Mundo de ficçãoIniciar sessãoO táxi ainda estava parado diante dos imensos portões de ferro quando Lívia percebeu que estava prendendo a respiração.
Soltou o ar devagar. Os portões começaram a se abrir, revelando um longo caminho cercado por jardins bem cuidados. O som do cascalho sob seus passos parecia alto demais naquele silêncio. A mansão surgiu aos poucos. Grande. Elegante. Imponente. Bonita… e estranhamente vazia. — Vai dar tudo certo — murmurou para si mesma. Mas nem ela acreditou totalmente. Antes que criasse coragem para tocar a campainha, a porta principal se abriu. Uma mulher de postura impecável apareceu. Cabelos grisalhos presos em um coque firme. Expressão séria, mas não hostil. — Você deve ser Lívia Vasconcelos. — Sou sim… — Teresa Moura. Governanta da casa. Não era um convite. Mas o gesto discreto indicava que ela podia entrar. Ao cruzar a porta, Lívia sentiu a diferença. A casa era linda. Mas o que mais chamava atenção… era o silêncio. Não era paz. Era ausência. — Pode deixar sua bolsa ali — disse Teresa. — Vamos conversar. Lívia obedeceu. Tentando esconder o nervosismo. A sala era ampla, organizada demais. Tudo no lugar certo. Como se nada pudesse sair do controle. — Seu nome não estava na lista de entrevistas — disse Teresa, direta. Lívia engoliu seco. — Eu sei… fui encaminhada para outra casa. Mas ouvi o nome daqui na agência. Disseram que poderia ter sido um erro. Teresa a observou por alguns segundos. — E mesmo assim veio? — Eu não tinha nada a perder. O silêncio que seguiu foi de avaliação. — Não precisa me chamar de senhora — disse Teresa por fim. — Teresa está ótimo. Lívia assentiu. — Me conte sua experiência. Falar sobre crianças foi fácil. Orfanato. Rotina. Cuidados. Cursos. Mas principalmente… o que sentia. — Crianças precisam se sentir seguras — disse, sem perceber. — Mais do que qualquer outra coisa. Teresa não desviou o olhar. — A babá anterior saiu sem aviso há duas semanas. Lívia sentiu o coração apertar. — Imagino que tenha sido difícil. — Foi. E deixou claro que nem tudo aqui está… resolvido. Uma pausa. — Esta casa passou por uma perda. Lívia não precisou de mais explicação. O clima dizia tudo. Passos apressados interromperam o momento. — Teresa! Uma menina apareceu na porta. Pequena. Cabelos em tranças. Olhos atentos. Parou ao ver Lívia. — Bella — chamou Teresa com suavidade. — Venha. A menina se aproximou devagar. Observando. — Essa é a Lívia. Ela pode trabalhar conosco. Bella inclinou a cabeça. — Você vai embora também? A pergunta foi direta. Sem filtro. Lívia sentiu o peito apertar. — Eu pretendo ficar… se vocês quiserem. A menina a analisou por mais alguns segundos. Então assentiu. — Theo está na biblioteca. E saiu. O silêncio voltou. — Theo é o irmão mais velho — explicou Teresa. — Onze anos. Protetor. E resistente a mudanças. — Eu entendo. Ela realmente entendia. — Há algo mais que você precisa saber — continuou Teresa. Lívia se endireitou. — O senhor Magno Albuquerque é um homem dedicado ao trabalho. Ama os filhos… mas não é um homem fácil. O nome parecia carregar peso. — A esposa dele, Cecília, faleceu. E a casa nunca voltou a ser a mesma. Lívia permaneceu em silêncio. — As crianças precisam de alguém que fique — disse Teresa. — De verdade. Aquilo atingiu direto. — Eu sei como é precisar disso. Pela primeira vez, Teresa sorriu de leve. — O quarto da babá é seu… se aceitar. O coração de Lívia acelerou. — Eu aceito. Teresa se levantou. — Então venha. Enquanto caminhavam pelo corredor, Lívia tentava absorver tudo. Não era só um emprego. Era uma chance. — Os quartos das crianças ficam aqui — dizia Teresa. Então um som interrompeu. Passos. Firmes. Descendo a escada. As duas pararam. E ele apareceu. Magno Albuquerque. Alto. Elegante. Lindo.Expressão fechada. Mas o que mais chamava atenção… era o olhar. Distante. Frio. Os olhos passaram por Teresa. E pararam em Lívia. Diretos. Avaliando. — Teresa — disse ele — eu pedi que resolvesse isso. — E eu resolvi. Essa é Lívia. Silêncio. Magno voltou a encará-la. Mais atento. — Ela tem experiência — completou Teresa. Ele não respondeu de imediato. Como se decidisse algo. — Espero que saiba onde está se metendo. A frase foi seca. Sem suavizar. Lívia sentiu o coração acelerar. Mas não recuou. — Eu sei o suficiente para tentar. Um segundo de silêncio. Algo mudou no olhar dele. Sutil. — Veremos. Ele passou por elas. Sem olhar para trás. O som dos passos ecoou até desaparecer. Lívia soltou o ar. — Ele sempre… — começou. — Já foi diferente — disse Teresa. Lívia ficou em silêncio. Mas algo dentro dela dizia: aquela casa não era apenas grande. Era complicada. E, talvez… perigosa demais para quem decidisse ficar.






