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Capítulo 8 — O Que Ainda Dói

A tarde começou tranquila, quase leve demais para os padrões da mansão Albuquerque.

Quando o carro retornou da escola, Bella saiu primeiro, correndo com a mochila balançando nas costas e um papel amassado preso entre os dedos.

— Lívia! Lívia!

Ela entrou na sala praticamente tropeçando nos próprios passos. Lívia, que organizava alguns livros infantis na estante, virou-se imediatamente.

— O que aconteceu, Bella?

A menina estendeu o papel com expressão ansiosa.

— Tem um trabalho da escola… é sobre família.

A palavra pareceu ecoar no ambiente antes mesmo de ser dita em voz alta.

Lívia pegou o bilhete com cuidado e leu as instruções. Era uma atividade simples: montar um cartaz com fotos, desenhos ou descrições das pessoas que faziam parte do núcleo familiar.

— A professora disse que pode desenhar também… — Bella completou, mordendo o lábio inferior. — Mas eu não sei como fazer.

Lívia abaixou-se até ficar na altura dela.

— A gente pode pensar juntas. Quer?

Bella assentiu rapidamente, mas os olhos carregavam uma certa insegurança.

Elas sentaram-se à mesa da sala de estar. Lívia espalhou folhas coloridas, lápis e canetinhas, tentando transformar o momento em algo leve.

— Quem você gostaria de colocar no seu trabalho?

Bella segurou o lápis com força.

— Papai… Theo… e…

Ela parou.

O silêncio que se formou foi delicado demais para ser quebrado com pressa.

— E sua mamãe — disse Lívia, com suavidade.

Bella assentiu, os olhos brilhando levemente.

— Mas eu não lembro direito dela…

O coração de Lívia apertou.

— Você não precisa lembrar de tudo. Pode desenhar como você sente que ela era para você.

Bella pensou por alguns segundos, então começou a rabiscar com cuidado. Desenhou uma figura feminina com cabelos longos e um sorriso grande demais para caber no rosto de papel.

— Teresa pode entrar também? — perguntou de repente.

Lívia sorriu.

— Claro que pode. Família também é quem cuida da gente.

Bella relaxou visivelmente e continuou o desenho, agora mais animada.

— E você?

A pergunta saiu espontânea, inocente.

Lívia hesitou apenas um segundo.

— Eu estou aqui para cuidar de vocês… mas esse trabalho é sobre quem mora no coração da Bella. Quem você sentir que faz parte… pode colocar.

Bella pareceu refletir seriamente sobre aquilo, mas não respondeu.

Theo entrou na sala naquele momento, largando a mochila sobre a poltrona com mais força do que o necessário.

O olhar dele pousou imediatamente sobre os papéis espalhados pela mesa.

— O que é isso?

— Trabalho da escola — respondeu Bella, animada. — É sobre família.

Theo aproximou-se lentamente. Observou os desenhos em silêncio. O rosto permaneceu neutro, mas a tensão no maxilar denunciava algo prestes a explodir.

— Quem mandou você ajudar nisso? — perguntou ele, olhando diretamente para Lívia.

Bella franziu a testa.

— Eu pedi.

Theo ignorou a irmã.

— Isso não é problema seu.

Lívia manteve o tom calmo.

— Bella só precisava de ajuda com a atividade.

— Ela não precisa de ajuda sua — retrucou ele, a voz começando a ganhar dureza. — Você nem faz parte da nossa família.

O silêncio caiu pesado sobre a sala.

Bella abaixou o lápis imediatamente, os olhos arregalados.

Lívia respirou fundo, mantendo a postura serena.

— Theo, eu não estou tentando—

— Está sim! — ele interrompeu, a voz elevando-se. — Você canta para ela dormir… fica ajudando em trabalho de escola… age como se pudesse substituir a mamãe!

As palavras vieram carregadas de uma dor crua que parecia maior do que ele conseguia suportar.

Bella levantou-se, assustada.

— Theo, para…

Mas ele já havia recuado alguns passos, o olhar preso em Lívia com uma mistura de raiva e desespero.

E então a lembrança o atingiu com força.

Ele tinha cinco anos.

Estava sentado no chão do quarto dos pais, rodeado por blocos de montar espalhados pelo tapete. Tentava empilhar as peças para fazer uma torre que sempre desmoronava antes de ficar alta o suficiente.

Cecília estava sentada na cama, com uma das mãos apoiada na barriga grande. O quarto tinha cheiro de sabonete e do perfume suave que ela sempre usava.

— Theo… vem aqui, meu amor — ela chamou, com a voz doce que ele conhecia melhor do que qualquer outra coisa no mundo.

Ele levantou imediatamente e correu até ela. Cecília o puxou para perto, acomodando-o ao seu lado enquanto começava a cantar uma melodia baixa, repetitiva, quase como um sussurro.

Theo gostava daquela música porque ela fazia o peito dele ficar quentinho, como se nada de ruim pudesse acontecer enquanto ela cantasse.

— A bebê está ouvindo também — ela disse, guiando a mão dele até a barriga.

Ele arregalou os olhos quando sentiu um pequeno movimento.

— Ela mexeu!

Cecília riu, emocionada.

— Ela quer conhecer o irmão mais velho.

Theo apoiou a cabeça no ombro dela, brincando distraidamente com o colar que ela usava.

— Você vai cantar pra ela também?

— Vou cantar para vocês dois — respondeu ela, beijando o topo da cabeça dele.

Ele pensou por alguns segundos antes de perguntar, com a sinceridade típica de criança:

— Quando a bebê chegar… você ainda vai cantar pra mim?

Cecília segurou o rosto dele com carinho.

— Sempre, meu amor. Sempre.

A lembrança desapareceu tão rápido quanto veio.

Theo piscou várias vezes, tentando conter o nó na garganta, mas a raiva voltou como uma armadura automática.

— Minha mãe já fazia tudo isso! — disparou ele, a voz trêmula. — A gente não precisa de você fingindo que pode ocupar o lugar dela!

Bella começou a chorar baixinho.

Lívia permaneceu imóvel por alguns segundos, absorvendo cada palavra sem reagir impulsivamente.

Quando falou, sua voz era baixa, firme e surpreendentemente tranquila.

— Eu nunca fingiria ser sua mãe, Theo. Nem conseguiria… nem gostaria.

Ele pareceu vacilar por um instante, mas manteve a expressão dura.

— Então para de agir como se fosse!

— Eu só estou tentando ajudar vocês a não se sentirem sozinhos — respondeu ela, com sinceridade.

Theo balançou a cabeça, recusando-se a aceitar qualquer explicação.

— Eu não preciso disso.

Ele virou-se bruscamente e subiu as escadas quase correndo, deixando o som dos passos preenchendo o silêncio da casa.

Bella chorava baixinho, o desenho abandonado sobre a mesa.

Lívia ajoelhou-se ao lado dela, falando com cuidado:

— Ei… não precisa parar o trabalho por causa disso.

— Ele está bravo comigo?

— Não… ele está bravo com uma tristeza que ainda não sabe como lidar.

Bella fungou, limpando as lágrimas.

— Você vai embora também?

A pergunta veio carregada de medo.

Lívia engoliu o aperto na garganta antes de responder.

— Não pretendo ir a lugar nenhum agora.

Bella assentiu lentamente e voltou a segurar o lápis, ainda tremendo um pouco.

Lívia permaneceu ao lado dela, oferecendo presença silenciosa enquanto a menina retomava o desenho com traços hesitantes.

No topo da escada, sem que ninguém percebesse, Magno observava a cena inteira.

O rosto permanecia impassível, mas os dedos estavam cerrados contra o corrimão.

Ele tinha visto o momento exato em que Theo desmoronou por trás da raiva.

E, pela primeira vez em muito tempo, percebeu que talvez seu filho estivesse lutando contra uma dor que ele próprio nunca ajudara a curar.

Magno permaneceu ali por alguns segundos, imóvel, dividido entre a culpa e a sensação incômoda de que a presença de Lívia estava mexendo em feridas que ele mantinha cuidadosamente fechadas.

E ele ainda não sabia se aquilo era um perigo…

Ou uma chance de salvação.

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