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CAPÍTULO 2: AS MIGALHAS DO BANQUETE

O sol de sábado entrou pela fresta do meu quartinho de despejo, trazendo consigo o som dos pássaros e a falsa promessa de um dia melhor. Eu me sentei no colchão, sentindo o estômago dar um solavanco de fome. Meus dezoito anos e dois dias não haviam mudado nada, exceto a intensidade do medo que eu sentia toda vez que ouvia os passos pesados de Getúlio no corredor.

Eu tinha um plano bobo naquela manhã. Um sopro de coragem que nasceu da minha própria solidão.

Na vizinhança, havia uma menina da minha idade, a Clara. Eu a via da janela da lavanderia enquanto ela passeava com seu cachorro. Ela parecia leve, usava fones de ouvido e vestidos coloridos. Eu queria apenas cinco minutos. Cinco minutos de conversa que não fosse sobre o ponto da gema do ovo ou a marca de sabão em pó.

Quando terminei de limpar a cozinha, Beatriz desceu as escadas. Ela usava um vestido de linho branco, impecável.

— Mãe... — chamei, mantendo a distância de segurança. — Eu terminei tudo. Limpei os vidros, lavei as roupas de cama do Enzo e a janta já está pré-preparada.

Ela nem me olhou, concentrada em retocar o batom vermelho no espelho do hall.

— E o que você quer? Uma medalha?

— Eu... eu queria saber se eu podia sair por quinze minutos. Só para ir até a esquina. A Clara, a vizinha, está lá fora e...

Beatriz parou o movimento do batom. Ela se virou devagar, e o olhar que me deu foi de pura diversão cruel.

— Amizades, Antonella? Você acha que alguém como aquela menina quer ser amiga de uma criatura que cheira a desinfetante e usa trapos? Olhe-se no espelho. Você é uma vergonha para esta família. Se você sair por aquele portão, vai ser para nunca mais voltar. É isso que você quer? Morar na rua?

Eu abaixei a cabeça, o peso da humilhação esmagando meus ombros.

— Não, senhora.

— Ótimo. Porque hoje temos planos. O Getúlio e eu vamos levar o Enzo para almoçar naquele restaurante novo no centro. O francês.

Meu coração palpitou. Um restaurante? Eu nunca tinha ido a um. A ideia de ver pessoas, de comer algo diferente de sobras frias, me fez esquecer o medo por um segundo.

— Eu vou com vocês para cuidar do Enzo? — perguntei, com uma centelha de esperança. — Posso trocar de roupa rapidinho, eu prometo que fico em um canto, eu cuido dele o tempo todo para vocês comerem tranquilos...

Beatriz soltou uma gargalhada que ecoou pela sala vazia.

— Você? Em um restaurante francês? — Ela se aproximou, o cheiro do perfume caro me sufocando. — Antonella, você não vai a lugar nenhum. Você vai ficar aqui. Tem o tapete da sala para lavar a seco e os armários da despensa para reorganizar. Não quero você estragando a nossa foto de família.

Ela se afastou e gritou para o andar de cima:

— Getúlio! Vamos, querido! O príncipe já está pronto!

Getúlio desceu as escadas logo em seguida. Ele passou por mim e, aproveitando que Beatriz tinha ido pegar a bolsa, parou ao meu lado. Senti o calor do corpo dele perto demais.

— Uma pena você não ir, Nell — ele sussurrou, a voz carregada de uma malícia que me fez querer vomitar. — Você ficaria linda em um vestido justo. Mas não se preocupe... eu te trago um "docinho" na volta. Se você for uma boa menina enquanto estivermos fora, é claro.

Ele deu uma piscadela e saiu. Ouvi o som do carro de luxo dando partida. O silêncio que se seguiu na casa era ainda pior do que os gritos. Era o silêncio da minha própria insignificância.

Eu fui até a cozinha. Na mesa, havia um resto de croissant que o Enzo não tinha terminado e um pouco de café frio no fundo da xícara da minha mãe. Comi as migalhas com uma avidez dolorosa, sentindo as lágrimas caírem sobre o mármore da bancada.

Passei as próximas quatro horas de joelhos na sala, esfregando o tapete persa. Meus braços queimavam, mas eu não parava. Se eu parasse, eu pensava. E se eu pensasse, eu percebia que não era uma filha, nem uma babá. Eu era apenas um objeto de conveniência.

Perto das três da tarde, eles voltaram. Enzo dormia no colo de Beatriz, que exibia uma sacola de compras luxuosa. Getúlio vinha atrás, rindo de alguma coisa.

— Antonella! — Beatriz chamou. — Venha pegar o Enzo. Ele precisa ser trocado e colocado no berço. E faça silêncio, minha cabeça está explodindo.

Peguei meu irmãozinho. Ele estava pesado e suado. Enquanto eu subia as escadas, Getúlio me parou na metade do caminho, longe da vista de Beatriz que já tinha entrado no quarto dela.

— Aqui o seu doce — ele disse, estendendo um bombom fino, desses que custam o que eu nunca tive.

— Não, obrigada — tentei continuar subindo.

Ele segurou meu braço com força, os dedos cravando na minha pele.

— Eu disse para pegar, Antonella. Eu não gosto de ser rejeitado.

Eu peguei o bombom com a mão trêmula.

— Agora me dá um sorriso — ele ordenou, o olhar descendo para o meu decote tapado pelo moletom. — Mostra que você é grata pelo padrasto que tem.

Eu não consegui sorrir. Eu apenas apertei o Enzo contra o meu peito e continuei subindo, ouvindo a risada abafada dele lá embaixo.

Naquela noite, eu não dormi. Eu fiquei olhando para o bombom em cima do meu pequeno caixote de madeira que servia de mesa. Eu não o comi. Eu o esmaguei com o calcanhar até que virasse apenas uma pasta de chocolate e papel laminado no chão de cimento.

Eu estava decidida. Se o amor não existia para mim ali, e se o perigo estava ficando cada vez mais perto, eu teria que encontrar o meu próprio destino.

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