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A Babá Que Eu Não Podia Amar
A Babá Que Eu Não Podia Amar
Por: Ester
Capítulo 1 —Portas Fechadas

O quarto da pensão era pequeno, mas limpo. Lívia gostava disso. Desde que chegara ali, há pouco mais de três semanas, aprendera a valorizar qualquer espaço que não tivesse cheiro de despedida.

Sentada na beira da cama estreita, ela contava o dinheiro pela terceira vez naquela manhã, como se os números pudessem mudar por pena dela. As notas estavam cuidadosamente dobradas, e as moedas faziam um som seco quando se chocavam dentro do pequeno pote de vidro que havia encontrado no armário do quarto.

O resultado era sempre o mesmo.

Pouco.

Muito pouco.

Ela soltou o ar devagar e deixou o pote sobre o criado-mudo improvisado — uma caixa de madeira virada de lado. O olhar percorreu o quarto simples: uma janela estreita, cortinas desbotadas, uma cômoda antiga e a cama onde dormia desde que deixara o único lugar que, por anos, ousou chamar de lar.

O orfanato Lar Santa Esperança.

Lívia fechou os olhos por um instante, e as lembranças vieram como sempre vinham — sem pedir licença.

Ela tinha apenas três anos quando fora deixada na porta do orfanato. Não lembrava de rostos, nomes ou vozes daquele tempo. Suas primeiras memórias verdadeiras eram do pátio, do cheiro de sabonete infantil e do barulho constante de crianças correndo.

Cresceu ali.

Aprendeu a dividir tudo — brinquedos, roupas, atenção… até o silêncio.

Passou quinze anos como interna. Depois, quando completou dezoito, a diretora permitiu que ela continuasse morando ali, desde que ajudasse com as crianças menores. Lívia nem precisou pensar duas vezes antes de aceitar. Cuidar delas era a única coisa que sabia fazer com segurança.

Durante aqueles três anos como funcionária, fez cursos básicos, participou de oficinas, aprendeu primeiros socorros e técnicas de recreação infantil. E, sem perceber, descobriu que tinha uma habilidade natural para acalmar choros, medos e noites inquietas.

Foi ali que começou a cantar para as crianças antes de dormir. Não porque alguém ensinara, mas porque parecia funcionar. As vozes infantis diminuíam, os olhos pesavam, e por alguns minutos o mundo parecia menos solitário para todos.

Então, três semanas atrás, tudo mudou.

A diretora morreu de forma repentina.

E com ela, morreu também o lugar de Lívia naquele mundo.

A nova administração foi direta e impessoal. O cargo que ela ocupava nunca existira oficialmente. Não havia contrato, registro ou qualquer documento que justificasse sua permanência ali.

Ela precisou sair.

Simples assim.

Uma batida suave na porta interrompeu seus pensamentos.

— Lívia? Está acordada, querida?

Ela reconheceu imediatamente a voz da dona da pensão.

— Estou sim, Dona Marta. Pode entrar.

A mulher surgiu com o habitual sorriso acolhedor e um pano de prato apoiado no ombro.

— Fiz café fresco. Pensei que você pudesse querer um pouco antes de sair para procurar emprego.

Lívia sorriu de volta, agradecida.

— Eu aceito, sim. Obrigada.

Na cozinha simples da pensão, o cheiro de café recém-passado misturava-se ao de pão quente. O ambiente era barulhento, com o rádio antigo tocando música baixa e o som de panelas vindo do fogão. Era um contraste enorme com o silêncio disciplinado do orfanato, mas havia algo reconfortante ali.

— E então? Alguma resposta das lojas onde você deixou currículo? — perguntou Dona Marta, servindo café em uma xícara lascada, mas limpa.

Lívia balançou a cabeça negativamente.

— Ainda não.

A mulher suspirou, pensativa.

— Olha… talvez você devesse tentar uma agência de empregos. Eles costumam ter mais contatos. Às vezes aparece vaga em casa de família, escola, essas coisas.

O coração de Lívia acelerou levemente.

— A senhora acha que vale a pena?

— Acho que você leva jeito com criança. Dá para ver isso só de conversar com você.

Aquelas palavras aqueceram algo dentro dela.

— Eu vou tentar — respondeu, decidida.

A agência ficava em uma rua movimentada do centro. O prédio era antigo, mas bem conservado. O ar condicionado deixava o ambiente frio demais, e o cheiro de papel e toner de impressora pairava no ar.

Lívia aguardou sua vez observando outras pessoas sentadas ali, algumas confiantes, outras tão ansiosas quanto ela.

Quando foi chamada, sentou-se diante de uma atendente de olhar atento e postura profissional. O cadastro levou quase uma hora. Perguntas, formulários, experiências, cursos.

— Você tem experiência com crianças? — perguntou a mulher, digitando rapidamente.

— Sim. Trabalhei três anos cuidando delas em um orfanato.

A atendente ergueu as sobrancelhas, interessada.

— Isso é bom. Muito bom.

Minutos depois, ela franziu o cenho diante do computador.

— Estranho… estou vendo duas vagas de babá que combinam com o seu perfil.

Ela clicou em algumas abas, murmurando para si mesma.

— Uma delas está confirmada… posso imprimir a carta de encaminhamento.

O barulho da impressora preencheu o silêncio.

— A outra… — a atendente chamou uma colega. — Essa vaga aqui ainda está aberta?

A colega olhou rapidamente a tela.

— Não. Já foi preenchida. Deve ser erro do sistema.

Lívia tentou disfarçar a pontada de decepção, mas prestou atenção quando a atendente comentou, distraída:

— Era para a casa dos Albuquerque. Magno Albuquerque, CEO de uma construtora.

O nome ficou gravado em sua mente.

Ela saiu dali segurando a única carta que recebera.

A entrevista ocorreu naquela mesma tarde. A casa era bonita, os empregadores educados, mas formais demais. Fizeram perguntas, anotaram respostas e, ao final, disseram que ainda estavam na fase inicial de seleção.

Lívia saiu com um sorriso educado e o coração apertado.

Na calçada, respirou fundo. O sol começava a se pôr, tingindo o céu de laranja suave. Ela caminhou alguns passos sem direção, tentando ignorar o peso crescente no peito.

O dinheiro estava acabando.

O tempo também.

Foi então que o nome voltou à sua mente.

Magno Albuquerque.

Ela parou no meio da calçada.

Talvez fosse loucura. Talvez fosse desespero. Talvez fosse apenas a recusa silenciosa em aceitar mais uma porta fechada sem sequer tentar empurrá-la.

Lívia puxou o papel onde anotara alguns dados da agência e releu o nome, como se confirmasse que ele ainda estava ali.

Antes que pudesse mudar de ideia, levantou o braço e chamou um táxi.

Durante o trajeto, suas mãos permaneceram entrelaçadas no colo, e o coração batia rápido demais.

Quando o carro parou diante dos portões imponentes da mansão Albuquerque, ela sentiu o estômago revirar.

Pagou o motorista, desceu e permaneceu parada por alguns segundos, encarando a construção elegante e silenciosa à sua frente.

O lugar parecia bonito.

E assustadoramente solitário.

Lívia respirou fundo.

Depois, caminhou até o portão e apertou a campainha.

E, naquele instante, não fazia ideia de que aquela porta poderia mudar completamente a sua vida.

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