Capítulo 4 – O Dossiê

O silêncio na sala de Júlia era quebrado apenas pelo som das páginas viradas e pelo tilintar eventual da colher no copo de chá. Eram quase onze da noite e ela ainda estava de blazer, os cabelos presos em um coque que já ameaçava desmanchar. A luminária projetava sombras duras sobre os papéis espalhados pela mesa. Era sua terceira leitura do inquérito. E, de novo, algo não batia.

Ela sublinhou um trecho com força desnecessária.

“Veículo conduzido por Santino Lucchesi trafegava em velocidade incompatível com a via.”

Incompatível. Mas qual era a base para essa afirmação? Os relatórios técnicos eram vagos, os dados sobre frenagem estavam mal documentados e o depoimento da única testemunha presencial destoava do padrão. Tudo era baseado na “impressão” de que ele vinha rápido demais. Nenhuma câmera da via fora anexada ao inquérito. Nenhuma imagem de radar.

Pegou o laudo toxicológico. O teor alcoólico era mínimo. Dentro dos limites. Ainda assim, o laudo trazia uma anotação subjetiva de comportamento "aparentemente alterado". Mas baseado em quê? Quem fez essa observação? Um agente? Um socorrista? O documento não dizia.

Ela se recostou na cadeira. Algo ali estava sendo conduzido para uma conclusão conveniente demais.

Nesse momento, seu celular vibrou. Notícia nova. O push de um site sensacionalista estampava:

“JUSTIÇA PARA A VÍTIMA: POPULAÇÃO PEDE PRISÃO DE SANTINO LUCCHESI”

 “Acusado de matar um motorista em acidente suspeito, o boxeador continua livre. Especialistas questionam conduta da promotoria.”

Júlia soltou um palavrão.

A pressão pública estava escalando. E isso poderia forçar o promotor a tomar decisões precipitadas. E pior — poderia inviabilizar a linha de defesa que ela ainda estava construindo.

Levantou-se, pegou o celular e discou.

— Santino?

— Doutora? Achei que só ligava no horário comercial — veio a voz grave, preguiçosa.

— Preciso conversar. Você ainda está omitindo informações.

— E você ainda está me tratando como culpado. Estamos quites.

— Não estamos. A mídia está pedindo tua cabeça, Santino. E, com esse seu comportamento, você está fazendo o jogo deles.

— Quer saber o que eu acho? Eu acho que, pra você, isso aqui é só mais um caso. Uma estatística.

— Você está errado. Se fosse só mais um caso, eu não estaria aqui às onze da noite com essas porcarias de laudo tentando achar uma brecha pra te manter fora da cadeia.

— Então por que não me pergunta o que realmente importa?

Houve silêncio dos dois lados.

— Por que você está tão certo de que eu sou inocente? — ele perguntou, voz mais baixa.

Ela mordeu o lábio, irritada. Não pela pergunta. Mas por como ela a atingiu.

— Porque até agora, todas as peças parecem montadas. E eu sou boa em montar quebra-cabeças. Quando as peças sobram ou faltam, eu sinto.

— Então siga o que você sente, doutora. Mas não espere que eu facilite. — E desligou.

Júlia ficou alguns segundos com o telefone na mão, respirando fundo. Ele era insuportável. Arrogante. Misterioso. E, droga, ainda assim, havia algo nele que a instigava.

No dia seguinte, ela foi até a delegacia onde o inquérito estava sendo processado. O delegado responsável, Carlos Britto, era um homem calvo, grisalho e vaidoso. Recebeu Júlia com um sorriso burocrático.

— Dra. Milano. Sempre uma honra.

— Preciso de acesso a tudo o que não foi anexado ao inquérito. Gravações, laudos complementares, depoimentos. Tudo.

— A senhora está insinuando alguma irregularidade?

Ela se manteve firme.

— Estou dizendo que estou trabalhando com material incompleto. E isso não é só prejudicial à defesa — é um erro processual grave.

O delegado pigarreou. Pegou uma pasta na gaveta, abriu, mas hesitou.

— Veja bem, doutora. A pressão está enorme. Muita gente envolvida. O promotor Álvaro Diniz já me ligou duas vezes esta semana pedindo celeridade. E agora com esse pedido da senhora...

— Vou requisitar uma perícia independente. Já encaminhei ofício ao juiz solicitando autorização. — Ela se levantou, a voz cortante. — E, com ou sem sua colaboração, vou acessar esses documentos.

Na saída da delegacia, o sol ardia. Júlia respirou fundo. Aquilo estava só começando.

No escritório, seu sócio, Miguel Tavares, a esperava com uma xícara de café na mão.

— Li a matéria no jornal. Estão te chamando de “advogada dos assassinos de luxo”.

— Sempre sonhei com esse título — respondeu ela, sarcástica.

— Você está se expondo demais, Júlia. Esse caso vai explodir. A promotoria vai te sabotar.

— Eu lido com promotores desde os vinte e três, Miguel. O problema não é o Diniz. O problema é que alguém está escondendo a verdade. E isso torna o caso mais complicado.

Miguel a observou com um olhar misto de admiração e preocupação. Conhecia aquela expressão determinada. Júlia não recuava quando encontrava um buraco no sistema.

— E o Lucchesi? Vai colaborar?

— Não ainda. Mas ele quer ser salvo. E, eventualmente, o medo é mais forte que o orgulho.

Ela se trancou na sala, acendeu o abajur e retomou os laudos. As folhas marcadas de caneta fluorescente. Os nomes das testemunhas sublinhados. Os horários desconexos.

E então, ali, no meio do terceiro laudo de perícia, uma anotação.

“Marca de frenagem incompatível com o impacto lateral observado.”

Ela congelou. Releu a frase. Aquilo era tudo que precisava para reforçar o pedido de nova perícia.

Abriu o notebook. Começou a digitar a petição com os dedos ágeis, enquanto o relógio avançava para além da meia-noite.

Do outro lado da cidade, Santino observava seu reflexo no espelho do hospital. A imagem de um campeão. Um corpo coberto de cicatrizes. Mas nada comparado ao estrago dentro dele.

E enquanto o mundo o julgava, uma mulher do outro lado da cidade apertava os nós que manteriam sua liberdade pendurada por um fio.

Mas um fio que ela, teimosa como era, se recusava a soltar.

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