Capítulo 2 — Primeiro Dia

O táxi ainda estava parado diante dos imensos portões de ferro quando Lívia percebeu que estava prendendo a respiração.

Soltou o ar devagar.

Os portões começaram a se abrir, revelando um longo caminho cercado por jardins bem cuidados. O som do cascalho sob seus passos parecia alto demais naquele silêncio.

A mansão surgiu aos poucos.

Grande. Elegante. Imponente.

Bonita… e estranhamente vazia.

— Vai dar tudo certo — murmurou para si mesma.

Mas nem ela acreditou totalmente.

Antes que criasse coragem para tocar a campainha, a porta principal se abriu.

Uma mulher de postura impecável apareceu.

Cabelos grisalhos presos em um coque firme. Expressão séria, mas não hostil.

— Você deve ser Lívia Vasconcelos.

— Sou sim…

— Teresa Moura. Governanta da casa.

Não era um convite.

Mas o gesto discreto indicava que ela podia entrar.

Ao cruzar a porta, Lívia sentiu a diferença.

A casa era linda.

Mas o que mais chamava atenção… era o silêncio.

Não era paz.

Era ausência.

— Pode deixar sua bolsa ali — disse Teresa. — Vamos conversar.

Lívia obedeceu.

Tentando esconder o nervosismo.

A sala era ampla, organizada demais. Tudo no lugar certo. Como se nada pudesse sair do controle.

— Seu nome não estava na lista de entrevistas — disse Teresa, direta.

Lívia engoliu seco.

— Eu sei… fui encaminhada para outra casa. Mas ouvi o nome daqui na agência. Disseram que poderia ter sido um erro.

Teresa a observou por alguns segundos.

— E mesmo assim veio?

— Eu não tinha nada a perder.

O silêncio que seguiu foi de avaliação.

— Não precisa me chamar de senhora — disse Teresa por fim. — Teresa está ótimo.

Lívia assentiu.

— Me conte sua experiência.

Falar sobre crianças foi fácil.

Orfanato.

Rotina.

Cuidados.

Cursos.

Mas principalmente… o que sentia.

— Crianças precisam se sentir seguras — disse, sem perceber. — Mais do que qualquer outra coisa.

Teresa não desviou o olhar.

— A babá anterior saiu sem aviso há duas semanas.

Lívia sentiu o coração apertar.

— Imagino que tenha sido difícil.

— Foi. E deixou claro que nem tudo aqui está… resolvido.

Uma pausa.

— Esta casa passou por uma perda.

Lívia não precisou de mais explicação.

O clima dizia tudo.

Passos apressados interromperam o momento.

— Teresa!

Uma menina apareceu na porta.

Pequena. Cabelos em tranças. Olhos atentos.

Parou ao ver Lívia.

— Bella — chamou Teresa com suavidade. — Venha.

A menina se aproximou devagar.

Observando.

— Essa é a Lívia. Ela pode trabalhar conosco.

Bella inclinou a cabeça.

— Você vai embora também?

A pergunta foi direta.

Sem filtro.

Lívia sentiu o peito apertar.

— Eu pretendo ficar… se vocês quiserem.

A menina a analisou por mais alguns segundos.

Então assentiu.

— Theo está na biblioteca.

E saiu.

O silêncio voltou.

— Theo é o irmão mais velho — explicou Teresa. — Onze anos. Protetor. E resistente a mudanças.

— Eu entendo.

Ela realmente entendia.

— Há algo mais que você precisa saber — continuou Teresa.

Lívia se endireitou.

— O senhor Magno Albuquerque é um homem dedicado ao trabalho. Ama os filhos… mas não é um homem fácil.

O nome parecia carregar peso.

— A esposa dele, Cecília, faleceu. E a casa nunca voltou a ser a mesma.

Lívia permaneceu em silêncio.

— As crianças precisam de alguém que fique — disse Teresa. — De verdade.

Aquilo atingiu direto.

— Eu sei como é precisar disso.

Pela primeira vez, Teresa sorriu de leve.

— O quarto da babá é seu… se aceitar.

O coração de Lívia acelerou.

— Eu aceito.

Teresa se levantou.

— Então venha.

Enquanto caminhavam pelo corredor, Lívia tentava absorver tudo.

Não era só um emprego.

Era uma chance.

— Os quartos das crianças ficam aqui — dizia Teresa.

Então um som interrompeu.

Passos.

Firmes.

Descendo a escada.

As duas pararam.

E ele apareceu.

Magno Albuquerque.

Alto. Elegante. Lindo.Expressão fechada.

Mas o que mais chamava atenção… era o olhar.

Distante.

Frio.

Os olhos passaram por Teresa.

E pararam em Lívia.

Diretos.

Avaliando.

— Teresa — disse ele — eu pedi que resolvesse isso.

— E eu resolvi. Essa é Lívia.

Silêncio.

Magno voltou a encará-la.

Mais atento.

— Ela tem experiência — completou Teresa.

Ele não respondeu de imediato.

Como se decidisse algo.

— Espero que saiba onde está se metendo.

A frase foi seca.

Sem suavizar.

Lívia sentiu o coração acelerar.

Mas não recuou.

— Eu sei o suficiente para tentar.

Um segundo de silêncio.

Algo mudou no olhar dele.

Sutil.

— Veremos.

Ele passou por elas.

Sem olhar para trás.

O som dos passos ecoou até desaparecer.

Lívia soltou o ar.

— Ele sempre… — começou.

— Já foi diferente — disse Teresa.

Lívia ficou em silêncio.

Mas algo dentro dela dizia:

aquela casa não era apenas grande.

Era complicada.

E, talvez…

perigosa demais para quem decidisse ficar.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App