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Refúgio nas sombras
Refúgio nas sombras
Por: Raven Black
CAPÍTULO 1: O PREÇO DE EXISTIR

O relógio de parede na cozinha marcava meia-noite. Para qualquer jovem de dezoito anos, aquele seria o início da liberdade. Para mim, era apenas o começo de mais um turno de silêncio e dor.

— Feliz aniversário para mim — sussurrei, a voz mal saindo pela garganta seca, enquanto minhas mãos, inchadas pelo contato constante com a água sanitária, esfregavam a última panela do jantar que eu não tive permissão de comer.

Eu havia acabado de completar dezoito anos, mas me sentia com oitenta.

— Antonella! — O grito de Beatriz, minha mãe, cortou a casa como um chicote.

Sequei as mãos rapidamente no pano de prato encardido e caminhei até a sala, mantendo os olhos fixos nos meus pés descalços. Eu usava uma calça de moletom larga e uma camiseta masculina rasgada que pertencia ao meu padrasto, Getúlio. Era o meu uniforme de sobrevivência. Se eu usasse qualquer coisa que marcasse meu corpo, Beatriz dizia que eu estava "caçando" o marido dela. Se eu sorrisse, era porque estava sendo "oferecida".

— Por que essa demora, sua imprestável? — Beatriz estava parada no meio da sala, um copo de vinho na mão e o rosto retorcido pelo desprezo. Ela era linda, sempre bem vestida, mas por dentro era feita de vidro quebrado.

— Eu estava terminando a louça, mãe...

— "Mãe" não! Já te disse que não sou sua mãe, sou a mulher que teve o azar de te carregar. Olhe para você... um estorvo.

Ela se aproximou e, sem aviso, apertou meu rosto com força, cravando as unhas na minha bochecha.

— Dezoito anos, Antonella. Agora a lei diz que você é mulher. Mas nesta casa, você continua sendo o nada. Se eu vir você respirando perto do Getúlio, se eu vir você olhando para ele, eu juro que te quebro cada osso desse corpo jovem que você acha que tem. Entendeu?

— Sim... — uma lágrima solitária escorreu, e ela a limpou com um tapa estalado no meu rosto.

— Vá para o seu quarto. E amanhã quero a casa impecável antes das seis. Se o bebê acordar com o seu barulho, você vai se arrepender de ter nascido.

Eu saí dali quase correndo, mas parei abruptamente no corredor. Getúlio estava encostado no batente da porta, bloqueando o caminho para o meu "quarto" — um quartinho de despejo sem janelas nos fundos.

Ele não disse nada. Apenas ficou ali, com aquele cheiro de cerveja e suor, me medindo de cima a baixo com um olhar que me dava náuseas. Ele era um homem rude, de mãos pesadas e olhos pequenos que pareciam sempre estar despindo o que restava da minha dignidade.

— Dezoito, hein, Nell? — ele murmurou, a voz rouca enviando um calafrio de puro pavor pela minha espinha. — Agora é uma moça formada.

Tentei passar por ele, mas ele não se moveu. O braço dele roçou propositalmente no meu peito, e eu prendi a respiração, sentindo o mundo girar.

— Com licença... — murmurei, a voz trêmula.

— Toda a licença do mundo, boneca. Aproveita o seu dia. O presente ainda está guardado comigo.

Entrei no meu quarto e tranquei a porta com o trinco frágil, desabando no colchão fino no chão. Meu estômago roncou, uma dor aguda de quem não comia nada sólido há mais de vinte e quatro horas. Eu tinha que pedir permissão até para beber água.

Eu não tinha dinheiro. Não tinha amigos. Meu pai biológico era apenas um borrão de uma história que Beatriz contava para me humilhar. Minha família era composta por uma mulher que me odiava e um homem que me desejava de um jeito doentio.

Eu olhei para a mochila velha escondida debaixo do colchão. Tinha apenas uma troca de roupa e o RG que eu havia conseguido esconder.

"Eu vou morrer aqui", pensei, enquanto o som da chuva começava a bater no telhado. "Ou eu morro, ou eu fujo."

Às cinco da manhã, o choro estridente de Enzo rasgou o silêncio da casa. Eu não precisei de despertador; meu corpo já estava em alerta, condicionado pelo medo do que aconteceria se o choro acordasse Getúlio ou Beatriz.

Levantei do colchão frio, meus ossos estalando, e corri para o quarto do bebê.

Enzo tinha apenas dez meses. Ele era gordinho, cheirava a talco e usava as roupas mais caras que o dinheiro de Getúlio podia comprar. Quando o peguei no colo, ele parou de chorar quase instantaneamente, agarrando meu dedo com sua mãozinha pequena.

— Oi, pequeno... — sussurrei, sentindo uma pontada de tristeza.

Eu não conseguia odiar Enzo. Ele era o único naquela casa que me olhava sem julgamento. Mas era doloroso ver o berço de carvalho, os brinquedos importados e a decoração impecável do quarto dele, enquanto o meu "quarto" cheirava a mofo e guardava as sobras da casa.

Preparei a mamadeira na temperatura exata — se estivesse um grau acima, Beatriz diria que eu queria queimar o filho dela. Enquanto o alimentava, ouvi a porta do quarto principal se abrir.

Beatriz entrou usando um robe de seda, o rosto relaxado pelo sono. O olhar que ela lançou para o berço era de adoração pura. Mas, quando seus olhos pousaram em mim, as chamas do ódio voltaram.

— Já trocou a fralda dele? — ela perguntou, a voz baixa para não assustar o "príncipe".

— Vou trocar agora, mãe.

— Não me chame assim na frente dele. Não quero que ele cresça achando que tem qualquer ligação de sangue com alguém como você.

Aquelas palavras doeram mais que o tapa da noite anterior. Eu era a babá, a empregada, a sombra. Para Enzo, eu era o conforto; para Beatriz, eu era a mancha no currículo perfeito da família dela.

— Ele precisa de banho — Beatriz continuou, sentando-se na poltrona de amamentação e estendendo os braços para o filho. — E depois que você der o banho, quero o café do Getúlio na mesa. Ele gosta do ovo com a gema mole, Antonella. Se errar de novo, você vai ficar sem o seu almoço hoje. De novo.

Entreguei o bebê a ela. Vi como ela o beijava e o cheirava, como se ele fosse a coisa mais preciosa do universo. Meus olhos arderam. Eu também tinha sido um bebê um dia. Alguém já tinha me olhado assim?

— O que está olhando? — ela sibilou, percebendo meu olhar. — Vá trabalhar!

Passei o restante da manhã como um fantasma. Limpei o rastro de sujeira que Getúlio deixava, lavei as roupas de marca deles enquanto as minhas secavam no corpo porque eu não tinha outras.

O pior momento era o café da manhã. Eu servia a mesa farta — pães frescos, frutas, frios, café quente — mas meu lugar era em pé, encostada na pia, esperando eles terminarem para que eu pudesse, talvez, comer as sobras das crostas de pão.

Getúlio apareceu na cozinha sem camisa, a barriga saliente sobre a calça de pijama. Ele sentou-se à mesa e Beatriz o serviu como se ele fosse um rei.

— A menina limpou o meu carro? — Getúlio perguntou, a boca cheia de pão.

— Vai limpar agora, querido — Beatriz respondeu, lançando-me um olhar mortal. — Antonella, vá para a garagem. Agora.

— Mas eu ainda não tomei nem um copo de água... — arrisquei dizer, a voz falhando pela fraqueza.

Getúlio deu uma risada curta, seus olhos percorrendo minhas pernas cobertas pelo moletom largo.

— Está ficando respondona, Beatriz? Devia dar uma lição nela. Quem sabe assim ela aprende a ser mais... agradecida.

O jeito que ele disse "agradecida" me deu calafrios. Saí da cozinha antes que Beatriz pudesse levantar a mão. Na garagem, balde em punho, eu esfregava o carro preto brilhante enquanto as lágrimas finalmente caíam, misturando-se à água com sabão.

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