Capítulo 7 — Rotina

Os dias seguintes começaram a revelar a verdadeira dinâmica da casa Albuquerque.

Lívia acordava cedo, organizava os horários das crianças, acompanhava o café da manhã e observava atentamente cada detalhe das rotinas. Bella, embora ainda tímida, aproximava-se com facilidade surpreendente. Gostava de mostrar desenhos, contar pequenas histórias da escola e, às vezes, segurava a mão de Lívia com naturalidade infantil.

Theo era diferente.

Educado. Respeitoso. Mas distante.

Respondia apenas o necessário, evitava permanecer no mesmo ambiente por muito tempo e parecia sempre pronto para se recolher ao próprio quarto ou à biblioteca.

Naquela tarde, após o retorno da escola, Teresa informou que precisaria sair por algumas horas para resolver assuntos administrativos. Seria a primeira vez que Lívia ficaria sozinha com as crianças por um período mais longo.

— Eles costumam lanchar e depois fazer as tarefas escolares — explicou Teresa antes de sair. — Theo prefere estudar sozinho, mas precisa ser supervisionado.

— Pode deixar.

Assim que a governanta saiu, Bella correu para a sala de estar com a mochila quase maior que ela. Lívia a ajudou a organizar os materiais e logo a menina começou a fazer os deveres com concentração surpreendente para a idade.

Theo entrou alguns minutos depois, carregando livros e um caderno grosso. Parou ao ver Lívia sentada ao lado da irmã.

— Vou estudar no meu quarto — anunciou.

— Tudo bem — respondeu ela com naturalidade. — Só preciso dar uma olhada nas tarefas depois, para garantir que está tudo certo.

Theo franziu levemente o cenho.

— Eu não preciso disso.

— Eu sei que você é responsável — disse Lívia com calma. — Mas faz parte do meu trabalho acompanhar.

O silêncio que se seguiu foi carregado.

— As outras babás não faziam isso — ele rebateu.

— Talvez não fosse exigido delas. Mas eu prefiro acompanhar.

Theo apertou os lábios, claramente contrariado.

— Eu faço sozinho. Sempre fiz.

— Eu acredito em você — respondeu ela, mantendo o tom gentil. — Ainda assim, preciso conferir depois. Pode ser?

Ele a encarou por alguns segundos, os olhos escuros carregados de uma tensão que não parecia comum para alguém de onze anos.

— Você não vai ficar aqui muito tempo mesmo.

A frase veio baixa, quase como uma constatação e não um ataque. Ainda assim, atingiu Lívia como um golpe inesperado.

— Por que acha isso? — perguntou, com suavidade.

Theo desviou o olhar, mas respondeu:

— Ninguém fica.

Bella ergueu os olhos dos cadernos, observando o irmão com preocupação silenciosa.

Lívia respirou fundo antes de falar.

— Eu não posso prometer coisas que não dependem só de mim… mas posso dizer que pretendo ficar enquanto vocês precisarem.

Theo soltou uma pequena risada sem humor.

— Todo mundo fala isso.

Ele virou-se e saiu da sala antes que ela pudesse responder.

Bella abaixou a cabeça, mexendo no lápis.

— Ele só… fica assim às vezes — murmurou.

— Eu sei — disse Lívia, acariciando suavemente o cabelo da menina. — Está tudo bem.

Mais tarde, após o lanche, Lívia bateu na porta do quarto de Theo.

— Posso entrar?

— Já terminei — respondeu ele, sem entusiasmo.

Ela entrou devagar. O quarto era organizado, com livros empilhados cuidadosamente e uma escrivaninha tomada por cadernos abertos. Theo permanecia sentado, com postura rígida.

Lívia aproximou-se da mesa.

— Posso dar uma olhada?

Ele empurrou o caderno na direção dela com certa brusquidão.

Ela analisou as tarefas com atenção. Tudo estava correto. Letra impecável, contas resolvidas, texto estruturado com maturidade incomum para a idade.

— Está excelente — disse, com sinceridade.

Theo não reagiu.

— Você estuda sozinho há muito tempo?

— Sim.

A resposta saiu automática, quase mecânica.

Lívia fechou o caderno com cuidado.

— Deve ter sido difícil.

Ele ergueu o olhar rapidamente, como se aquela observação tivesse ultrapassado uma linha invisível.

— Você não sabe de nada.

— Não… não sei exatamente o que você viveu — admitiu ela. — Mas sei como é perder alguém que fazia a gente se sentir seguro.

Theo ficou em silêncio, os dedos apertando o lápis com força.

— Minha mãe cantava pra gente dormir — disse ele de repente, sem olhar para ela. — Bella gosta quando você canta… mas não é a mesma coisa.

A sinceridade crua na voz dele fez o peito de Lívia apertar.

— Eu sei que não é.

Ele finalmente a encarou.

— Então não tenta substituir ela.

A frase pairou no ar, pesada.

Lívia sustentou o olhar dele com calma.

— Eu nunca tentaria substituir sua mãe, Theo. Ninguém pode fazer isso.

O menino piscou algumas vezes, como se não esperasse aquela resposta.

— Eu só quero ajudar vocês a se sentirem bem… do jeito que for possível.

O silêncio que se seguiu parecia menos hostil, mas ainda carregado de cautela.

Theo desviou o olhar novamente.

— Já pode ir. Terminei tudo.

Lívia assentiu.

— Qualquer coisa, estarei na sala com a Bella.

Ela saiu do quarto com passos tranquilos, mesmo sentindo o peso emocional daquele diálogo.

No corredor do andar inferior, Magno havia retornado mais cedo do trabalho. Parou ao ouvir vozes vindas da sala de estar. Permaneceu parcialmente escondido pela curva do corredor, observando sem ser notado.

Bella estava sentada ao lado de Lívia, mostrando um desenho colorido enquanto falava animadamente. Lívia escutava com atenção genuína, reagindo com sorrisos suaves e perguntas que incentivavam a menina a continuar contando a história que inventava.

Alguns minutos depois, Theo desceu as escadas lentamente. Parou ao perceber a cena. Hesitou. Observou.

Bella levantou o desenho.

— Theo, olha! A Lívia disse que parece um castelo mágico!

Theo deu de ombros, mas não subiu novamente como costumava fazer.

Magno observou cada gesto com atenção.

Quando Theo finalmente se aproximou e sentou-se na poltrona oposta, fingindo ler um livro enquanto escutava a conversa, algo inesperado atravessou o peito dele.

Esperança.

Pequena. Frágil. Quase imperceptível.

Magno recuou alguns passos, afastando-se antes que fosse notado. O rosto voltou à expressão habitual, mas os pensamentos permaneceram inquietos.

Naquela noite, ao colocar Bella para dormir, Lívia percebeu que Theo observava da porta do próprio quarto, sem dizer nada.

Ela cantou novamente, em tom baixo, respeitoso, sem prolongar demais a melodia.

Quando terminou, fechou a porta do quarto da menina e virou-se para sair.

Theo ainda estava ali.

— Boa noite — disse ele, sem encará-la diretamente.

— Boa noite, Theo.

Ele hesitou por um segundo antes de entrar no quarto e fechar a porta.

Para qualquer outra pessoa, poderia parecer nada.

Para Lívia… parecia o primeiro tijolo removido de uma muralha construída por anos.

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