Início / Romance / Refúgio nas sombras / CAPÍTULO 5: O ÚLTIMO ATO DE BONDADE
CAPÍTULO 5: O ÚLTIMO ATO DE BONDADE

Meus pulmões ardiam como se eu tivesse engolido brasas. Cada vez que meus tênis velhos batiam no asfalto molhado, um estalo de dor subia pelas minhas pernas, mas eu não parava. O pavor de sentir o hálito de álcool do Getúlio e suas mãos pesadas em mim novamente era o combustível que me mantinha correndo sob a chuva torrencial.

Eu já estava a três quadras de distância, com o coração martelando contra as costelas, quando o som de um motor cortou o barulho da tempestade. O pânico me paralisou. Seria ele? Ele pegou o carro para me caçar como um animal?

Me encolhi contra um muro de chapisco, tentando me fundir às sombras, com os dedos cravados na alça da minha mochila encharcada. Quando o carro parou e o feixe de luz dos faróis me atingiu, eu fechei os olhos, esperando o pior.

— Antonella! — O grito não era de Getúlio. Era a voz doce da Clara.

O carro era o de Gabriel. Eles frearam bruscamente no meio da rua e os dois desceram correndo, ignorando a chuva que os ensopava em segundos. Clara me envolveu em um abraço apertado, e naquele momento, a barreira que eu ergui para não desmoronar ruiu. Eu solucei, sentindo meu corpo tremer de forma incontrolável.

— A gente ouviu os gritos... — Gabriel disse, a voz oscilando entre a preocupação e a raiva pura. — Estávamos saindo para procurar você. O que aquele monstro fez?

— Ele tentou... eu fugi... eu não posso voltar, Gabriel. Ela vai me matar, ou ele vai terminar o que começou... — As palavras se perderam no meu choro.

Clara olhou para minha mochila pequena, que guardava apenas o que restou da minha dignidade. Ela sabia que eu não tinha nada. Nem dinheiro, nem teto, nem esperança.

— Você não vai voltar. Nunca mais — ela afirmou, com uma determinação que eu nunca tive.

Gabriel correu até o porta-malas e pegou uma mochila de academia pesada.

— Pega isso, Nell. São algumas roupas minhas e da Clara que estavam aqui. Tem um casaco de frio grosso e um par de tênis que eu ia doar, mas estão novos. Vai te servir.

Clara abriu a carteira com pressa, as mãos ágeis sob a chuva.

— Antonella, me escuta bem. Eu não tenho muito, mas pegue isso. — Ela pressionou algumas notas de cinquenta reais e um cartão de transporte contra a minha palma. — Vá para a rodoviária agora. Pegue o ônibus mais longe que esse dinheiro puder pagar. Saia dessa cidade antes que o sol nasça.

— Eu não posso aceitar... eu nunca vou conseguir pagar vocês — eu balbuciei, as lágrimas quentes se misturando à água gélida do céu.

— Você paga sendo feliz — Gabriel disse, segurando meus ombros com firmeza, me obrigando a olhá-lo. — Agora vá. Se ficarmos aqui parados, eles podem aparecer. Se cuida, pequena.

Eles me deram um último abraço que cheirava a coragem. Aquele calor humano foi o que me deu forças para não desabar no asfalto. Entrei em um beco escuro enquanto eles partiam, e ali mesmo, protegida por uma marquise velha, troquei meu moletom encharcado pelo casaco seco e pesado que eles me deram. O cheiro de roupa limpa e amaciante foi como um bálsamo; quase me fez acreditar que eu ainda pertencia ao mundo dos vivos.

Caminhei por quase uma hora até a rodoviária central. Era um lugar lúgubre, cheio de luzes de neon piscando e pessoas com olhares vazios. Meus olhos varreram o mural de anúncios, procurando um sinal, qualquer direção.

Foi então que vi. Um recorte de jornal, meio torto, colado com fita adesiva amarelada:

"PROCURA-SE: Governanta para residência particular. Exige-se discrição absoluta, organização impecável e disponibilidade imediata para morar no local. Paga-se bem. Local: Propriedade Cavalcanti - Vale das Sombras."

"Vale das Sombras". O nome era sinistro, mas a palavra "morar" brilhou diante de mim como um farol. Eu só precisava de um teto, de uma tranca e de um lugar onde Getúlio jamais me encontraria.

Com o dinheiro de Clara, comprei a passagem. Sentei no banco duro do ônibus, abraçando a mochila de roupas como se fosse um escudo. Quando o motor rugiu e as luzes da minha antiga vida começaram a desaparecer na neblina, olhei para o meu reflexo no vidro embaçado.

Eu estava pálida, com a marca arroxeada do tapa da minha mãe estampada no rosto, mas meus olhos... meus olhos não eram mais de uma vítima. Eu estava indo para a casa de um desconhecido. Estava caminhando em direção ao vazio.

Mas nada, absolutamente nada, poderia ser mais terrível do que o inferno de onde eu acabara de escapar. Eu só não sabia que o homem que me esperava do outro lado daquele portão de ferro não seria meu salvador, mas o desafio final que testaria cada grama da minha sanidade.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App