Mundo de ficçãoIniciar sessãoO telefone tocou no escritório de Magno pouco antes do meio-dia.
Ele atendeu sem desviar os olhos das planilhas abertas no notebook. — Senhor Magno Albuquerque? Aqui é da Colégio Windsor Hall. O simples nome da escola fez com que ele interrompesse a digitação. — Sim. — Precisamos que o senhor compareça à escola hoje. Trata-se do comportamento do Theo. Magno apoiou o cotovelo na mesa, pressionando levemente a testa com os dedos. — O que ele fez desta vez? — Preferimos tratar o assunto pessoalmente. O tom diplomático não escondia a gravidade implícita. — Tenho reuniões inadiáveis esta tarde. Minha governanta pode comparecer? — Desde que seja alguém responsável pelas crianças, sim. — Será resolvido. Ele desligou sem acrescentar mais nada. Teresa recebeu o recado na cozinha, organizando a rotina da casa com a eficiência que mantinha tudo funcionando há décadas. — Eu deveria ir — murmurou, analisando mentalmente sua lista de tarefas. Ela olhou o relógio, depois para os funcionários que aguardavam orientações. Por fim, voltou-se para Lívia, que revisava os horários das atividades das crianças. — Lívia, preciso lhe pedir algo fora do habitual. Lívia ergueu o olhar imediatamente. — Claro. — A escola solicitou a presença de um responsável pelo Theo. Eu deveria ir, mas hoje a casa está… especialmente exigente. Você se sente preparada para representá-los? Lívia hesitou apenas o tempo suficiente para compreender a responsabilidade implícita no pedido. — Sim. Eu posso ir. Teresa assentiu, observando-a com atenção. — O motorista será avisado. O colégio Windsor Hall erguia-se imponente entre jardins meticulosamente podados e uma fachada de vidro espelhado que refletia o céu nublado daquela tarde. Lívia desceu do carro com as mãos levemente úmidas, alisando de forma inconsciente o tecido simples do vestido que usava. Era limpo, bem cuidado… mas claramente modesto diante da imponência do lugar. O motorista apenas assentiu, permanecendo ao lado do veículo. Dentro da escola, o ar condicionado deixava o ambiente excessivamente frio. O silêncio dos corredores era interrompido apenas pelo som distante de vozes infantis organizadas em sala de aula. — Posso ajudar? — perguntou a recepcionista, sem esconder o olhar avaliativo que percorreu Lívia rapidamente. — Vim tratar de um assunto relacionado ao Theo Albuquerque. A mudança de postura foi imediata. — Um momento. A recepcionista fez uma ligação breve antes de se levantar. — A diretora irá recebê-la. Lívia foi conduzida até uma sala ampla, decorada com diplomas, fotografias institucionais e móveis de madeira escura que transmitiam autoridade. Quando a porta se abriu, a mulher atrás da mesa não se levantou. Os olhos dela percorreram Lívia lentamente… dos sapatos simples até o rosto. — Senhorita Vasconcelos? O tom carregava uma formalidade fria. — Sim, senhora. A diretora apoiou as mãos sobre a mesa. — Quem é você exatamente? A pergunta veio direta, sem suavização. Lívia engoliu seco antes de responder. — Sou a nova babá das crianças Albuquerque. A mulher inclinou levemente a cabeça, analisando-a com visível ceticismo. — Estranho. Eu esperava que a senhora Teresa comparecesse. Como sempre fez. — Ela está impossibilitada hoje e me pediu que viesse representando a família. A diretora arqueou discretamente uma sobrancelha. — E você tem autoridade para isso? O silêncio que se seguiu foi pesado. Lívia sentiu o rosto aquecer, mas manteve a postura ereta. — Fui enviada oficialmente pela residência Albuquerque. Se a senhora preferir, posso solicitar que confirmem. A diretora permaneceu em quieta por alguns segundos, como se medisse cada detalhe da jovem à sua frente. Por fim, assentiu com um gesto mínimo. — Não será necessário. Ela abriu uma pasta sobre a mesa. — Imagino que queira entender o comportamento das crianças. — Sim, senhora. Quero compreender o que aconteceu… e como eles estão aqui na escola. A diretora entrelaçou os dedos, assumindo um tom mais profissional — embora ainda distante. — Começando por Isabella… ela é uma criança socialmente bem adaptada. Apresenta alto nível de afeto e necessidade constante de validação emocional. Demonstra excelente desempenho acadêmico. O canto dos lábios de Lívia suavizou discretamente. — Entretanto — continuou a diretora — Ela demonstra certo medo de abandono. Costuma buscar figuras femininas de referência com intensidade acima da média para a idade. Lívia absorveu a observação em silêncio. A diretora virou outra página. O semblante dela tornou-se mais rígido. — Theo exige uma análise mais cuidadosa. Lívia manteve o olhar atento. — Ele sempre foi uma criança reservada, porém educada e participativa. Após o falecimento da mãe, não houve mudança imediata no comportamento. Mas … ele começou a apresentar instabilidades de forma crescente. — Quando a mudança começou? — Aproximadamente dois anos depois da perda. Inicialmente surgiram episódios de isolamento. Posteriormente, resistência a atividades que envolviam temas familiares. Nos últimos meses, o comportamento tornou-se progressivamente mais agressivo e reativo… principalmente quando envolve a figura paterna ou estrutura familiar. Ela deslizou um papel sobre a mesa. Era um trabalho escolar rasgado e remendado. O título ainda podia ser lido: “Minha Família” — Durante uma atividade coletiva, outro aluno comentou que o pai participaria da apresentação escolar da próxima semana e perguntou pelo pai dele. Theo reagiu empurrando o colega e, em seguida, destruiu o próprio trabalho. Lívia observou o papel com atenção, sentindo um aperto no peito. — Ele disse alguma coisa? — Disse que família é apenas uma palavra usada para fingir felicidade. O peso da frase pairou no ambiente. A diretora recostou-se na cadeira. — Senhorita Vasconcelos… com todo respeito… Theo não responde bem a figuras transitórias. Lívia sustentou o olhar dela. — Não pretendo ser transitória. A diretora a observou novamente… dessa vez com leve surpresa. — Veremos. Ela pressionou um botão sobre a mesa. — Peçam para trazer o Theo. Quando o menino entrou na sala, o olhar dele parou imediatamente em Lívia. O maxilar dele se tensionou. — Cadê meu pai? — Ele não pôde vir hoje — respondeu Lívia com suavidade. Theo soltou uma risada curta, amarga. — Claro que não pôde. A diretora observava a interação com olho clínico. — Theo — disse Lívia, aproximando-se um passo — eu vim porque ele confiou em mim para isso. — Ele sempre confia em outra pessoa. A frase saiu baixa… mas carregada de ressentimento. — Você nem devia estar aqui — continuou ele, agora encarando Lívia diretamente. — Eu estou aqui porque me preocupo com você. — Você nem me conhece. — Então me deixa conhecer. Ele desviou o olhar, respirando de forma irregular. — Eles ficam falando de família o tempo todo… como se fosse obrigatório ser feliz com isso. — E isso te incomoda? — É tudo mentira. O silêncio tomou conta da sala. A diretora observava atentamente… agora com expressão menos rígida. — Já posso ir embora? — perguntou Theo, por fim. Lívia assentiu. — Posso levar Bella agora também? A diretora concordou. O caminho até o carro foi silencioso até Bella surgir correndo pelo corredor. — Você veio buscar a gente? Mas é cedo ainda. — Vim sim. Houve um pequeno emprevisto. O sorriso da menina iluminou o rosto inteiro. — Você pode vir sempre? Theo revirou os olhos. — Ela não é motorista, Bella. — Mas ela veio — insistiu a menina, segurando a mão de Lívia. Theo desviou o olhar para a janela durante todo o trajeto de volta… mas não voltou a provocar. Ao chegar à mansão, Bella continuava segurando a mão de Lívia com naturalidade. Theo observou o gesto com evidente incômodo. — Você não precisa fingir que gosta da gente — disse ele, sem encará-la. Antes que Lívia respondesse, Teresa apareceu no corredor. — Como foi? Lívia respirou fundo. — Acho que ele está tentando ser ouvido… de um jeito que ninguém tem conseguido escutar. Teresa manteve o olhar fixo na escada por onde Theo subia lentamente. — Talvez… ele tenha encontrado alguém que finalmente escute.






