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Capítulo 2 – A Melhor do Estado

O relógio marcava 18h02 quando Júlia Milano encerrou a última videoconferência do dia com um sorriso contido no rosto e um suspiro satisfeito. A sentença havia saído. Absolvição completa. Mais uma vitória impecável em seu histórico como advogada criminalista.

Do outro lado da sala, Miguel Tavares — seu sócio e amigo desde os tempos de faculdade — entrou com duas taças e uma garrafa de vinho tinto chileno que guardava para ocasiões especiais.

— Senhora justiça em pessoa… — disse ele, entregando-lhe a taça. — A melhor do Estado. E você ainda me deixa fingir que mando em alguma coisa por aqui.

Júlia ergueu a taça, sem falsa modéstia.

— Você manda. Nos cafés e nos pedidos de comida.

— E nas piadas ruins. Que são, basicamente, as únicas que você escuta.

— Errado. Eu só escuto piadas ruins quando estou de bom humor. E hoje… — ela ergueu a taça — estou radiante.

Brindaram.

Enquanto o vinho descia macio, Miguel a observava com aquele olhar meio encantado que sempre fingia não ter. Júlia fingia não notar, como sempre. A relação entre eles era sólida, sem espaço para zonas cinzentas. E Júlia era especialista em delimitar territórios.

— Sério, Júlia… se esse cara te pagasse por palavra bem articulada, você já teria comprado aquele triplex em Paris que você vive desejando.

— Eu prefiro um sobrado com quintal e silêncio, obrigada. E talvez um cachorro que não me julgue pelo sarcasmo.

Miguel riu.

— Impossível. Até o cachorro ia se sentir intimidado.

Ela deu de ombros e se recostou na cadeira de couro preto, observando a cidade através da janela envidraçada do 8º andar. O pôr do sol tingia o céu de um laranja tímido. Ali, por alguns segundos, ela deixou o peso escorregar dos ombros.

Mas bastou o silêncio se instalar para que uma lembrança surgisse — intrusa, indesejada, mas sempre à espreita.

Ela tinha nove anos. A mãe estava deitada no hospital, pálida, com os olhos fundos e mãos geladas. Luísa, com apenas três anos, dormia no colo do pai. Júlia segurava um caderno de matemática. Chorava porque não conseguia acertar as contas. Chorava porque sentia que ia perder a mãe. Chorava porque não sabia ser forte.

O pai, rígido, de farda recém-tirada, se ajoelhou ao lado dela.

— Júlia. Errar faz parte. Mas se contentar com o erro… isso sim é fraqueza.

Ela secou as lágrimas com raiva.

— Eu não quero ser fraca.

— Então erga essa cabeça. E tente de novo.

Tentou. Dez vezes. Até acertar tudo.

Na última página do caderno, a letra da mãe, trêmula, tinha deixado uma anotação:

"Ser forte não é não chorar. É continuar mesmo chorando. Estou orgulhosa de você, meu amor."

De volta ao presente, Júlia passou o dedo na borda da taça, como se espantasse a memória. O celular vibrou. Uma mensagem da irmã.

Luísa: “Tá viva, rainha dos tribunais? Vai jantar aqui hoje? Prometo fazer lasanha, não vou implorar, só suplicar.”

Ela sorriu. A irmã mais nova era seu ponto fraco. O pedaço mais vivo da mãe que restara.

Júlia: “Estarei aí em 40 minutos. Bota o vinho pra gelar. E não queima o molho.”

Miguel olhava para ela com curiosidade.

— A pequena?

— A faminta, como sempre. Me obrigando a comer glúten com chantagem emocional.

— Um dia ela ainda te convence a sair com alguém.

— Eu prefiro enfrentar uma junta de promotores armados.

— E é por isso que te admiro tanto. Até seu coração tem advogado de defesa.

Ela riu. Um riso sincero, raro.

Antes de sair, passou pela recepção e viu na tv do hall a manchete com o nome “Santino Lucchesi – Acidente Fatal”, afastou o olhar se despedindo de fernanda enquanto ajustava a bolsa de couro e saia.

Ainda não sabia que aquele nome — Santino Lucchesi — iria virar sua vida do avesso. Mas já sabia, instintivamente, que havia algo de estranho naquela história.

E Júlia sempre soube seguir seus instintos.

A lasanha de Luísa estava quase comível.

— Você colocou manjericão demais — reclamou Júlia, depois de engolir o primeiro pedaço.

— E você colocou críticas demais. Agradece que alguém cozinhou pra você pela primeira vez desde a Páscoa.

— Mentira. No meu aniversário você me fez café da manhã.

— Um café da manhã com pão e manteiga não conta!

— Foi servido na cama.

— Porque eu te amo, sua ingrata. — Luísa fez um biquinho e serviu mais vinho para as duas. — E porque você me sustenta com esse seu império jurídico.

Júlia riu, balançando a cabeça.

Luísa era o oposto dela. Cabelos mais claros, ondulados e soltos, o rosto sempre com um traço de alegria. Onde Júlia era contenção e rigidez, Luísa era riso e leveza. E, ainda assim, Júlia a enxergava como uma criança frágil, mesmo aos 23 anos. Talvez por ter ajudado a criá-la. Talvez por nunca ter se permitido fraquejar diante dela.

— Ei — disse Luísa, apoiando o queixo nas mãos. — Você tá bem?

— Tô. Venci um caso importante hoje. Foi uma boa sentença.

— Eu sei. Eu vi nos sites de notícias. Tava “trending”.

— Não acredito que você usa a palavra “trending” em voz alta.

— Eu sou jovem e conectada, doutora Júlia. Você é só bonita e bem-sucedida.

— Modéstia nunca foi o forte da família.

— Nem dos homens que você não namora.

Júlia arqueou uma sobrancelha.

— Vai começar?

— Eu só acho estranho você nunca nem flertar com ninguém. Você precisa de… sei lá… faísca, sabe?

— Eu já tenho o suficiente de faísca nos tribunais, obrigada.

— Jura que vai passar a vida toda de salto e toga?

— Se o salto for Louboutin, não vejo problema.

Luísa gargalhou, mas seus olhos diziam outra coisa. Júlia desviou o olhar. O celular começou a vibrar em cima da bancada.

Ela pegou o aparelho e leu o identificador da chamada. Henrique Duarte, o advogado sênior responsável por repassar os casos de maior complexidade ao escritório. Um nome que só aparecia quando havia algo grande — ou problemático — envolvido.

— Alô?

— Júlia, boa noite. Desculpa ligar a essa hora.

— Aconteceu alguma coisa?

— A gente recebeu uma procuração agora à noite. Um novo cliente. Um caso de homicídio em potencial.

Júlia se levantou da cadeira, andando em direção à janela da cozinha. O coração já mais alerta, como sempre ficava quando havia sangue envolvido.

— Quem é o cliente?

— Santino Lucchesi.

Silêncio.

Luísa olhava para ela com curiosidade, mastigando devagar.

— O lutador? A estrela da mídia?

— Esse mesmo. Aparentemente se envolveu num acidente fatal ontem de madrugada. Testemunhas, imagens, versões conflitantes... e muito barulho na imprensa. Estão dizendo que ele tava bêbado. Mas ele nega. E quer alguém de peso pra cuidar disso.

Júlia apertou os olhos, o nome martelando em sua mente.

Lucchesi.

Tinha ouvido o nome várias vezes. Campeão invicto. Bilionário da mídia. Rostinho bonito em pôster de academia. E, agora, acusado de matar alguém.

— Quer que eu avalie o caso amanhã? — ela perguntou.

— Eu quero que você assuma o caso amanhã. Ele quer o melhor. Alguém implacável. E eu disse que ele teria a melhor.

Júlia fechou os olhos por um segundo. A mente já começava a trabalhar: ângulos, estratégias, riscos. Mas havia algo mais. Uma inquietação que ela não soube nomear.

— Manda o material todo pro meu e-mail. Amanhã, às oito, quero os autos na minha mesa.

— Perfeito.

Desligou.

Luísa arqueou as sobrancelhas, ainda com a taça nas mãos.

— Problemas?

— Só um novo cliente.

— De verdade?

— De verdade.

— Grande?

— Gigante.

— Famoso?

— Sim. — Júlia suspirou e terminou o vinho num só gole. — E isso vai ser um problema.

Luísa sorriu com aquele olhar conspiratório.

— Eu conheço?

— Provavelmente. — Júlia ponderou um minuto. — Santino Lucchesi.

Luísa arregalou os olhos com a boca cheia de lasanha.

— O lutador muito gato? —Luísa perguntou com a boca cheia.

Júlia bufou. Mas o nome ainda ecoava em sua cabeça.

Santino Lucchesi.

Na manhã seguinte, ela descobriria que aquilo não era apenas mais um caso.

Era o início da colisão mais perigosa da sua vida.

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