Mundo ficciónIniciar sesiónSantino Lucchesi é um campeão de boxe famoso, impulsivo e temperamental. Acostumado a vencer dentro e fora do ringue, vê sua carreira ameaçada quando se envolve em um acidente de carro misterioso que resulta em uma morte suspeita. Júlia Milano é uma advogada criminalista brilhante, conhecida por sua frieza e competência — e por nunca perder um caso. Quando é contratada para defender Santino, ela está longe de querer se envolver emocionalmente com o cliente… mas ele não facilita as coisas. O problema? Eles se odeiam à primeira vista. A convivência entre os dois é marcada por provocações, ironias e discussões acaloradas — mas a tensão sexual entre eles cresce de forma incontrolável. O caso é mais complexo do que parece, e à medida que a investigação avança, Júlia se vê dividida entre sua ética profissional e os sentimentos que tenta negar.
Leer másA casa era pequena, úmida, e o chão de cimento frio castigava os pés descalços. O ar estava pesado, sufocante. Cheirava a suor velho, álcool barato e cigarro vencido. A televisão chiava com a tela azul, esquecida, e uma garrafa de cachaça tombada pingava sobre o tapete imundo como um relógio macabro marcando o tempo.
Santino acordou com o som de algo sendo arrastado no quarto ao lado. Saiu do colchão fino jogado no chão da sala e caminhou até o corredor, esfregando os olhos. Vestia uma camiseta desbotada com um buraco no ombro e um calção de futebol emprestado, largo demais para seu corpo magro. Seus cabelos estavam desgrenhados, e os olhos, mesmo tão jovens, carregavam um cansaço que não pertencia à infância.
Ao chegar na porta entreaberta, viu a mãe. Ela enfiava roupas às pressas numa bolsa surrada, os cabelos escuros presos de qualquer jeito, o rosto marcado por olheiras e hematomas que tentava esconder com um lenço no pescoço. No colo, o irmão mais novo — ainda um bebê, olhos pesados de sono e bochechas coradas — dormia, alheio ao desespero que tomava o ambiente.
— Mãe? — ele sussurrou, hesitante.
Ela parou. As mãos congelaram por um segundo sobre a bolsa. Mas não se virou.
— Volta pra cama, Toninho.
— Você tá indo embora?
A voz dela tremeu.
— Eu preciso.
— Eu posso ir com você.
Ela o encarou, enfim. E o olhar que Santino recebeu foi um golpe mais forte do que qualquer tapa do pai. Era o olhar de quem já decidiu. De quem está partindo com o coração partido.
— Ele vai me matar — ela disse com os olhos marejados. — Eu não posso mais ficar aqui. Não com o seu irmão.
— Eu sou forte. Eu aguento.
— Não devia ter que aguentar nada disso…
De repente, um barulho brutal ecoou pela casa: um baque, um grunhido, o tilintar de garrafas caindo. O pai havia acordado. E estava furioso.
— Cadê aquela desgraçada?! — a voz rouca e agressiva invadiu o corredor como uma tempestade.
A mãe se apressou. Colocou a bolsa no ombro, apertou o bebê contra o peito e passou correndo por Santino. Ele tentou segurá-la pela blusa, desesperado, mas ela se soltou.
— Me perdoa — disse antes de atravessar a porta dos fundos, sem olhar para trás.
A porta bateu com força. E então o silêncio. Um silêncio que durou menos de três segundos.
Santino não teve tempo de fugir.
O pai surgiu no corredor cambaleante, o rosto amassado, os olhos injetados. O bafo de cachaça era sufocante. Ele o agarrou pela nuca com violência.
— Cadê a sua mãe? — Berrou
— Foi embora — Santino sussurrou
— Sua mãe fugiu por sua culpa, seu merdinha!
O tapa o lançou contra a parede, fazendo o ombro estalar. A dor foi aguda, mas Santino não gritou. Não chorou. Não daria esse gosto.
Caiu no chão e ficou ali, respirando pela boca, tentando ignorar o gosto metálico do sangue que escorria do lábio.
Mais tarde naquela noite, já sozinho, ele arrastou uma cadeira até a geladeira. Pegou um pão seco e uma fatia de mortadela, sentou-se na cozinha escura e comeu em silêncio.
A única luz vinha da rua, filtrada pela persiana quebrada. As mãos sujas, as pernas arranhadas, o maxilar latejando.Ele olhou para os próprios punhos miúdos.
— Um dia, vocês vão fazer mais do que se defender — murmurou para si mesmo.E ali, no fundo da solidão, nasceu a fúria que moldaria Santino Lucchesi.
***
A cozinha da casa dos Milano era um contraste perfeito com a de Santino. Branca, iluminada, com móveis planejados, bancada de granito e aroma de café filtrado. Tudo limpo, organizado… e frio como o homem que ali comandava.
— Dez por cento de trezentos e vinte — disse o pai, de pé ao lado da mesa.
Júlia segurava a caneta azul com os dedos suados. O caderno de matemática estava manchado de borracha, seus cálculos riscados e reescritos inúmeras vezes. A postura rígida, o cabelo preso num rabo de cavalo firme. O pai, General Renato Milano, usava uma camisa branca impecável, calça alinhada e sapatos engraxados — mesmo dentro de casa.
— Trinta… vinte?
Ele não respondeu de imediato. Virou lentamente a folha do jornal e tomou um gole de café.
— Errado. De novo.
Luísa, sentada num canto da cozinha, rabiscava com lápis de cor sobre uma folha de papel. Pequena, observadora. Os olhos dela se moviam entre a irmã e o pai com ansiedade silenciosa.
Júlia apertou os dentes. Corrigiu o cálculo.
— Trinta e dois.O pai assentiu levemente. — Melhore sua postura. Você não está em uma rede de praia.
Ela se endireitou.
Engoliu o incômodo. Engoliu a vontade de dizer que já sabia. Engoliu tudo.Seu olhar se desviou brevemente para o balcão. Sobre ele, uma moldura de madeira com uma foto antiga: Elisa, sua mãe, sorrindo com as duas filhas no colo. A doçura daquele retrato contrastava com a rigidez que dominou a casa depois que ela partiu.
Júlia respirou fundo e apagou a resposta errada.
— Eu posso tentar de novo — murmurou para si mesma.O pai continuou lendo o jornal, como se ela fosse apenas mais uma missão a ser cumprida com eficiência militar.
E ela entendeu, mesmo sem ouvir em voz alta: errar não era uma opção. Fraquejar não era permitido.
Ela teria que ser perfeita. Por ela. Por Luísa. Por Elisa.E naquele instante, algo dentro de Júlia se partiu em silêncio. E se moldou em aço.
Duas infâncias marcadas por extremos.
Santino aprendeu a sobreviver apanhando e resistindo.
Júlia aprendeu a vencer sem poder falhar.Ele fugiu das regras.
Ela se prendeu a elas.Anos depois, seus mundos se chocariam.
Duas forças opostas. Duas almas marcadas por cicatrizes invisíveis.E juntos, descobririam que o maior ringue de todos não é o tribunal nem o octógono.
É o coração.O vento soprava contra as janelas do oitavo andar quando Miguel Tavares empurrou a porta do escritório com um tablet nas mãos e a testa franzida. Era uma manhã fria, e o clima parecia compartilhar da tensão que pairava no ar desde a noite anterior. Júlia estava sentada à mesa de reuniões, rodeada por papéis e laudos periciais. Ela ergueu os olhos apenas o suficiente para captar a gravidade no semblante do sócio.— Achei que tivesse ido direto ao fórum — disse ela, pegando o tablet.— Mudei os planos quando vi isso.Na tela, uma sequência de mensagens anônimas postadas em fóruns obscuros da internet. As imagens de Santino na cena do acidente circulavam com legendas duvidosas: "Justiça para a verdadeira vítima". "Lucchesi não é herói. É assassino." Algumas das postagens vinham acompanhadas de prints das investigações internas da polícia, documentos supostamente sigilosos.— Vazaram o inquérito? — perguntou ela, passando os dedos pela tela.— Pior. Alguém está construindo uma narrativa p
Naquela manhã, Júlia chegou ao escritório mais cedo que o habitual. O silêncio era raro por ali, e ela aproveitou para revisar os últimos relatórios da perícia, cruzar informações e preparar o próximo passo da investigação.Estava tão concentrada que demorou a perceber a movimentação estranha no saguão.— Doutora Milano? — chamou Fernanda, a recepcionista, com um olhar hesitante. — Um segurança... quer falar com você. Disse que foi contratado em seu nome.Júlia franziu o cenho.— Segurança?Desceu ao térreo, os saltos ecoando como estalos de raiva contida. No saguão, encontrou um homem alto, de terno escuro e fone de ouvido discreto, com postura militar e olhar treinado.— Senhorita Milano? Sou Vinícius. Fui designado para sua proteção a partir de hoje. Permanecerei à vista, mas discretamente.— Designado por quem? — ela cortou, ríspida.Ele hesitou, mas respondeu:— Santino Lucchesi. Ele não achou seguro deixá-la sem proteção após o incidente da noite passada.O sangue de Júlia ferve
A noite caía como um véu grosso sobre a cidade. Júlia deixara o escritório mais tarde que o habitual. Estava cansada, exausta mentalmente. O rosto refletido na tela do celular mostrava olheiras e concentração. Ainda assim, recusava-se a deixar o caso esfriar — ou a si mesma vacilar.Ela atravessava uma rua pouco iluminada no caminho para a estação de metrô, os passos ágeis e precisos como de costume. O salto ecoava nos becos e ela se mantinha alerta, como sempre. Mas algo estava errado.Não era só instinto — era a mesma sensação da noite anterior. A sensação de estar sendo observada. Caçada.Um passo mais alto. Um rangido de portão atrás. Um reflexo.Júlia parou.Quando se virou, viu o vulto. E dessa vez, o homem não se escondeu. Avançava com pressa, o rosto coberto por um boné escuro, os olhos fixos nela. Nas mãos, algo que reluzia sob a luz amarelada de um poste — uma arma.Júlia correu.Dobrou a esquina e viu o letreiro vermelho ap
O silêncio da rua contrastava com o barulho incessante dentro da cabeça de Júlia. Eram quase nove da noite quando ela deixou o escritório. A noite estava fria, o vento assoviava entre os prédios e cada passo ecoava mais do que o normal. Ela apertou o casaco contra o corpo e ajeitou a alça da bolsa no ombro.Não era paranoica. Ou melhor, tinha aprendido a não parecer paranoica — o que não era o mesmo que baixar a guarda.Três quadras depois, sentiu. Um movimento discreto. Um reflexo num vidro de loja. Passos mascarados por distância, mas ainda assim… constantes.Ela diminuiu o ritmo e parou na calçada para fingir que procurava algo na bolsa. Discretamente, observou pelo reflexo da vitrine de uma cafeteria fechada. Um homem de capuz preto, cerca de trinta e poucos anos, mantinha uma distância segura, mas alinhada demais ao seu trajeto.Ela voltou a andar. Mai
Último capítulo