Mundo ficciónIniciar sesiónO táxi ainda estava parado diante dos imensos portões de ferro quando Lívia percebeu que estava prendendo a respiração. Ela soltou o ar devagar, como se temesse que qualquer som pudesse ecoar alto demais naquele lugar que já parecia silencioso demais antes mesmo de entrar.
Os portões começaram a se abrir lentamente, revelando um longo caminho cercado por jardins perfeitamente aparados. Árvores altas formavam uma espécie de corredor natural, e o cascalho sob as solas do sapato produzia um som suave e ritmado que a fez apertar os dedos contra alça da bolsa em seu ombro. A mansão surgiu aos poucos, imponente e elegante, com paredes claras, janelas altas e varandas largas. Era grande demais para parecer apenas uma casa. Era o tipo de lugar que ela só tinha visto em filmes ou nas poucas revistas antigas que às vezes apareciam no orfanato, doadas por alguém. — Vai dar tudo certo — disse para si mesma. Lívia ficou parada por alguns segundos observando a construção. Não era apenas o tamanho que impressionava. Era a sensação estranha de que aquela casa carregava histórias… e talvez tristezas também. Antes que pudesse reunir coragem para tocar a campainha, a porta principal se abriu. Uma mulher de postura elegante e olhar atento surgiu no batente. Tinha cabelos grisalhos presos em um coque impecável e vestia roupas simples, porém muito bem alinhadas. Havia firmeza em sua presença, mas algo acolhedor também. — Você deve ser Lívia Vasconcelos. Não era uma pergunta. — Sou sim… senhora… — Teresa Moura. Governanta da casa. O tom era sério, porém não frio. Teresa fez um leve gesto com a cabeça, convidando-a a entrar. Ao atravessar a porta, Lívia sentiu imediatamente a diferença do ambiente. O interior era tão bonito quanto o exterior — móveis sofisticados, lustres delicados, quadros que pareciam contar histórias silenciosas. Ainda assim… havia algo ali. A falta de sons. Não era apenas ausência de barulho. Era um silêncio pesado, quase palpável. — Pode deixar sua bolsa ali — disse Teresa, apontando para uma pequena mesa lateral no hall. — Vamos conversar um pouco. Lívia obedeceu, tentando controlar o nervosismo que ameaçava aparecer em suas mãos. Teresa a conduziu até uma sala de estar ampla. As cortinas estavam parcialmente fechadas, permitindo que a luz entrasse de forma suave. Tudo era extremamente organizado, quase impecável demais para parecer vivido. — Antes de começarmos — Teresa falou, sentando-se com elegância — preciso entender uma coisa. Você veio pela agência, mas seu nome não constava na lista oficial de entrevistas de hoje. Lívia engoliu seco. — Eu… fui encaminhada para outra casa… mas ouvi o nome desta família na agência. A atendente comentou que talvez tivesse ocorrido um erro no sistema. Eu… pensei que não teria nada a perder tentando. Teresa a observou por alguns segundos. Não parecia irritada. Parecia… avaliando. — E decidiu vir mesmo sem garantia alguma? — Sim, senhora. — Não precisa me chamar de senhora. Teresa está ótimo. Lívia assentiu, um pouco surpresa com a naturalidade. — Então, Lívia… me conte sobre sua experiência com crianças. O nervosismo começou a ceder quando ela passou a falar sobre algo que conhecia bem. Contou sobre os anos no orfanato, sobre ajudar com os menores, sobre as rotinas, os cursos que fez e, sem perceber, mencionou o quanto acreditava que crianças precisavam mais de segurança emocional do que qualquer outra coisa. Teresa manteve o olhar fixo nela durante todo o relato. — A babá anterior… — Teresa começou, escolhendo as palavras com cuidado — deixou de comparecer há duas semanas. Sem explicações. Sem aviso. Lívia sentiu o coração acelerar. — Imagino que isso tenha complicado bastante a rotina da casa. — Complicou… e revelou algumas fragilidades que já existiam. Houve uma breve pausa. — Esta casa passou por uma perda muito difícil há alguns anos — Teresa continuou. — Desde então, nem tudo voltou ao lugar. Antes que Lívia pudesse responder, um barulho leve de passos apressados ecoou pelo corredor. — Teresa! — uma voz infantil chamou. Uma menina pequena surgiu na porta. Cabelos escuros presos em duas tranças levemente desalinhadas e olhos grandes e curiosos. Ela parou abruptamente ao ver a visitante. — Bella, querida… — Teresa disse com suavidade. — Venha cá. A menina se aproximou devagar, observando Lívia como se tentasse decifrá-la. — Essa é a Lívia. Ela pode passar a trabalhar conosco. Bella inclinou a cabeça, analisando-a em silêncio. — Você vai embora também? A pergunta saiu direta, sem qualquer filtro infantil. A voz era baixa, quase cuidadosa demais para alguém tão pequena. O peito de Lívia apertou. — Eu… pretendo ficar… se vocês deixarem. Bella continuou observando-a por mais alguns segundos, então apenas assentiu, como se estivesse registrando aquela informação com cautela. — Theo está na biblioteca — informou a menina, virando-se para Teresa. — Obrigada, querida. Bella saiu do cômodo com passos leves. Lívia percebeu que Teresa suspirou discretamente. — Theo é o irmão mais velho. Onze anos. Muito protetor da irmã… e pouco receptivo a mudanças. — Eu entendo — respondeu Lívia, lembrando-se de tantas crianças no orfanato que reagiam exatamente assim ao medo de novos abandonos. Teresa cruzou as mãos sobre o colo. — Há outra coisa que você precisa saber antes de aceitar este trabalho. Lívia endireitou a postura. — O senhor Magno Albuquerque é um homem extremamente dedicado à empresa que administra. Ele ama profundamente os filhos… mas enfrenta suas próprias batalhas desde a morte da esposa. O nome pareceu carregar peso. — Cecília Albuquerque era uma mulher extraordinária. A casa nunca foi a mesma sem ela. O silêncio voltou a preencher o ambiente por alguns segundos. — Meu papel aqui — Teresa continuou — é manter esta casa funcionando. Mas as crianças precisam de algo que nenhum funcionário consegue oferecer sozinho... Atenção. Ela olhou diretamente para Lívia. — Elas precisam sentir que alguém escolheu ficar. As palavras atravessaram Lívia como um eco distante do que ela mesma sempre desejou ouvir. Ela respirou fundo antes de responder. — Eu sei como é precisar disso. Teresa sustentou o olhar por mais alguns segundos. Então, pela primeira vez, um pequeno sorriso surgiu. — O quarto da babá fica na ala leste da casa. Se aceitar a vaga… ele será seu a partir de hoje. O coração de Lívia deu um salto. — Eu aceito. Teresa se levantou com elegância. — Então seja bem-vinda, Lívia. Espero que tenha encontrado aqui… mais do que apenas um emprego. Enquanto seguia Teresa pelo corredor amplo, Lívia percebeu algo que não havia sentido desde que deixou o orfanato. Não era segurança ainda. Mas era… uma possibilidade. E, às vezes, possibilidades eram exatamente onde novas histórias começavam.






