Mundo ficciónIniciar sesiónEu era a presa. Ele, o predador. Mas para salvar uma criança, eu aceitei viver no meu próprio inferno. Aos dezoito anos, Antonella não conhecia o amor, apenas o peso da mão de sua mãe e o olhar asqueroso de seu padrasto. Quando o cerco se fechou, ela fugiu. Sem dinheiro, sem destino, apenas com o corpo trêmulo e a alma em pedaços. Seu único porto seguro? O Vale das Sombras. O dono da mansão é Lorenzo Cavalcanti. Um bilionário implacável, dono de uma beleza sombria e um coração de granito. Ele não queria uma governanta; ele queria alguém que suportasse o silêncio de sua filha, Lara, uma criança que parou de falar quando o mundo ao seu redor desmoronou. Lorenzo foi claro: "Não me interrompa. Não suba as escadas. E, acima de tudo, não tente me decifrar." Ele é rude. Ele é arrogante. Ele a trata como uma serva invisível. Mas o que o "Ogro do Vale" não contava era com a resiliência de Antonella. Enquanto ela conquista a confiança da pequena Lara, desperta em Lorenzo um desejo possessivo e perigoso que ele tentou enterrar por anos. Mas há um problema: o passado de Antonella tem sede de sangue, e o monstro que a fez fugir está cada vez mais perto de encontrá-la. Poderá Lorenzo Cavalcanti ser a salvação dela, ou ele é apenas um tipo diferente de carrasco?
Leer másO dia pesava sobre meus ombros como uma armadura de chumbo. Cada vibração do celular no bolso do meu avental era como um choque elétrico. Getúlio estava perto. Eu sentia o cheiro do medo impregnado na minha pele, e nem o sabonete caro da mansão conseguia tirar.Lorenzo passou a manhã no escritório, mas sua presença era onipresente. Sempre que eu cruzava o corredor com Lara, seus olhos me seguiam, gélidos e analíticos.— Antonella — chamou ele, a voz baixa e profunda, sem tirar os olhos do laptop.Parei imediatamente.— Sim, senhor Lorenzo?Ele se levantou lentamente, caminhando até mim com uma elegância que me intimidava. Ele parou a uma distância segura, mas sua aura parecia ocupar todo o espaço.— Sua eficiência caiu drasticamente nas últimas horas. Você está pálida, suas mãos tremem e você olha para as janelas como se esperasse uma invasão. — Ele arqueou uma sobrancelha, o olhar descendo pelo meu rosto. — Gostaria de me explicar o que está acontecendo? Ou devo assumir que minha nov
O celular novo que Lorenzo me deu repousava sobre a mesa de cabeceira. Era um aparelho caro, moderno, muito diferente do tijolinho velho que eu tive uma vez na vida. Lorenzo disse que era apenas para "emergências e ordens", mas para mim, era um símbolo de que eu existia para o mundo de novo.O erro foi o chip. Eu precisava de um número, e ao cadastrar meu CPF para ativá-lo, eu acabei deixando uma migalha de pão no rastro de um lobo faminto.— Antonella! — O grito de Lorenzo veio do hall, carregado de uma impaciência que me fez pular da cama.Desci as escadas correndo. Eu usava uma das roupas novas, mas ele nem parecia notar — ou fingia muito bem. Lorenzo estava com o cenho franzido, vestindo um robe de seda escura, com um copo de uísque na mão às dez da manhã.— Onde está o relatório da dieta da Lara? Eu pedi que anotasse tudo o que ela comeu ontem no shopping! — ele rugiu, a voz ecoando pelas paredes de mármore.— Eu... eu deixei na bancada da cozinha, senhor — respondi, confusa. Eu
A manhã seguinte ao incidente do anel foi estranha. Lorenzo não mencionou mais o assunto, mas o café da manhã não foi silencioso. Lara, que agora parecia ter recuperado a voz apenas para mim, puxou a manga do terno de Lorenzo.— Papai... quero ir ao shopping. Quero sorvete. — Ela fez uma pausa, olhando para mim com expectativa. — Mas a Anto tem que ir junto. Só vou se ela for.Lorenzo parou a xícara de café no ar. Ele me olhou de cima a baixo, avaliando meu uniforme simples e o cabelo preso.— Ela tem trabalho a fazer, Lara — ele respondeu, a voz mantendo aquela rigidez habitual.— Por favor, papai! — Lara insistiu, algo que ela nunca fazia.Lorenzo suspirou, derrotado pela primeira vez pela filha. Ele se levantou, limpando os cantos da boca com o guardanapo de linho.— Dez minutos, Antonella. Troque esse uniforme. Não vou desfilar por aí com você parecendo uma serva. É humilhante para o meu nome.Engoli o sapo seco. Ele não conseguia ser gentil nem quando estava cedendo. Corri para o
O silêncio que se seguiu ao grito de Lorenzo foi pior do que qualquer agressão física que já sofri. Entrei no meu quarto, bati a porta e desabei. O mundo lá fora parecia ter desmoronado. Eu tinha sido honesta, tinha cuidado da Lara com todo o meu coração, e agora eu era apenas "a ladra da sarjeta".Ouvi os passos pesados dele no corredor. A porta não se abriu, mas a voz dele atravessou a madeira, fria e sem vida.— Você tem até o amanhecer para sumir da minha propriedade, Antonella. Eu não tolero desonestidade sob o meu teto. Suas coisas estarão na porta às seis da manhã.— Lorenzo, eu juro... — tentei gritar, mas minha voz morreu num soluço.Não houve resposta. Apenas o som dos passos dele se afastando.Passei as horas seguintes em transe. Peguei a mochila que Gabriel e Clara tinham me dado e comecei a dobrar as poucas roupas. Cada peça que eu guardava parecia pesar uma tonelada. Eu ia voltar para o frio. Ia voltar para o medo. O "Vale das Sombras" tinha sido meu único sonho, e agora
A noite anterior ainda queimava na minha memória. O toque do polegar de Lorenzo na minha pele e a forma como ele me olhou na cozinha não saíam da minha cabeça. Eu mal conseguia encará-lo durante o café da manhã, mas Lorenzo agia como se nada tivesse acontecido, escondido atrás de seu jornal e de sua carranca habitual.— Vou para a capital. Volto tarde — ele disse, levantando-se sem olhar para mim. — Cuide da Lara. E não abra o portão para ninguém.Mas Lorenzo mal havia saído quando o interfone tocou insistentemente. Era Paola. Ela não estava sozinha; trazia consigo dois seguranças e uma expressão de triunfo. Como ela ainda tinha o código de acesso da garagem, não pude impedi-la de entrar na sala principal.— Onde está o Lorenzo? — ela perguntou, invadindo a casa como se ainda fosse a dona.— Ele saiu. E pediu para que a senhora não entrasse — respondi, tentando manter a voz firme enquanto Lara se escondia atrás das minhas pernas.— "A senhora"? Quanta audácia para uma serva — Paola si
O dia amanheceu diferente. Sem a presença sufocante da ex-namorada de Lorenzo, a mansão parecia respirar. Lorenzo saiu cedo, como sempre, deixando um rastro de silêncio e ordens ríspidas, mas eu decidi que Lara não passaria mais um dia trancada naquele "museu" de vidro.— Vamos fazer uma cabana? — perguntei, abrindo um sorriso cúmplice para ela.Lara inclinou a cabeça, curiosa. Em poucas horas, o quarto impecável de tapetes caros estava transformado. Usei lençóis de linho egípcio, prendi as pontas em poltronas pesadas e espalhei todas as almofadas que encontrei. Trouxe lanternas, biscoitos que eu mesma assei e livros de contos de fadas.Pela primeira vez, ouvi a risada de Lara. Não era um som alto, mas era cristalino, como o degelo de uma montanha. Brincamos de esconde-esconde nos corredores proibidos, correndo com as meias deslizando no mármore. Eu fazia cócegas nela, e Lara, em troca, tentava "pintar" meu rosto com um batom velho que ela achou.Eu me sentia jovem. Eu não era a vítim
Último capítulo