Capítulo 3 – O Cliente

O quarto de luxo da clínica particular onde Santino Lucchesi estava internado era ampla, fria e decorada com o mínimo necessário para que ninguém se sentisse à vontade demais. Ele odiava hospitais. O cheiro de álcool, os sons abafados, a sensação de impotência. Mas naquele momento, o incômodo maior estava prestes a entrar pela porta.

Ela chegou pontualmente às nove.

Saltos agulha. Blazer ajustado. Vestido vinho rente ao corpo. Os cabelos presos num coque impecável, que expunha a linha firme do pescoço e a postura ereta. Óculos de aro fino sobre olhos escuros e inquisidores. Júlia Milano atravessou o ambiente como quem entra numa arena — e Santino sentiu o impacto como um direto no estômago.

Porra…

Ele já tinha cruzado com muita mulher bonita na vida. Modelos, atrizes, fãs obcecadas. Mas aquela ali? Aquela mulher era outra coisa. Ela exalava poder. Era o tipo de beleza que não implorava para ser notada — ela se impunha. Um tipo de beleza que não distraía… intimidava.

Seus olhos correram por cada detalhe: os contornos sob o tecido elegante, o desenho da boca contida em um batom discreto, a curvatura acentuada do quadril, a tensão leve nos ombros — como se estivesse sempre preparada para a guerra.

E que guerra deliciosa seria.

Ele se ajeitou na cadeira, mordendo o canto do lábio enquanto ela se aproximava. Pensou nas manchetes que viriam se fossem vistos juntos. "Campeão acusado de homicídio contrata a advogada mais gostosa do país." Ele imaginou o feed do I*******m explodindo. E, por um breve instante, achou que talvez não fosse tão ruim assim ser acusado de assassinato.

— Achei que meu advogado seria um velho careca de terno amarrotado — soltou, com o sorriso torto que usava quando queria provocar. — Mas se for pra ser condenado, que pelo menos seja olhando pra um rosto bonito.

Ela nem piscou.

— Uma pena que beleza não conste nos autos, senhor Lucchesi. Vamos trabalhar com o que realmente importa: sua defesa.

Fria. Rápida. Cortante.

Ele adorava.

Santino se acomodou na cadeira com um meio sorriso. Era claro que ela não estava ali pra brincar. Mas quanto mais ela se mostrava inatingível, mais ele sentia vontade de provocá-la.

— Já começamos mal — rebateu. — Gosto de advogadas com mais tato. Menos… armadas.

— E eu prefiro clientes com menos ego e mais noção de risco jurídico. Mas a gente não pode ter tudo, não é?

A troca foi rápida. Cortante. Uma dança perigosa entre sarcasmo e tensão sexual. O jogo estava armado.

Ela abriu a pasta, começando a falar dos autos do processo com clareza cirúrgica. Mas Santino mal conseguia prestar atenção no início. Estava ocupado demais tentando entender como era possível que alguém conseguisse ser tão bonita e inteligente e irritante ao mesmo tempo.

Imaginou-a sem aquele blazer. Imaginou-a sem os óculos. Imaginou o coque desfeito, os longos cabelos caindo, os olhos semicerrados não por frieza, mas por prazer.

Foco, caralho. Ele sacudiu a cabeça levemente e forçou a atenção de volta para as palavras dela, que agora listava os problemas do caso com objetividade cirúrgica.

— Você é afiada. Gosto disso.

— E eu sou ocupada. Então, vamos ao que interessa.

Ela abriu a pasta e puxou alguns documentos, sem desviar o olhar. Ele a observava como quem analisa um oponente no ringue: atento, calculista… curioso.

— Você leu o relatório da perícia? — ela perguntou.

— Li o resumo que meu empresário me mandou antes de sumir do mapa. Pelo visto, não era só com meu dinheiro que ele fugia, né?

— Não é hora pra sarcasmo, senhor Lucchesi.

— Então é “senhor Lucchesi” agora? Achei que a gente tivesse quebrado essa formalidade quando você me encarou por três segundos a mais na porta.

Ela ergueu os olhos, fria como mármore.

— Eu encaro problemas. Não fantasias de ego masculino inflado.

Ele sorriu, aquele mesmo sorriso perigoso que já estampou dezenas de capas de revista.

— Vai ser divertido trabalhar com você, doutora.

Ela ignorou o comentário e começou a listar os pontos críticos do caso:

— Testemunha ocular afirma que seu carro estava em alta velocidade.

 — Os exames de sangue acusaram álcool no limite permitido — o que, para a imprensa, já é motivo de linchamento.

 — E você tem um histórico de comportamento impulsivo, festas, mulheres, brigas. Isso não ajuda.

— Eu não bebi. Pelo menos, não o suficiente pra perder o controle. E não estava correndo. O carro apareceu do nada.

— Então é sua palavra contra as evidências?

— É minha palavra contra a versão que querem vender. E você foi contratada pra impedir que me transformem em bode expiatório.

Ela inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa.

— Eu fui contratada pra analisar os fatos e montar uma estratégia que funcione. Mas se você continuar se comportando como um garoto mimado de 16 anos, vai ser difícil até te tirar da mídia — quanto mais da cadeia.

Santino a encarou por longos segundos. Havia algo nos olhos dela que desafiava, que o instigava — não era só beleza. Era precisão. Racionalidade afiada. Força disfarçada em elegância.

— Você sempre foi assim? — ele perguntou, mais sério agora.

— Assim como?

— Fria como uma tempestade de gelo.

Júlia não respondeu. Apenas organizou os papéis novamente.

— A entrevista com a promotoria será marcada nos próximos dias. Até lá, você vai manter a boca fechada com jornalistas, entender?

— Entendido, chefe.

— E vai parar com essas respostas infantis.

— Não prometo nada.

Ela se levantou para encerrar a reunião, elegante até no gesto de recolher os papéis.

— Eu volto amanhã. Quero todos os exames e declarações complementares em mãos. E se possível, que você se comporte como um adulto.

— Você acha que eu sou um caso perdido?

— Eu acho que você é um caso mal resolvido.

Santino se recostou, cruzando os braços.

— Você me acha culpado?

— Eu acho que a verdade ainda não foi contada. E até que eu escute tudo, inclusive o que você tenta esconder, ninguém vai me manipular. Nem você.— Ela fez uma pequena pausa e continuou — Estarei de volta amanhã. E espero que tenha dormido melhor. Porque da próxima vez que tentar me distrair com charme barato, vou incluir deboche como agravante no relatório.

Ela virou as costas e caminhou até a porta. Ele a acompanhou com o olhar, quase em transe.

E murmurou, só para si:

— Fodida de linda…

Ela parou por meio segundo. Mas não olhou pra trás.

E ele soube, naquele instante, que estava fodidamente encrencado.

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