Mundo de ficçãoIniciar sessãoO quarto destinado à babá era maior do que qualquer espaço que Lívia já tinha chamado de seu.
Ela ainda estava parada perto da porta, observando o ambiente com certo receio, como se tocar nas coisas pudesse quebrar o encanto. A cama de solteiro tinha uma colcha clara e perfeitamente esticada. Havia um armário espaçoso, uma escrivaninha junto à janela e até um pequeno vaso com flores frescas sobre o criado-mudo. Flores frescas. Ela não lembrava da última vez que teve algo vivo e bonito colocado ali apenas para existir. Teresa aguardava pacientemente atrás dela. — Se precisar de algo, pode me procurar — disse a governanta. — Mas imagino que queira buscar seus pertences antes de se instalar de vez. Lívia virou-se, um pouco sem graça. — Sim… eu ainda tenho minhas coisas na pensão. Não são muitas, mas… — Vá tranquila. O motorista pode levá-la e trazê-la de volta. A facilidade com que Teresa dizia aquilo ainda era algo difícil de assimilar. — Obrigada… Teresa. A governanta apenas assentiu com um leve sorriso. A pensão parecia ainda menor quando Lívia voltou. O cheiro familiar de café passado e bolo simples vindo da cozinha a recebeu antes mesmo que ela cruzasse a porta. Dona Marta estava atrás do balcão, organizando algumas contas quando levantou os olhos e abriu um sorriso largo. — Menina! Voltou rápido! Lívia sorriu, sentindo o peito aquecer. — Voltei para pegar minhas coisas… eu consegui o emprego. Dona Marta levou a mão ao peito, visivelmente emocionada. — Eu sabia! Sabia que aquela agência ia te ajudar! — Foi meio… inesperado — admitiu Lívia, rindo baixo. — Nem era exatamente a vaga que saiu na carta de encaminhamento… mas deu certo. — E é bom o lugar? Lívia hesitou por um instante, lembrando da imponência da mansão, do silêncio carregado, dos olhos cautelosos de Bella. — É… diferente. Mas acho que é um bom lugar. Dona Marta segurou as mãos dela com carinho. — Você merece coisa boa, minha filha. Já batalhou demais nessa vida. O nó na garganta veio rápido demais. Lívia apenas assentiu, temendo que, se falasse, a voz não saísse firme. Subiu para o pequeno quarto que ocupava havia poucas semanas. O espaço parecia ainda mais modesto agora, com paredes simples e móveis antigos. Mesmo assim, havia sido seu primeiro lugar no mundo totalmente seu. Arrumou suas poucas roupas, alguns cadernos antigos, documentos e um pequeno porta-retrato vazio que guardava apenas por gostar do desenho delicado na moldura. Quando desceu com a mala modesta, Dona Marta insistiu em abraçá-la demoradamente. — Vá ser feliz, ouviu? — Vou tentar. O céu já começava a escurecer quando o carro atravessou novamente os portões da mansão. Ao entrar, Lívia foi recebida pelo aroma suave de comida recém-preparada e pelo som discreto de talheres sendo organizados. Teresa apareceu logo em seguida. — Conseguiu trazer tudo? — Sim. — Ótimo. O jantar será servido em breve. As crianças costumam jantar cedo. Lívia assentiu e subiu para o quarto para guardar suas coisas. Arrumou cada peça no armário com cuidado, como se aquele gesto ajudasse a tornar a situação mais real. Quando terminou, respirou fundo e desceu novamente. Theo e Bella já estavam sentados à mesa quando ela entrou na sala de jantar. O menino mantinha a postura ereta, mexendo distraidamente no guardanapo. Bella balançava os pés sob a cadeira, observando a comida com curiosidade infantil. — Boa noite — disse Lívia, com suavidade. Bella abriu um pequeno sorriso. Theo apenas fez um aceno quase imperceptível. O jantar ocorreu em relativa tranquilidade, conduzido principalmente por Teresa, que conversava com naturalidade com as crianças sobre a escola e pequenas rotinas do dia. Lívia observava, tentando entender o ritmo daquela família, aprendendo silenciosamente. Mais tarde, chegou a hora de preparar as crianças para dormir. Theo retirou-se assim que terminou de escovar os dentes. — Eu sei ir para o meu quarto sozinho — declarou, antes que qualquer um dissesse algo. O tom não era mal-educado. Era defensivo. Lívia manteve o sorriso gentil. — Tudo bem, Theo. Tenha uma boa noite. Ele hesitou por um segundo, como se esperasse uma insistência que não veio. Então virou-se e seguiu pelo corredor. Bella segurava a barra do pijama com as duas mãos. — Você vem comigo? — Claro que vou. O quarto da menina era delicado, com tons suaves e alguns brinquedos organizados com cuidado quase exagerado. Lívia ajudou Bella a deitar, ajeitou a coberta e sentou-se ao lado da cama. — Você prefere que eu conte uma história… ou cante uma música? Bella pensou por alguns segundos. — Você canta bonito? Lívia sorriu, surpresa com a sinceridade. — Eu acho que canto direitinho. — Então canta. Lívia começou a cantar uma melodia simples, suave, uma canção de ninar antiga que aprendera no orfanato. Sua voz era baixa, acolhedora, carregada de uma doçura natural que parecia embalar o próprio ar ao redor. Bella relaxou aos poucos, os olhos pesando até se fecharem completamente. Quando terminou, Lívia permaneceu ali por alguns segundos, observando a respiração tranquila da menina antes de levantar-se devagar e apagar a luz. Do outro lado do corredor, Magno caminhava com passos cansados após mais um dia longo de trabalho. Ele parou abruptamente. A música. A melodia vinha suave, quase como uma lembrança distante tentando atravessar o tempo. Ele franziu levemente o cenho, tentando identificar a canção, mas não conseguiu. Ficou imóvel até a última nota desaparecer. Seguiu então pelo corredor até encontrar Teresa organizando alguns papéis na pequena sala próxima à escada. — A babá voltou? — perguntou, direto. Teresa ergueu os olhos, surpresa pela pergunta. — Não. Contratei uma nova hoje. Magno permaneceu em quieto por alguns segundos. — Foi ela quem estava cantando? — Acredito que sim. Ele desviou o olhar, pensativo. — Quero conversar com ela amanhã pela manhã. Teresa observou o rosto dele com atenção, percebendo algo que não via havia muito tempo. Curiosidade. — Avisarei a ela. Magno apenas assentiu e seguiu pelo corredor, mas seus passos pareciam mais lentos do que o habitual. No quarto recém-organizado, Lívia guardava suas últimas coisas quando se permitiu sentar na beirada da cama. O dia havia sido longo. Intenso. Transformador. Ela olhou ao redor, ainda tentando se convencer de que aquele agora era seu novo lar. Sem perceber, levou a mão ao peito, sentindo o coração bater mais calmo do que nas últimas semanas. Talvez, pela primeira vez desde que deixara o orfanato… ela não se sentisse completamente sozinha.






