.

Mais tarde, chegou a hora de preparar as crianças para dormir.

Theo retirou-se assim que terminou de escovar os dentes.

— Eu sei ir para o meu quarto sozinho — declarou, antes que qualquer um dissesse algo.

O tom não era mal-educado. Era defensivo.

Lívia manteve o sorriso gentil.

— Tudo bem, Theo. Tenha uma boa noite.

Ele hesitou por um segundo, como se esperasse uma insistência que não veio. Então virou-se e seguiu pelo corredor.

Bella segurava a barra do pijama com as duas mãos.

— Você vem comigo?

— Claro que vou.

O quarto da menina era delicado, com tons suaves e alguns brinquedos organizados com cuidado quase exagerado. Lívia ajudou Bella a deitar, ajeitou a coberta e sentou-se ao lado da cama.

— Você prefere que eu conte uma história… ou cante uma música?

Bella pensou por alguns segundos.

— Você canta bonito?

Lívia sorriu, surpresa com a sinceridade.

— Eu acho que canto direitinho.

— Então canta.

Lívia começou a cantar uma melodia simples, suave, uma canção de ninar antiga que aprendera no orfanato. Sua voz era baixa, acolhedora, carregada de uma doçura natural que parecia embalar o próprio ar ao redor.

Bella relaxou aos poucos, os olhos pesando até se fecharem completamente.

Quando terminou, Lívia permaneceu ali por alguns segundos, observando a respiração tranquila da menina antes de levantar-se devagar e apagar a luz.

Do outro lado do corredor, Magno caminhava com passos cansados após mais um dia longo de trabalho.

Ele parou abruptamente.

A música.

A melodia vinha suave, quase como uma lembrança distante tentando atravessar o tempo. Ele franziu levemente o cenho, tentando identificar a canção, mas não conseguiu.

Ficou imóvel até a última nota desaparecer.

Seguiu então pelo corredor até encontrar Teresa organizando alguns papéis na pequena sala próxima à escada.

— A babá voltou? — perguntou, direto.

Teresa ergueu os olhos, surpresa pela pergunta.

— Não. Contratei uma nova hoje.

Magno permaneceu em quieto por alguns segundos.

— Foi ela quem estava cantando?

— Acredito que sim.

Ele desviou o olhar, pensativo.

— Quero conversar com ela amanhã pela manhã.

Teresa observou o rosto dele com atenção, percebendo algo que não via havia muito tempo.

Curiosidade.

— Avisarei a ela.

Magno apenas assentiu e seguiu pelo corredor, mas seus passos pareciam mais lentos do que o habitual.

No quarto recém-organizado, Lívia guardava suas últimas coisas quando se permitiu sentar na beirada da cama.

O dia havia sido longo. Intenso. Transformador.

Ela olhou ao redor, ainda tentando se convencer de que aquele agora era seu novo lar.

Sem perceber, levou a mão ao peito, sentindo o coração bater mais calmo do que nas últimas semanas.

Talvez, pela primeira vez desde que deixara o orfanato… ela não se sentisse completamente sozinha.

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