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A Babá Que Eu Não Podia Amar
A Babá Que Eu Não Podia Amar
Por: Ester
Capítulo 1 —Portas Fechadas

Lívia nunca teve medo de portas fechadas.

Mas naquele dia… ela estava ficando sem opções.

O envelope sobre a cama parecia pequeno demais para carregar tanto peso. Ainda assim, era tudo o que ela tinha.

Ela abriu, espalhou o dinheiro sobre o colchão e contou mais uma vez.

Depois outra.

E mais uma.

Como se, por insistência, os números pudessem mudar.

Mas não mudaram.

Pouco.

Muito pouco.

Lívia soltou o ar devagar, apoiando as mãos ao lado do corpo. O quarto da pensão era simples — pequeno, silencioso, quase vazio. Ainda assim, era limpo. E isso já era mais do que ela tivera em muitos momentos da vida.

Seu olhar percorreu o espaço: a janela estreita, as cortinas desbotadas, a cômoda antiga… e a cama onde vinha dormindo nas últimas três semanas.

Três semanas.

Era só isso que separava sua vida de antes… da que tinha agora.

Antes, havia um lugar.

Agora… só incerteza.

O orfanato Lar Santa Esperança.

O nome veio à sua mente como um sussurro antigo, carregado de memórias que nunca pediam permissão para voltar.

Lívia fechou os olhos por um instante.

Ela não lembrava de quando chegou ali. Tinha apenas três anos. Não havia rostos, nem vozes, nem histórias.

Só o vazio.

Mas o orfanato… aquele lugar se tornou tudo.

Foi onde cresceu.

Onde aprendeu a dividir o pouco que tinha.

Onde descobriu que silêncio também podia ser companhia.

E foi ali que encontrou um propósito.

Cuidar das crianças menores.

Quando completou dezoito anos, teve permissão para ficar. Não como interna… mas como alguém que ajudava.

E ela ficou.

Porque não havia outro lugar para ir.

Porque ali… ela importava.

Durante três anos, aprendeu na prática tudo o que sabia hoje.

Primeiros socorros.

Rotina infantil.

Paciência.

E algo que ninguém ensinou — mas que nasceu dentro dela sem esforço:

o cuidado.

Lívia sabia acalmar choros.

Sabia distrair medos.

Sabia transformar noites difíceis em algo suportável.

E, às vezes… cantava.

Baixinho.

Sem perceber quando começou.

Mas funcionava.

As crianças se acalmavam.

Dormiam.

E, por alguns minutos, o mundo parecia menos duro.

Então, tudo acabou.

Rápido demais.

A diretora morreu.

E com ela… o lugar de Lívia também.

A nova administração não fez perguntas.

Não houve despedida.

Nem consideração.

— Você não tem contrato — disseram.

— Não pode ficar.

Simples assim.

Sem história.

Sem passado.

Sem importância.

Uma batida leve na porta interrompeu seus pensamentos.

— Lívia? Está acordada, querida?

Ela abriu os olhos rapidamente.

— Estou sim, Dona Marta. Pode entrar.

A porta se abriu com cuidado.

Dona Marta surgiu com um sorriso acolhedor e o pano de prato no ombro, como sempre.

— Fiz café fresco. Achei que você podia querer um pouco antes de sair.

Lívia sorriu, mesmo com o cansaço ainda pesando.

— Eu aceito. Obrigada.

Na cozinha, o ambiente era completamente diferente.

Barulho.

Cheiro de café.

Vida.

O rádio tocava baixo em algum canto, enquanto o pão aquecia no fogão.

Lívia se sentou à mesa simples, segurando a xícara quente entre as mãos, como se aquilo ajudasse a mantê-la firme.

— Alguma resposta dos currículos? — perguntou Dona Marta.

Lívia negou com a cabeça.

— Ainda não.

A mulher suspirou.

— Você já pensou em tentar uma agência?

Lívia ergueu o olhar.

— Agência?

— Emprego em casa de família, escola… você leva jeito com criança. Dá pra ver.

Aquelas palavras tocaram algo dentro dela.

Talvez esperança.

Talvez desespero.

— Eu posso tentar — respondeu.

E tentou.

A agência ficava no centro, em um prédio antigo.

O ambiente era frio demais.

Formal demais.

Distante demais.

Lívia preencheu formulários, respondeu perguntas, explicou sua experiência.

— Três anos com crianças em orfanato? — disse a atendente, interessada.

— Sim.

— Isso é ótimo.

Por um instante, algo dentro de Lívia se acendeu.

Mas durou pouco.

A mulher franziu o cenho para o computador.

— Estranho…

Ela chamou outra funcionária.

— Essa vaga aqui… ainda está aberta?

A colega olhou rapidamente.

— Não. Já foi preenchida.

— Mas está no sistema.

— Deve ser erro.

Lívia ficou em silêncio.

Mas ouviu.

— Era para a casa dos Albuquerque… Magno Albuquerque.

O nome ficou.

Gravado.

Pesado.

Importante.

Ela saiu dali com apenas uma carta de encaminhamento.

Uma única chance.

E nem era certa.

A entrevista aconteceu naquela tarde.

Tudo parecia perfeito.

A casa.

Os empregadores.

As perguntas.

Mas no final, veio o mesmo de sempre:

— Ainda estamos avaliando.

Lívia sorriu.

Agradeceu.

E saiu.

Do lado de fora, o ar parecia mais pesado.

O céu já começava a escurecer.

E o tempo… estava acabando.

Foi então que o nome voltou.

Magno Albuquerque.

Ela parou no meio da calçada.

O coração acelerou.

Era loucura.

Ela sabia.

Mas também sabia outra coisa:

não podia voltar para a pensão sem tentar.

Não de novo.

Não mais uma porta fechada.

Antes que a coragem acabasse, levantou o braço e chamou um táxi.

O trajeto pareceu longo demais.

Silencioso demais.

Pesado demais.

Quando o carro parou diante dos portões da mansão, Lívia sentiu o estômago revirar.

Era grande.

Imponente.

Distante da realidade dela.

Ela pagou o motorista.

Desceu.

E ficou parada por alguns segundos.

Só olhando.

Aquilo não era apenas uma casa.

Era outro mundo.

Um mundo onde ela não pertencia.

Mas mesmo assim…

ela caminhou até o portão.

Respirou fundo.

E apertou a campainha.

Sem saber que, ao fazer aquilo…

não estava apenas tentando abrir uma porta.

Estava mudando completamente o rumo da própria vida.

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