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Capítulo 10 - Pedido de ajuda

O telefone tocou no escritório de Magno pouco antes do meio-dia.

Ele atendeu sem desviar os olhos das planilhas abertas no notebook.

— Senhor Magno Albuquerque? Aqui é da Colégio Windsor Hall.

O simples nome da escola fez com que ele interrompesse a digitação.

— Sim.

— Precisamos que o senhor compareça à escola hoje. Trata-se do comportamento do Theo.

Magno apoiou o cotovelo na mesa, pressionando levemente a testa com os dedos.

— O que ele fez desta vez?

— Preferimos tratar o assunto pessoalmente.

O tom diplomático não escondia a gravidade implícita.

— Tenho reuniões inadiáveis esta tarde. Minha governanta pode comparecer?

— Desde que seja alguém responsável pelas crianças, sim.

— Será resolvido.

Ele desligou sem acrescentar mais nada.

Teresa recebeu o recado na cozinha, organizando a rotina da casa com a eficiência que mantinha tudo funcionando há décadas.

— Eu deveria ir — murmurou, analisando mentalmente sua lista de tarefas.

Ela olhou o relógio, depois para os funcionários que aguardavam orientações. Por fim, voltou-se para Lívia, que revisava os horários das atividades das crianças.

— Lívia, preciso lhe pedir algo fora do habitual.

Lívia ergueu o olhar imediatamente.

— Claro.

— A escola solicitou a presença de um responsável pelo Theo. Eu deveria ir, mas hoje a casa está… especialmente exigente. Você se sente preparada para representá-los?

Lívia hesitou apenas o tempo suficiente para compreender a responsabilidade implícita no pedido.

— Sim. Eu posso ir.

Teresa assentiu, observando-a com atenção.

— O motorista será avisado.

O colégio Windsor Hall erguia-se imponente entre jardins meticulosamente podados e uma fachada de vidro espelhado que refletia o céu nublado daquela tarde.

Lívia desceu do carro com as mãos levemente úmidas, alisando de forma inconsciente o tecido simples do vestido que usava. Era limpo, bem cuidado… mas claramente modesto diante da imponência do lugar.

O motorista apenas assentiu, permanecendo ao lado do veículo.

Dentro da escola, o ar condicionado deixava o ambiente excessivamente frio. O silêncio dos corredores era interrompido apenas pelo som distante de vozes infantis organizadas em sala de aula.

— Posso ajudar? — perguntou a recepcionista, sem esconder o olhar avaliativo que percorreu Lívia rapidamente.

— Vim tratar de um assunto relacionado ao Theo Albuquerque.

A mudança de postura foi imediata.

— Um momento.

A recepcionista fez uma ligação breve antes de se levantar.

— A diretora irá recebê-la.

Lívia foi conduzida até uma sala ampla, decorada com diplomas, fotografias institucionais e móveis de madeira escura que transmitiam autoridade.

Quando a porta se abriu, a mulher atrás da mesa não se levantou.

Os olhos dela percorreram Lívia lentamente… dos sapatos simples até o rosto.

— Senhorita Vasconcelos?

O tom carregava uma formalidade fria.

— Sim, senhora.

A diretora apoiou as mãos sobre a mesa.

— Quem é você exatamente?

A pergunta veio direta, sem suavização.

Lívia engoliu seco antes de responder.

— Sou a nova babá das crianças Albuquerque.

A mulher inclinou levemente a cabeça, analisando-a com visível ceticismo.

— Estranho. Eu esperava que a senhora Teresa comparecesse. Como sempre fez.

— Ela está impossibilitada hoje e me pediu que viesse representando a família.

A diretora arqueou discretamente uma sobrancelha.

— E você tem autoridade para isso?

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Lívia sentiu o rosto aquecer, mas manteve a postura ereta.

— Fui enviada oficialmente pela residência Albuquerque. Se a senhora preferir, posso solicitar que confirmem.

A diretora permaneceu em quieta por alguns segundos, como se medisse cada detalhe da jovem à sua frente.

Por fim, assentiu com um gesto mínimo.

— Não será necessário.

Ela abriu uma pasta sobre a mesa.

— Imagino que queira entender o comportamento das crianças.

— Sim, senhora. Quero compreender o que aconteceu… e como eles estão aqui na escola.

A diretora entrelaçou os dedos, assumindo um tom mais profissional — embora ainda distante.

— Começando por Isabella… ela é uma criança socialmente bem adaptada. Apresenta alto nível de afeto e necessidade constante de validação emocional. Demonstra excelente desempenho acadêmico.

O canto dos lábios de Lívia suavizou discretamente.

— Entretanto — continuou a diretora — Ela demonstra certo medo de abandono. Costuma buscar figuras femininas de referência com intensidade acima da média para a idade.

Lívia absorveu a observação em silêncio.

A diretora virou outra página.

O semblante dela tornou-se mais rígido.

— Theo exige uma análise mais cuidadosa.

Lívia manteve o olhar atento.

— Ele sempre foi uma criança reservada, porém educada e participativa. Após o falecimento da mãe, não houve mudança imediata no comportamento. Mas … ele começou a apresentar instabilidades de forma crescente.

— Quando a mudança começou?

— Aproximadamente dois anos depois da perda. Inicialmente surgiram episódios de isolamento. Posteriormente, resistência a atividades que envolviam temas familiares. Nos últimos meses, o comportamento tornou-se progressivamente mais agressivo e reativo… principalmente quando envolve a figura paterna ou estrutura familiar.

Ela deslizou um papel sobre a mesa.

Era um trabalho escolar rasgado e remendado.

O título ainda podia ser lido:

“Minha Família”

— Durante uma atividade coletiva, outro aluno comentou que o pai participaria da apresentação escolar da próxima semana e perguntou pelo pai dele. Theo reagiu empurrando o colega e, em seguida, destruiu o próprio trabalho.

Lívia observou o papel com atenção, sentindo um aperto no peito.

— Ele disse alguma coisa?

— Disse que família é apenas uma palavra usada para fingir felicidade.

O peso da frase pairou no ambiente.

A diretora recostou-se na cadeira.

— Senhorita Vasconcelos… com todo respeito… Theo não responde bem a figuras transitórias.

Lívia sustentou o olhar dela.

— Não pretendo ser transitória.

A diretora a observou novamente… dessa vez com leve surpresa.

— Veremos.

Ela pressionou um botão sobre a mesa.

— Peçam para trazer o Theo.

Quando o menino entrou na sala, o olhar dele parou imediatamente em Lívia.

O maxilar dele se tensionou.

— Cadê meu pai?

— Ele não pôde vir hoje — respondeu Lívia com suavidade.

Theo soltou uma risada curta, amarga.

— Claro que não pôde.

A diretora observava a interação com olho clínico.

— Theo — disse Lívia, aproximando-se um passo — eu vim porque ele confiou em mim para isso.

— Ele sempre confia em outra pessoa.

A frase saiu baixa… mas carregada de ressentimento.

— Você nem devia estar aqui — continuou ele, agora encarando Lívia diretamente.

— Eu estou aqui porque me preocupo com você.

— Você nem me conhece.

— Então me deixa conhecer.

Ele desviou o olhar, respirando de forma irregular.

— Eles ficam falando de família o tempo todo… como se fosse obrigatório ser feliz com isso.

— E isso te incomoda?

— É tudo mentira.

O silêncio tomou conta da sala.

A diretora observava atentamente… agora com expressão menos rígida.

— Já posso ir embora? — perguntou Theo, por fim.

Lívia assentiu.

— Posso levar Bella agora também?

A diretora concordou.

O caminho até o carro foi silencioso até Bella surgir correndo pelo corredor.

— Você veio buscar a gente? Mas é cedo ainda.

— Vim sim. Houve um pequeno emprevisto.

O sorriso da menina iluminou o rosto inteiro.

— Você pode vir sempre?

Theo revirou os olhos.

— Ela não é motorista, Bella.

— Mas ela veio — insistiu a menina, segurando a mão de Lívia.

Theo desviou o olhar para a janela durante todo o trajeto de volta… mas não voltou a provocar.

Ao chegar à mansão, Bella continuava segurando a mão de Lívia com naturalidade.

Theo observou o gesto com evidente incômodo.

— Você não precisa fingir que gosta da gente — disse ele, sem encará-la.

Antes que Lívia respondesse, Teresa apareceu no corredor.

— Como foi?

Lívia respirou fundo.

— Acho que ele está tentando ser ouvido… de um jeito que ninguém tem conseguido escutar.

Teresa manteve o olhar fixo na escada por onde Theo subia lentamente.

— Talvez… ele tenha encontrado alguém que finalmente escute.

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