Mundo de ficçãoIniciar sessãoO cheiro de sangue, suor e adrenalina era quase uma segunda pele para Santino Lucchesi. Dentro do ringue, ele era um animal treinado — músculos tensos, olhos fixos, mandíbula cerrada. Os socos trocados ecoavam como trovões no ginásio lotado. A multidão aplaudia, urrava, vibrava a cada golpe, mas ele não ouvia nada além da própria respiração ritmada e da pulsação martelando em seus ouvidos.
Ele não lutava por glória. Nem por dinheiro. Lutava para não explodir por dentro.
— Acaba com ele, Lucchesi! — gritou alguém na primeira fileira.
E ele acabou.
O oponente caiu como um saco de areia, o rosto coberto por sangue. O juiz interrompeu. A vitória era dele. Mais uma. E, ainda assim, nada dentro dele se movia. Nenhuma alegria. Nenhum alívio. Nenhuma paz.
Respirava pesado, como um touro enfurecido. A multidão explodiu em aplausos, gritos, nomes, promessas de glória. Mas ele não ouvia nada. Seu corpo estava ali, no centro do ringue, iluminado por holofotes agressivos. Mas a mente já tinha ido embora.
Ele ergueu o braço, por instinto. O campeão invicto. Mais um cinturão. Mais uma luta vencida. Mais um adversário quebrado. Mais um evento que não o tocava em nada.
Dentro dele, tudo ainda era ruído.
A coletiva de imprensa veio em seguida, como sempre. Ele se atrasou. Como sempre.
De óculos escuros e olhar distante, Santino respondeu com frases curtas, secas.
— Treinou pra isso?
— Claro. — Acreditava que venceria por nocaute? — Sempre. — O que você sente ao manter o cinturão? — Nada.Os jornalistas riram sem graça. O assessor de imprensa deu um sorriso tenso. Os patrocinadores aplaudiram mecanicamente. E ele… apenas se levantou, pegou a jaqueta e saiu sem dizer tchau.
Ninguém questionava. Ele era o astro. O bilhete de ouro. A máquina de gerar dinheiro. Podia ser grosso, silencioso, arrogante. Desde que continuasse vencendo.
E ele vencia. Sempre.
Horas depois, a festa no afterclub fervia como um clímax prolongado. O chão pegajoso de bebida e pecado, as luzes pulsando em vermelho e violeta. Santino estava cercado por gente que queria tocá-lo, bajulá-lo, tirar selfies e — principalmente — dormir com ele.
Ele não dizia não.
Um cigarro entre os dedos, uísque puro na outra mão, e duas mulheres dançavam para ele como se fossem gladiadoras modernas disputando sua atenção. Uma delas se chamava Yasmin — ou algo assim. A outra já estava sem a blusa.
Ele riu, com aquele sorriso torto que fazia os paparazzi se derreterem.
— Vocês duas vêm comigo, ou vão brigar pra ver quem aguenta mais?
Elas riram também, bêbadas de desejo e álcool, e o puxaram pela camisa. Ele deixou. Como sempre deixava.
Subiram juntos para a suíte do hotel luxuoso que costumava usar após as lutas. Assim que a porta se fechou, as roupas caíram, os gemidos tomaram o espaço e o sexo virou espetáculo sem intimidade. Era bruto, selvagem, coreografado — mas sem verdade. Nenhuma conexão real. E era isso que ele queria. Só isso que ele conseguia suportar.
Quando terminou, foi para a varanda, ainda nu, acendendo outro cigarro. Suado, arranhado, o corpo não escondia o olhar vazio enquanto encarava a cidade abaixo.
As mulheres riam no quarto, brincavam com a garrafa de champanhe, como se fossem íntimas. Mas ele nem sabia seus sobrenomes. E não fazia questão.
Aquela era sua rotina. Vencer, foder, esquecer.
Só que nada era esquecido de verdade.Mais tarde, já entediado, saiu para dirigir sem rumo. Precisava escapar. Ou afundar de vez.
Pegou o carro mais potente da garagem: um cupê preto de edição limitada. Motor que urrava como fera. Velocidade que desafiava os limites do bom senso.
Colocou um boné para não ser reconhecido. Óculos escuros. Camiseta simples.
Dirigiu pelas avenidas largas da cidade, sem direção. Só acelerava. Música alta, batidas pesadas, pneus cantando nas curvas.
Foi parar num bar decadente da zona norte. Lugar escuro, velho, com cheiro de cigarro velho e cerveja azeda. Sentou-se no balcão. Pediu uísque duplo.
— De novo, campeão? — disse o barman, reconhecendo-o.
Santino não respondeu. Apenas virou o copo.
Na terceira dose, uma mulher sentou ao lado. Morena, de vestido colado, salto alto gasto, olhar afiado. Não perguntou nome. Ele também não.
Beberam juntos. Riram. Trocaram frases rápidas.
— Você é triste pra caralho, sabia? — ela disse, encostando o queixo no ombro dele.
— E você é curiosa demais pra alguém que vai transar comigo num banheiro.
Ela sorriu. E o beijou.
E foi exatamente o que fizeram.
Quase quatro da manhã. Ele voltou ao carro. A cidade dormia. As ruas estavam molhadas pela garoa que insistia em cair sem fazer alarde.
Ligou o motor. Acelerou. A estrada vazia convidava. O ponteiro subia rápido demais.
Ele pensava em tudo.
E em nada. No pai. Na mãe. No irmão. No garoto do reformatório. No campeão que todos diziam admirar, mas que ele desprezava no espelho.Foi então que, em uma curva mal iluminada, o farol cruzou seu caminho.
Branco. Rápido. Inesperado.
Freou. Forte.
Tarde demais.O impacto foi violento. O carro girou duas vezes. A frente do outro veículo ficou destruída. O barulho foi como uma explosão abafada.
O silêncio que veio depois era ensurdecedor.
Ele tentou se mover. A cabeça latejava. Sangue escorria pela sobrancelha. As mãos tremiam.
Olhou para o outro carro. Parado. Amassado. Sem movimento.
Desceu cambaleando. Aproximou-se.
O corpo no banco do motorista estava imóvel.
— Não… não… merda…
Uma sirene ao longe. Um homem gritando:
— É o Santino Lucchesi… caralho… ele matou o cara?
A frase pairou no ar como um veredito antecipado.
Luzes. Flashes. Telefones filmando.
Ele ergueu os olhos. A primeira ambulância chegou.
E a culpa, como um soco no estômago, o atingiu com tudo.
Não era o medo de ser preso.
Era o medo de finalmente ter ido longe demais.No hospital, as primeiras notícias pipocaram nos sites:
“Campeão de boxe envolvido em acidente fatal”
“Testemunha alega que Santino estava em alta velocidade” “Álcool no sangue pode ter contribuído para tragédia”Ele foi medicado. Examinado. Questionado.
O advogado da empresa que cuidava de sua carreira apareceu dizendo que “alguém da equipe cuidaria disso.”
Mas o olhar da enfermeira que trocava seu curativo dizia tudo.
Para o mundo, ele já estava condenado.Sozinho, naquela cama de hospital, com a testa costurada e o peito apertado, Santino pensou na mãe. No irmão que nunca mais viu. No pai morto e enterrado sem honra.
Pensou em todas as mulheres que usou, nas noites que fingiu esquecer.
Na luta que havia vencido. Na vida que havia perdido.E então… estava sozinho.
Só ele. E o monstro no espelho.






