Mundo de ficçãoIniciar sessãoA semana começou diferente.
Não por algo visível. Mas por pequenos desvios que ninguém nomeava. Na segunda-feira, Lívia entrou no carro com as crianças. Não era parte da rotina. Ela sabia disso. Mesmo assim, sentou-se no banco de trás, ao lado de Bella. — Você vem com a gente? — a menina perguntou, surpresa. — Só até a escola — respondeu, com um sorriso leve. Theo observou pelo espelho. Não disse nada. O carro seguiu, cortando o movimento da cidade. Bella falava sobre coisas simples, a aula de artes, uma colega que tinha levado um brinquedo escondido na mochila. Lívia escutava. Quando o carro parou diante da escola, ela não desceu. Ficou ali. Observando. Bella saiu primeiro, acenando animada. Theo hesitou antes de abrir a porta. Olhou para ela por um segundo. Como se quisesse entender. Mas saiu sem dizer nada. Lívia ficou no carro até vê-los desaparecerem pelo portão. Depois pediu ao motorista para voltar. Era pouco. Mas já era uma mudança. Naquela tarde, Bella chegou diferente. Menos animada. Segurava um papel com mais cuidado do que o normal. — Lívia… A voz saiu mais baixa. — A professora passou um trabalho. Ela estendeu o bilhete. Lívia leu. Tema: Dia das Mães. O silêncio veio antes de qualquer reação. — Pode ser desenho… ou outra coisa — Bella completou, mexendo nos dedos. — Mas tem que falar da mãe. A palavra ficou suspensa entre elas. Delicada. — A gente pode fazer juntas — disse Lívia, com suavidade. Bella assentiu, mas sem entusiasmo. Elas se sentaram à mesa. Os materiais foram espalhados. Mas, dessa vez, não havia leveza no gesto. — Eu não lembro dela… — Bella murmurou. Lívia sentiu o aperto no peito crescer. — Você lembra de alguma coisa? Bella pensou. Demorou. — Da voz… acho. — Como assim? — Eu lembro que ela cantava… A frase saiu incerta. Como se fosse mais sensação do que memória. Theo apareceu na sala naquele momento. Parou ao ouvir. — Cantava — corrigiu ele, seco. Bella olhou para o irmão. — Você lembra? Ele não respondeu de imediato. Apenas se aproximou. Os olhos presos no papel. — Ela cantava toda noite — disse, depois de alguns segundos. — A mesma música. O ar pareceu mudar. Lívia observava. — Você lembra a música? — perguntou, com cuidado. Theo hesitou. Algo dentro dele claramente resistia. — Lembro. — Então… — Lívia falou devagar — talvez o trabalho não precise ser sobre falta. Os dois olharam para ela. — Pode ser sobre boas lembranças. O silêncio veio. Mas não era rejeição. Era… consideração. — Como assim? — Bella perguntou. — Você pode desenhar a música. A menina franziu a testa. — Desenhar… uma música? — O que você sente quando pensa nela cantando. Bella olhou para o papel. Depois para Theo. — E você escreve — completou Lívia, olhando para ele. Theo travou. — Eu não vou escrever nada. — Tudo bem — respondeu ela, sem insistir. — Mas você pode me contar. Ele a encarou. Longo. Desconfiado. — Pra quê? — Pra ela não esquecer — disse, apenas. A frase acertou. Direto. Theo desviou o olhar. Mas não foi embora. — Era… baixa — começou, contra a própria vontade. — Tipo… calma. Bella já desenhava. Traços soltos. — E ela cantava devagar — continuou ele. — Como se estivesse… segurando a gente ali. Lívia pegou uma folha. Começou a escrever. Não a música inteira. Mas o que ela significava. Palavras simples. Cuidadosas. Bella desenhava duas crianças deitadas do jeitinho dela. Uma figura ao lado. Sem rosto definido. Mas com luz ao redor. Theo observava. Mas permaneceu. Magno chegou mais cedo naquele dia. Mais do que o habitual. Ao entrar, estranhou o silêncio. Mas não era o silêncio vazio de antes. Era… diferente. Vinha da sala. Ele se aproximou sem fazer barulho. E parou. Bella desenhava concentrada. Lívia escrevia algo ao lado. Theo estava ali. De pé. Presente. Isso, por si só, já era incomum. — O que estão fazendo? A voz dele cortou o momento. Os três olharam ao mesmo tempo. Bella foi a primeira a reagir. — Trabalho da escola! Ela levantou o papel, orgulhosa. — É sobre o Dia das Mães. O corpo de Magno enrijeceu. Quase imperceptível. — Entendi. O olhar dele passou pelo desenho. Depois pela folha escrita. Parou. — O que é isso? — A música da mamãe — disse Bella, com naturalidade. O ar ficou pesado. Magno olhou para Theo. — Foi você? Theo deu de ombros. — Mais ou menos. Magno voltou o olhar para Lívia. A pergunta estava ali. Sem ser dita. — Foi uma ideia — ela respondeu, calma. — Da Bella. Theo percebeu. E, não desmentiu. Magno observou os três. Algo dentro dele se deslocou. Lentamente. — Posso ver? Bella correu até ele. Entregou o desenho. Ele analisou. Os traços simples. A figura sem rosto. Depois leu o que Lívia havia escrito. As palavras não descreviam a música. Descreviam o que ela fazia. Acalmar. Acolher. Manter. Magno engoliu seco. Devolveu o papel. — Está bom. Foi tudo o que disse. Mas não era pouco. Mais tarde, já sozinha no quarto, Lívia pensou no dia. Na escolha de entrar no carro. Na decisão de ficar. Na ideia do trabalho. Nada daquilo fazia parte das regras. E, ainda assim… parecia certo. Do outro lado da casa, Magno permanecia no escritório. A folha estava sobre a mesa. Ele a havia trazido. Os olhos percorriam as palavras novamente. Devagar. Como se cada uma abrisse algo que ele evitava há anos. Não era só sobre as crianças. Era sobre o que ainda existia. Mesmo depois da perda. Ele recostou-se na cadeira. Respirou fundo. E, pela primeira vez… não tentou fechar aquela sensação. Porque começava a entender. Algumas dores não desaparecem. Mas podem… mudar de forma. E talvez… aquilo não fosse uma ameaça. Talvez fosse o início de algo que ele ainda não sabia.






