Mundo de ficçãoIniciar sessãoO quarto que Lorenzo me destinou era pequeno, mas para mim, parecia uma suíte de luxo. Tinha uma cama com lençóis brancos e esticados, um armário de madeira escura e uma janela que dava para os fundos da propriedade, onde a floresta parecia observar a casa em silêncio.
Mas eu não tive tempo para admirar. As palavras de Lorenzo — “Tente não parecer um cadáver” — ecoavam na minha mente. Tomei o banho mais rápido da minha vida, lavando não só a sujeira da viagem, mas o resto do medo que Getúlio tinha deixado na minha pele. No armário, encontrei o uniforme: um vestido preto de corte impecável e um avental branco imaculado. Vesti-me e olhei para o espelho. A marca do tapa no meu rosto estava ficando amarelada, mas ainda era visível. Eu não era mais a garota maltrapilha da garagem. Agora, eu era a sombra desta mansão. Saí do quarto e segui o som de algo quebrando. Vinha do andar de cima. Esqueci a regra de Lorenzo de não subir as escadas e corri, movida pelo instinto de quem passou a vida socorrendo choros de bebê. Parei à porta de um quarto decorado com luxo, mas que parecia uma prisão de ouro. No centro do tapete felpudo, uma menina de cerca de quatro anos estava sentada, rodeada por cacos de um prato de porcelana e restos de comida. Ela não chorava. Apenas olhava para o vazio com olhos tão escuros e profundos quanto os do pai. — Lara? — sussurrei, aproximando-me devagar. Ela não se moveu. Parecia uma boneca de porcelana partida. — Quem te deu autorização para subir? — A voz de Lorenzo veio de trás de mim, como um trovão. Virei-me e o encontrei encostado no batente da porta. Ele tinha trocado o paletó por uma camisa preta com as mangas dobradas, revelando antebraços fortes. A expressão dele era de puro tédio misturado com irritação. — Eu ouvi o barulho... achei que ela estivesse ferida — respondi, baixando o olhar imediatamente. — Ela está sempre "ferida", Antonella. Mas não é na pele — ele disse, com uma frieza que me fez estremecer. — A governanta anterior desistiu hoje. Disse que a menina é assombrada. Que não fala, não come, não reage. Ele caminhou até a filha, mas não se abaixou para abraçá-la. Ficou apenas ali, parado, como uma estátua de gelo observando um problema a ser resolvido. — Se você quer o emprego, faça com que ela coma. Faça com que ela pare de ser um peso morto nesta casa. Você tem até o jantar. Se o prato continuar cheio, pode começar a arrumar suas malas. Lorenzo saiu, deixando para trás o rastro do seu perfume amadeirado e a pressão esmagadora do seu desafio. Aproximei-me da Lara. Sentei no chão, ignorando a sujeira, e comecei a catar os cacos com cuidado. — Sabe, Lara... eu também já vivi num lugar onde o silêncio era a minha única proteção — eu disse, sem esperar que ela respondesse. — O meu padrasto dizia que eu era invisível. E a minha mãe... bem, ela não gostava de música. Pela primeira vez, a menina desviou o olhar do chão para mim. Houve uma faísca de algo — curiosidade? — naqueles olhos tristes. — Quer me ajudar a limpar isso? E depois, posso te contar a história de um passarinho que também tinha medo de voar, mas que encontrou um ninho escondido nas sombras. Lara não disse uma palavra, mas estendeu a mãozinha e tocou na manga do meu uniforme. Foi um toque leve, como o bater de asas de uma borboleta, mas para mim, foi a primeira vitória. Preparei uma comida simples na cozinha industrial de Lorenzo — algo que cheirasse a conforto, como a sopa que eu fazia escondida para o pequeno Enzo. Quando voltei ao quarto, ela comeu. Devagar, mas comeu. E enquanto ela comia, eu falava. Não sobre regras ou obrigações, mas sobre mundos onde crianças podiam ser crianças. Não percebi que Lorenzo estava parado na penumbra do corredor, observando. Ele viu a filha, que não interagia com ninguém há meses, aceitar uma colher de sopa da mão daquela garota que ele chamou de "cadáver". Nossos olhos se cruzaram por um breve segundo quando eu saí do quarto para levar a bandeja. Ele não disse "obrigado". Ele não sorriu. — Amanhã, às seis da manhã. Não se atrase — foi tudo o que ele disse, antes de se retirar para o seu escritório sombrio. Mas eu vi. Por um momento, a dureza nos olhos de Lorenzo Cavalcanti tinha oscilado. Eu não era apenas uma governanta agora. Eu era a guardiã do seu bem mais precioso. E isso me tornava, ao mesmo tempo, a pessoa mais segura e a mais em perigo naquela casa.






