Inicio / Romance / Refúgio nas sombras / CAPÍTULO 4: UM SOPRO DE LIBERDADE E O ABISMO
CAPÍTULO 4: UM SOPRO DE LIBERDADE E O ABISMO

O sol da tarde de segunda-feira ardia nas minhas costas enquanto eu limpava os vidros da fachada. Meus braços pesavam, mas eu mantinha a cabeça baixa. Foi quando ouvi um assobio baixo.

— Ei! Psiu! — Era a Clara. Ela estava no portão, ao lado do rapaz que eu vi antes. — Meu nome é Clara, e esse é o meu irmão, o Gabriel. A gente viu o que aconteceu ontem... você está bem?

Olhei para os lados, meu coração disparando. Beatriz e Getúlio estavam lá dentro.

— Eu... eu não posso falar. Minha mãe não deixa.

— Aquilo não é jeito de tratar ninguém — disse Gabriel, com uma voz gentil que me fez querer chorar. — Você trabalha o dia todo?

— Sim. Cuido do meu irmãozinho, limpo tudo... eles saem e eu fico. Ontem eles foram ao restaurante francês e eu tive que limpar os rodapés com escova de dentes — confessei, a voz saindo em um sussurro vergonhoso.

Clara arregalou os olhos, horrorizada.

— Isso é escravidão, garota! Você tem dezoito anos, devia estar na escola, saindo...

Antes que eu pudesse responder, a porta da frente se abriu. Beatriz saiu, seguida por Getúlio que carregava o Enzo. Eles estavam arrumados, exalando perfume.

— Vamos para o shopping, Getúlio. Preciso de sapatos novos e o Enzo precisa de brinquedos — disse Beatriz, ignorando minha presença até ver Clara e Gabriel no portão.

Ela fechou o rosto imediatamente.

— Antonella, para dentro! Agora!

— Calma, Beatriz — Getúlio interveio, com um sorriso estranho que me deu calafrios. — A casa já está limpa, não está? Deixe a menina respirar um pouco na calçada enquanto saímos. Hoje estou de bom humor.

Beatriz bufou, mas não o contrariou. Ela jogou uma nota de dez reais no chão, aos meus pés.

— Compre um salgado na padaria da esquina se estiver com tanta fome. Estaremos de volta em duas horas. Se eu encontrar um grão de poeira quando voltar, você vai se arrepender.

Eles entraram no carro e saíram. Pela primeira vez na vida, eu senti o peso da chave no meu bolso e o portão aberto.

Passei as duas horas mais felizes da minha vida. Fiquei na calçada com Clara e Gabriel. Eles dividiram um lanche comigo, me contaram sobre a faculdade e riram de piadas que eu não entendia, mas que me faziam sentir humana. Pela primeira vez, eu não era a "imprestável", eu era apenas a Antonella.

— Você precisa sair de lá — Gabriel disse, segurando minha mão por um segundo. — Se precisar de ajuda, a gente...

O som do motor do carro de Getúlio cortou o momento como uma serra elétrica. O carro freou bruscamente na frente de casa. Beatriz saiu antes mesmo de o motor parar. O rosto dela estava vermelho de ódio.

— O QUE É ISSO? — ela berrou, avançando em minha direção. — Eu te dou um minuto de liberdade e você já está se esfregando em estranhos na calçada? Vagabunda! Igualzinha ao seu pai!

Ela me acertou um tapa tão forte que minha visão escureceu por um segundo. Clara e Gabriel tentaram intervir, mas Getúlio saiu do carro, imenso e ameaçador.

— Sumam daqui se não quiserem confusão! — ele rugiu.

Eles foram empurrados para dentro de casa. Beatriz me arrastou pelos cabelos até a cozinha, me xingando de nomes que eu nem sabia o significado.

— Você vai aprender a me respeitar! — Ela me deu um soco no braço e outro tapa. — Vai ficar sem comer por dois dias! E agora, vai lavar a garagem, que o Getúlio disse que está imunda!

— Mas eu já limpei... — tentei dizer entre soluços.

— ENTÃO LIMPE DE NOVO!

A noite caiu fria e pesada. Beatriz, exausta de tanto gritar, decidiu sair sozinha para "espairecer" na casa de uma amiga, deixando o bebê sob minha responsabilidade.

— Cuide do seu irmão. Se ele chorar, eu te mato quando voltar — ela avisou, batendo a porta.

Eu estava no quarto do Enzo, balançando o berço suavemente, quando ouvi a porta se abrir. Não era a Beatriz. Era Getúlio.

Ele não deveria estar em casa; tinha dito que ia para o bar. Ele estava cambaleando levemente, o cheiro de álcool impregnando o ar.

— A mamãe saiu, Nell... — ele sussurrou, fechando a porta do quarto do bebê atrás de si. — Ficamos só nós dois.

— O senhor... o senhor deveria estar dormindo, Getúlio — eu disse, meu coração batendo tão forte que eu achei que ia desmaiar.

— Eu prometi um presente de dezoito anos, lembra? — Ele se aproximou, os olhos vidrados. — Sua mãe não sabe te dar valor, mas eu sei. Você é tão linda, Antonella... tão jovem...

Quando ele avançou e segurou minha cintura, apertando-me contra ele, o pânico explodiu em minhas veias.

— Me solta! — gritei, empurrando-o com todas as minhas forças.

Ele tropeçou, surpreso pela minha reação, e bateu as costas na cômoda. Aproveitei o segundo de distração, corri para o meu quartinho, peguei a mochila que já estava pronta debaixo do colchão e saí pela porta dos fundos.

Eu não olhei para trás. Corri pelo quintal, pulei o muro baixo lateral e saí na rua escura. A chuva começou a cair, grossa e gelada, lavando as lágrimas no meu rosto. Eu não tinha dinheiro, não tinha destino, e as roupas no meu corpo estavam ensopadas.

Mas, pela primeira vez na vida, enquanto eu corria desesperadamente para longe daquela luz da varanda, eu estava livre. Mesmo que o mundo lá fora fosse um deserto, era melhor do que o inferno que eu deixava para trás.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP