Mundo de ficçãoIniciar sessãoO domingo amanheceu com um céu azul que parecia zombar da minha situação. Eu estava na lavanderia, pendurando os lençóis de linho que Beatriz exigia que fossem lavados à mão, quando vi a Clara novamente. Ela estava no jardim da casa ao lado, sentada em uma rede, rindo com um rapaz.
Uma onda de coragem, ou talvez de puro desespero por contato humano, subiu pelo meu peito. Eu precisava de um minuto. Só um. Caminhei até o muro baixo que separava as propriedades. Minhas mãos tremiam. — Oi... Clara? — chamei, a voz saindo rouca pelo desuso. A menina se virou, surpresa. Ela sorriu para mim, um sorriso que parecia uma luz em um túnel escuro. — Oi! Você é a menina que mora aí, né? Eu nunca te vejo na rua... — É, eu... eu fico muito ocupada. — Tentei ajeitar o cabelo sujo de suor. — Eu só queria saber se... se um dia a gente podia... — Antonella! — O grito de Beatriz veio da janela da cozinha como um tiro. Eu me encolhi instantaneamente. Vi o sorriso da Clara desaparecer, substituído por uma expressão de confusão e pena. Olhei para trás e vi minha mãe vindo em minha direção, os passos rápidos e furiosos. — O que você pensa que está fazendo, sua idiota? — Beatriz sibilou, segurando meu braço com tanta força que senti suas unhas atravessarem o tecido. — Eu já te disse que não quero você se esfregando nos vizinhos! Quer que todos saibam que eu tenho uma mendiga dentro de casa? — Eu só estava dizendo oi, mãe... Beatriz não esperou. Ela me deu um puxão, me arrastando para longe do muro enquanto gritava para a Clara, que assistia a tudo chocada: — Desculpe, querida! Ela tem problemas mentais, às vezes foge do controle! Entramos na casa e o impacto das costas da minha mão contra a porta da cozinha doeu menos do que a vergonha. — Nunca mais encoste naquele muro. Entendeu? — Beatriz rosnou. — Agora limpe esse rosto. Getúlio e eu vamos sair para almoçar com o Enzo no Grand Palace. É um restaurante cinco estrelas. Meu coração deu um salto. O Grand Palace era o lugar mais luxuoso da cidade. Eu já tinha visto as fotos nas revistas que Beatriz deixava jogadas. — Eu vou... eu vou com vocês para segurar o Enzo enquanto vocês comem? — perguntei, a esperança brotando como uma erva daninha que se recusa a morrer. — Eu prometo que fico no meu canto. Eu não peço nada para comer, eu juro. Só me deixe ir... eu quero ver as luzes, eu quero ver as pessoas... Beatriz parou e me olhou de cima a baixo. Um sorriso lento e cruel surgiu em seus lábios. — Olhe para você, Antonella. Olhe para as suas unhas encardidas de sabão. Olhe para esse cabelo opaco. Você acha que eu vou te levar a um lugar onde as pessoas têm classe? Você é a nossa vergonha. Você vai ficar aqui, e vai aproveitar que a casa está vazia para limpar todos os rodapés com uma escova de dentes. Getúlio apareceu no corredor, vestindo um terno caro. Ele me olhou com aquele brilho nojento nos olhos. — Deixe a menina, Beatriz. Quem sabe se ela limpar tudo bem limpinho, eu não traga uma quentinha com os restos do meu filet mignon para ela? Eles riram. Beatriz pegou a bolsa de grife, ajeitou o bebê Enzo — que usava um sapatinho de couro que custava mais do que eu jamais teria — e saíram. O som da porta batendo e o carro se afastando deixou um vácuo de silêncio que pesava toneladas. Eu caminhei até a mesa da sala de jantar, onde havia um arranjo de flores frescas que eu mesma tive que arrumar. Peguei um dos pratos de porcelana fina que estava no aparador e imaginei, por um segundo, que eu estava sentada ali, sendo servida, sendo amada. Mas o reflexo no prato me mostrou apenas uma garota de dezoito anos com olheiras profundas e braços marcados pela servidão. Passei a tarde de joelhos, limpando os rodapés como uma prisioneira. Eu não tinha comido nada desde a noite anterior. Minha barriga roncava tanto que chegava a doer, mas a fome de alma era maior. Eu estava sozinha. Sempre estive. E enquanto eu esfregava o chão com a escova de dentes, as lágrimas molhavam a madeira, e eu percebi que a única diferença entre mim e um animal de carga era que o animal recebia comida sem precisar implorar. A noite caiu, e com ela, o barulho do carro voltando. Eles chegaram rindo, exalando cheiro de vinho caro e comida boa. Getúlio passou por mim e jogou um guardanapo de papel sujo na minha direção. — O garçom jogou fora antes que eu pudesse pegar os restos, Nell. Fica para a próxima. Beatriz me olhou com cansaço. — O Enzo vomitou um pouco no carro. Vá limpar. Agora. Eu peguei o balde. Eu não respondi. Eu não chorei. Naquele momento, algo dentro de mim, aquela última chama de esperança de que eles um dia me amariam, simplesmente apagou. E foi no meio daquele cheiro de vômito e desprezo que eu decidi que, se eu ficasse ali, eu não passaria do próximo mês.






