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Capítulo 2 — Primeiro Dia

O táxi ainda estava parado diante dos imensos portões de ferro quando Lívia percebeu que estava prendendo a respiração. Ela soltou o ar devagar, como se temesse que qualquer som pudesse ecoar alto demais naquele lugar que já parecia silencioso demais antes mesmo de entrar.

Os portões começaram a se abrir lentamente, revelando um longo caminho cercado por jardins perfeitamente aparados. Árvores altas formavam uma espécie de corredor natural, e o cascalho sob as solas do sapato produzia um som suave e ritmado que a fez apertar os dedos contra alça da bolsa em seu ombro.

A mansão surgiu aos poucos, imponente e elegante, com paredes claras, janelas altas e varandas largas. Era grande demais para parecer apenas uma casa. Era o tipo de lugar que ela só tinha visto em filmes ou nas poucas revistas antigas que às vezes apareciam no orfanato, doadas por alguém.

— Vai dar tudo certo — disse para si mesma.

Lívia ficou parada por alguns segundos observando a construção. Não era apenas o tamanho que impressionava. Era a sensação estranha de que aquela casa carregava histórias… e talvez tristezas também.

Antes que pudesse reunir coragem para tocar a campainha, a porta principal se abriu.

Uma mulher de postura elegante e olhar atento surgiu no batente. Tinha cabelos grisalhos presos em um coque impecável e vestia roupas simples, porém muito bem alinhadas. Havia firmeza em sua presença, mas algo acolhedor também.

— Você deve ser Lívia Vasconcelos.

Não era uma pergunta.

— Sou sim… senhora…

— Teresa Moura. Governanta da casa.

O tom era sério, porém não frio. Teresa fez um leve gesto com a cabeça, convidando-a a entrar.

Ao atravessar a porta, Lívia sentiu imediatamente a diferença do ambiente. O interior era tão bonito quanto o exterior — móveis sofisticados, lustres delicados, quadros que pareciam contar histórias silenciosas. Ainda assim… havia algo ali.

A falta de sons.

Não era apenas ausência de barulho. Era um silêncio pesado, quase palpável.

— Pode deixar sua bolsa ali — disse Teresa, apontando para uma pequena mesa lateral no hall. — Vamos conversar um pouco.

Lívia obedeceu, tentando controlar o nervosismo que ameaçava aparecer em suas mãos.

Teresa a conduziu até uma sala de estar ampla. As cortinas estavam parcialmente fechadas, permitindo que a luz entrasse de forma suave. Tudo era extremamente organizado, quase impecável demais para parecer vivido.

— Antes de começarmos — Teresa falou, sentando-se com elegância — preciso entender uma coisa. Você veio pela agência, mas seu nome não constava na lista oficial de entrevistas de hoje.

Lívia engoliu seco.

— Eu… fui encaminhada para outra casa… mas ouvi o nome desta família na agência. A atendente comentou que talvez tivesse ocorrido um erro no sistema. Eu… pensei que não teria nada a perder tentando.

Teresa a observou por alguns segundos. Não parecia irritada. Parecia… avaliando.

— E decidiu vir mesmo sem garantia alguma?

— Sim, senhora.

— Não precisa me chamar de senhora. Teresa está ótimo.

Lívia assentiu, um pouco surpresa com a naturalidade.

— Então, Lívia… me conte sobre sua experiência com crianças.

O nervosismo começou a ceder quando ela passou a falar sobre algo que conhecia bem. Contou sobre os anos no orfanato, sobre ajudar com os menores, sobre as rotinas, os cursos que fez e, sem perceber, mencionou o quanto acreditava que crianças precisavam mais de segurança emocional do que qualquer outra coisa.

Teresa manteve o olhar fixo nela durante todo o relato.

— A babá anterior… — Teresa começou, escolhendo as palavras com cuidado — deixou de comparecer há duas semanas. Sem explicações. Sem aviso.

Lívia sentiu o coração acelerar.

— Imagino que isso tenha complicado bastante a rotina da casa.

— Complicou… e revelou algumas fragilidades que já existiam.

Houve uma breve pausa.

— Esta casa passou por uma perda muito difícil há alguns anos — Teresa continuou. — Desde então, nem tudo voltou ao lugar.

Antes que Lívia pudesse responder, um barulho leve de passos apressados ecoou pelo corredor.

— Teresa! — uma voz infantil chamou.

Uma menina pequena surgiu na porta. Cabelos escuros presos em duas tranças levemente desalinhadas e olhos grandes e curiosos. Ela parou abruptamente ao ver a visitante.

— Bella, querida… — Teresa disse com suavidade. — Venha cá.

A menina se aproximou devagar, observando Lívia como se tentasse decifrá-la.

— Essa é a Lívia. Ela pode passar a trabalhar conosco.

Bella inclinou a cabeça, analisando-a em silêncio.

— Você vai embora também?

A pergunta saiu direta, sem qualquer filtro infantil. A voz era baixa, quase cuidadosa demais para alguém tão pequena.

O peito de Lívia apertou.

— Eu… pretendo ficar… se vocês deixarem.

Bella continuou observando-a por mais alguns segundos, então apenas assentiu, como se estivesse registrando aquela informação com cautela.

— Theo está na biblioteca — informou a menina, virando-se para Teresa.

— Obrigada, querida.

Bella saiu do cômodo com passos leves.

Lívia percebeu que Teresa suspirou discretamente.

— Theo é o irmão mais velho. Onze anos. Muito protetor da irmã… e pouco receptivo a mudanças.

— Eu entendo — respondeu Lívia, lembrando-se de tantas crianças no orfanato que reagiam exatamente assim ao medo de novos abandonos.

Teresa cruzou as mãos sobre o colo.

— Há outra coisa que você precisa saber antes de aceitar este trabalho.

Lívia endireitou a postura.

— O senhor Magno Albuquerque é um homem extremamente dedicado à empresa que administra. Ele ama profundamente os filhos… mas enfrenta suas próprias batalhas desde a morte da esposa.

O nome pareceu carregar peso.

— Cecília Albuquerque era uma mulher extraordinária. A casa nunca foi a mesma sem ela.

O silêncio voltou a preencher o ambiente por alguns segundos.

— Meu papel aqui — Teresa continuou — é manter esta casa funcionando. Mas as crianças precisam de algo que nenhum funcionário consegue oferecer sozinho... Atenção.

Ela olhou diretamente para Lívia.

— Elas precisam sentir que alguém escolheu ficar.

As palavras atravessaram Lívia como um eco distante do que ela mesma sempre desejou ouvir.

Ela respirou fundo antes de responder.

— Eu sei como é precisar disso.

Teresa sustentou o olhar por mais alguns segundos. Então, pela primeira vez, um pequeno sorriso surgiu.

— O quarto da babá fica na ala leste da casa. Se aceitar a vaga… ele será seu a partir de hoje.

O coração de Lívia deu um salto.

— Eu aceito.

Teresa se levantou com elegância.

— Então seja bem-vinda, Lívia. Espero que tenha encontrado aqui… mais do que apenas um emprego.

Enquanto seguia Teresa pelo corredor amplo, Lívia percebeu algo que não havia sentido desde que deixou o orfanato.

Não era segurança ainda.

Mas era… uma possibilidade.

E, às vezes, possibilidades eram exatamente onde novas histórias começavam.

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