Mundo ficciónIniciar sesiónO mundo de Amanda para no momento em que ela descobre que uma noitada que termina na cama de um estranho, mal se lembrando do ocorrido e apenas a sensação de estar dolorida entre as penas como lembrança, termina com ela grávida e tendo que conviver com o genitor que faz seu sangue cheio de hormônios ferver. Ele acha que ela quer dar o golpe da barriga, ela só quer que a filha cresça com um pai. Ele cuida dela alegando só querer o bem da criança em seu ventre, ela sabe que ele quer mais.
Leer másAlgumas cicatrizes não aparecem no corpo.Elas se instalam em lugares silenciosos, onde ninguém toca sem pedir permissão. E mesmo quando a dor diminui, elas continuam ali, lembrando que o amor também pode sangrar.Clara dormia em meu colo, envolta na mesma coberta branca que quase se tornou um símbolo de luto. Agora, porém, ela significava outra coisa: sobrevivência. Vitória. Vida.O apartamento estava diferente.Não nos móveis, não na vista, não no luxo que antes me intimidava. Estava diferente porque nós estávamos diferentes. John não era mais o homem inquieto que rondava o espaço como se precisasse proteger tudo o tempo inteiro. Ele estava ali, presente de um jeito silencioso, atento aos detalhes pequenos — o choro que antecedia a fome, a forma como eu respirava mais fundo quando a ansiedade ameaçava voltar, o modo como Clara se acalmava ao ouvir sua voz.E eu… eu não era mais apenas a mulher que entrou naquele mundo por acaso.Eu tinha atravessado o inferno e voltado com algo infi
• POV JOHN • O choro de Clara era um fio esticado demais dentro de mim. Cada segundo em que Cassandra mantinha aquela faca próxima ao pescoço minúsculo da minha filha era uma eternidade em que eu precisava permanecer imóvel, respirando devagar, controlando um instinto primitivo de avançar e destruir tudo à minha frente. — Você sempre gostou de se sentir no centro do caos — eu disse, mantendo a voz baixa, firme. — Mas isso aqui… isso não é sobre você. Cassandra inclinou a cabeça, como se analisasse uma obra de arte. — É exatamente sobre mim, John. Sempre foi. — Ela sorriu. — Você só demorou para perceber. Dei mais um passo lento à frente, as mãos visíveis. — Coloque a faca no chão. — Repeti. — Não precisa terminar assim. Ela riu. Uma risada quebrada, carregada de algo perigoso. — Terminar? — Os olhos dela brilharam. — Eu esperei meses por este começo. Clara se mexeu nos braços dela, inquieta. Um som baixo escapou da boquinha. Meu coração quase saiu do peito. — Ela está com f
• POV JOHN •Há momentos em que o mundo deixa de ser barulho e vira cálculo.Depois do grito de Amanda, depois da coberta branca esmagada contra o peito dela como se fosse a última âncora com a sanidade, algo dentro de mim se reorganizou. Não foi calma. Não foi aceitação. Foi foco.O tipo de foco que só vem quando tudo o que importa foi arrancado de você.Kat levou Amanda para o quarto. Ouvi a porta se fechar, ouvi o choro abafado, ouvi meu próprio nome sendo sussurrado como uma oração quebrada. Não fui atrás. Não porque eu não quisesse, mas porque, se eu entrasse naquele quarto sem respostas, eu quebraria junto com ela.E alguém precisava permanecer inteiro.Voltei para a sala. A caixa ainda estava ali, aberta, obscena em sua simplicidade. A coberta dobrada com cuidado demais. O envelope vazio, agora apenas papel inútil depois de cumprir sua função cruel.Aproximei-me da mesa como quem se aproxima de uma cena de crime.Porque era exatamente isso.Passei os dedos pela borda interna da
• POV JOHN •Existe um tipo de silêncio que não é ausência de som — é ausência de ar.O apartamento estava assim quando entramos. Amanda não chorava alto. Não gritava. Não quebrava nada. Ela apenas… existia em pedaços. Sentada no sofá, com o corpo curvado para frente, os braços vazios apertados contra o próprio peito, como se ainda pudesse sentir o peso da nossa filha ali.E eu nunca me senti tão impotente em toda a minha vida.Carreguei Amanda do hospital até o carro como se fosse vidro rachado. Ela tremia. Não de frio. Mas de perda. O choro vinha em ondas silenciosas, soluços que pareciam presos na garganta, como se o corpo dela estivesse tentando sobreviver apesar da alma já ter sido arrancada.Agora, em casa, Kat estava ali. Eu nem lembrava de ter ligado para ela. Talvez Amanda tenha feito isso em algum momento entre o colapso e o torpor. Kat ajoelhou-se diante dela, segurando seu rosto com as duas mãos, falando coisas que eu não conseguia ouvir direito.— Ela vai voltar — dizia.





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