O DON QUE ME ESCOLHEU
Luna Castilho nunca enxergou o mundo como as outras pessoas. Nascida com o coração aberto demais e uma intuição que atravessava mentiras, ela cresceu como a filha protegida — e prisioneira — de um dos homens mais temidos do submundo. Sua beleza serena escondia uma força quieta: doçura que não se quebrava, silêncio que cortava mais fundo que qualquer grito.
Fernando Torrenegro era o oposto. Don de um império construído sobre sangue e silêncio, ele carregava a vingança como segunda pele. Frio, controlado, cruel quando precisava ser — e sempre precisava. Aceitou o casamento com Luna como se aceitasse uma arma carregada: ela era a filha do inimigo, a moeda de troca perfeita. O plano era simples. Destruí-la devagar. Fazer o pai sangrar através dela.
Na primeira noite em que ficaram a sós, o ar do quarto pesava como chumbo. Fernando a observava do outro lado da cama, ainda de terno, o olhar escuro e indecifrável. Luna não desvia. Em vez de tremer, aproximou-se devagar, os dedos leves tocando o nó da gravata dele como quem desarma uma bomba.
— Você me olha como se eu já estivesse morta — murmurou ela, a voz baixa, quase carinhosa. — Mas eu ainda estou aqui. E você… você está com medo do que eu posso despertar.
Ele prendeu o pulso dela com força, o polegar pressionando o ponto onde o sangue batia rápido. O cheiro dela — doce, vivo, perigoso — invadiu o controle que ele jurara nunca perder. Por um segundo, o ódio vacilou. Por um segundo, a vingança pareceu pequena demais diante da mulher que o encarava sem pedir perdão.
Luna não se dobra.
Fernando não perdoa.
No mundo deles, amor é a única fraqueza que ainda não foi enterrada. E fraquezas, como se sabe, não sobrevivem.