Mundo de ficçãoIniciar sessão
A casa era pequena, úmida, e o chão de cimento frio castigava os pés descalços. O ar estava pesado, sufocante. Cheirava a suor velho, álcool barato e cigarro vencido. A televisão chiava com a tela azul, esquecida, e uma garrafa de cachaça tombada pingava sobre o tapete imundo como um relógio macabro marcando o tempo.
Santino acordou com o som de algo sendo arrastado no quarto ao lado. Saiu do colchão fino jogado no chão da sala e caminhou até o corredor, esfregando os olhos. Vestia uma camiseta desbotada com um buraco no ombro e um calção de futebol emprestado, largo demais para seu corpo magro. Seus cabelos estavam desgrenhados, e os olhos, mesmo tão jovens, carregavam um cansaço que não pertencia à infância.
Ao chegar na porta entreaberta, viu a mãe. Ela enfiava roupas às pressas numa bolsa surrada, os cabelos escuros presos de qualquer jeito, o rosto marcado por olheiras e hematomas que tentava esconder com um lenço no pescoço. No colo, o irmão mais novo — ainda um bebê, olhos pesados de sono e bochechas coradas — dormia, alheio ao desespero que tomava o ambiente.
— Mãe? — ele sussurrou, hesitante.
Ela parou. As mãos congelaram por um segundo sobre a bolsa. Mas não se virou.
— Volta pra cama, Toninho.
— Você tá indo embora?
A voz dela tremeu.
— Eu preciso.
— Eu posso ir com você.
Ela o encarou, enfim. E o olhar que Santino recebeu foi um golpe mais forte do que qualquer tapa do pai. Era o olhar de quem já decidiu. De quem está partindo com o coração partido.
— Ele vai me matar — ela disse com os olhos marejados. — Eu não posso mais ficar aqui. Não com o seu irmão.
— Eu sou forte. Eu aguento.
— Não devia ter que aguentar nada disso…
De repente, um barulho brutal ecoou pela casa: um baque, um grunhido, o tilintar de garrafas caindo. O pai havia acordado. E estava furioso.
— Cadê aquela desgraçada?! — a voz rouca e agressiva invadiu o corredor como uma tempestade.
A mãe se apressou. Colocou a bolsa no ombro, apertou o bebê contra o peito e passou correndo por Santino. Ele tentou segurá-la pela blusa, desesperado, mas ela se soltou.
— Me perdoa — disse antes de atravessar a porta dos fundos, sem olhar para trás.
A porta bateu com força. E então o silêncio. Um silêncio que durou menos de três segundos.
Santino não teve tempo de fugir.
O pai surgiu no corredor cambaleante, o rosto amassado, os olhos injetados. O bafo de cachaça era sufocante. Ele o agarrou pela nuca com violência.
— Cadê a sua mãe? — Berrou
— Foi embora — Santino sussurrou
— Sua mãe fugiu por sua culpa, seu merdinha!
O tapa o lançou contra a parede, fazendo o ombro estalar. A dor foi aguda, mas Santino não gritou. Não chorou. Não daria esse gosto.
Caiu no chão e ficou ali, respirando pela boca, tentando ignorar o gosto metálico do sangue que escorria do lábio.
Mais tarde naquela noite, já sozinho, ele arrastou uma cadeira até a geladeira. Pegou um pão seco e uma fatia de mortadela, sentou-se na cozinha escura e comeu em silêncio.
A única luz vinha da rua, filtrada pela persiana quebrada. As mãos sujas, as pernas arranhadas, o maxilar latejando.Ele olhou para os próprios punhos miúdos.
— Um dia, vocês vão fazer mais do que se defender — murmurou para si mesmo.E ali, no fundo da solidão, nasceu a fúria que moldaria Santino Lucchesi.
***
A cozinha da casa dos Milano era um contraste perfeito com a de Santino. Branca, iluminada, com móveis planejados, bancada de granito e aroma de café filtrado. Tudo limpo, organizado… e frio como o homem que ali comandava.
— Dez por cento de trezentos e vinte — disse o pai, de pé ao lado da mesa.
Júlia segurava a caneta azul com os dedos suados. O caderno de matemática estava manchado de borracha, seus cálculos riscados e reescritos inúmeras vezes. A postura rígida, o cabelo preso num rabo de cavalo firme. O pai, General Renato Milano, usava uma camisa branca impecável, calça alinhada e sapatos engraxados — mesmo dentro de casa.
— Trinta… vinte?
Ele não respondeu de imediato. Virou lentamente a folha do jornal e tomou um gole de café.
— Errado. De novo.
Luísa, sentada num canto da cozinha, rabiscava com lápis de cor sobre uma folha de papel. Pequena, observadora. Os olhos dela se moviam entre a irmã e o pai com ansiedade silenciosa.
Júlia apertou os dentes. Corrigiu o cálculo.
— Trinta e dois.O pai assentiu levemente. — Melhore sua postura. Você não está em uma rede de praia.
Ela se endireitou.
Engoliu o incômodo. Engoliu a vontade de dizer que já sabia. Engoliu tudo.Seu olhar se desviou brevemente para o balcão. Sobre ele, uma moldura de madeira com uma foto antiga: Elisa, sua mãe, sorrindo com as duas filhas no colo. A doçura daquele retrato contrastava com a rigidez que dominou a casa depois que ela partiu.
Júlia respirou fundo e apagou a resposta errada.
— Eu posso tentar de novo — murmurou para si mesma.O pai continuou lendo o jornal, como se ela fosse apenas mais uma missão a ser cumprida com eficiência militar.
E ela entendeu, mesmo sem ouvir em voz alta: errar não era uma opção. Fraquejar não era permitido.
Ela teria que ser perfeita. Por ela. Por Luísa. Por Elisa.E naquele instante, algo dentro de Júlia se partiu em silêncio. E se moldou em aço.
Duas infâncias marcadas por extremos.
Santino aprendeu a sobreviver apanhando e resistindo.
Júlia aprendeu a vencer sem poder falhar.Ele fugiu das regras.
Ela se prendeu a elas.Anos depois, seus mundos se chocariam.
Duas forças opostas. Duas almas marcadas por cicatrizes invisíveis.E juntos, descobririam que o maior ringue de todos não é o tribunal nem o octógono.
É o coração.






