Mundo ficciónIniciar sesiónA viagem de ônibus durou quatro horas, mas pareceu uma eternidade de incertezas. Desci em uma estrada de terra batida, cercada por árvores altas e retorcidas que pareciam garras contra o céu cinzento. Seguindo as instruções do anúncio, caminhei por mais vinte minutos até que o "Vale das Sombras" se revelou diante de mim.
Era uma mansão de arquitetura brutalista, feita de concreto, vidro negro e aço. Não havia flores nos canteiros, não havia cor nas paredes. Era imponente, fria e assustadora, como um castelo moderno projetado para manter o mundo do lado de fora. O portão de ferro maciço tinha um interfone de metal frio. Com os dedos trêmulos e o coração na garganta, apertei o botão. — Quem é? — Uma voz grave, profunda e cortante como vidro estilhaçado saiu pelo alto-falante. Meu corpo inteiro estremeceu sob o casaco de Gabriel. — Eu... eu vim pelo anúncio. Para a vaga de governanta e babá. Houve um silêncio longo. Tão longo que achei que ele tivesse desligado na minha cara. Então, o portão destravou com um estalo metálico pesado, ecoando pelo vale solitário. Caminhei pela subida de pedra até a porta principal, uma peça de madeira negra com pelo menos três metros de altura. Antes que eu pudesse levantar a mão para bater, ela se abriu. E o ar simplesmente fugiu dos meus pulmões. O homem parado ali era a personificação do perigo. Ele era alto, de uma estatura intimidadora, com ombros largos que bloqueavam toda a luz do hall de entrada. Vestia um terno preto sob medida, sem gravata, com os primeiros botões da camisa abertos, revelando uma pele morena e uma postura predatória. Seu rosto tinha traços esculpidos em ódio e perfeição: mandíbula quadrada, nariz reto e olhos tão escuros que pareciam duas poças de petróleo sob o luar. Ele não sorriu. Ele me mediu de cima a baixo com um desprezo tão nítido que me fez querer desaparecer dentro das roupas largas que eu usava. — Você deve estar brincando — ele disse. A voz dele era um soco no estômago. — Eu pedi uma profissional para cuidar da minha filha, não uma criança fugitiva que parece ter dormido em um bueiro. — Eu tenho dezoito anos — respondi, tentando manter a voz firme, embora minhas mãos estivessem escondidas nas mangas para que ele não visse meu tremor. — E eu sei trabalhar. Sei limpar, cozinhar e, principalmente, sei cuidar de crianças. Eu cuidava do meu irmão desde que ele nasceu. Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal com uma arrogância física que me deixou sem fôlego. O cheiro dele — sândalo, couro e algo metálico — me embriagou instantaneamente. Ele parou a centímetros de mim, obrigando-me a inclinar a cabeça para trás para sustentar o seu olhar de fogo. — Olhe para você, garota — ele sibilou, os lábios curvados em um escárnio cruel. — Você está pálida, tem uma marca de agressão no rosto e está usando trapos que claramente não são seus. Minha filha, Lara, já é difícil o suficiente sem ter uma alma perdida choramingando pelos cantos. Eu não sou dono de orfanato. Saia da minha propriedade antes que eu chame a segurança. Ele começou a fechar a porta. O pânico de voltar para a estrada, para a fome e para o toque asqueroso de Getúlio foi maior que meu medo daquele homem. Apoiei minha mão na porta de madeira maciça, impedindo o fechamento. — Por favor! — eu quase gritei, o desespero rompendo minha máscara. — O senhor quer discrição? Eu serei um fantasma. Quer organização? Deixarei este lugar impecável. Mas, acima de tudo... sua filha. Eu sei o que é se sentir sozinha. Eu posso ajudá-la. Não tenho para onde ir e não tenho medo de trabalho duro. Lorenzo Cavalcanti parou. Seus olhos desceram para a minha mão miúda contra a porta, depois voltaram para o meu rosto, escaneando cada segredo e cada dor que eu carregava. O silêncio que se seguiu foi carregado de uma tensão elétrica, um magnetismo perigoso que eu nunca havia sentido antes. — Como você se chama? — ele perguntou, a voz agora num tom baixo, quase um rosnado calmo. — Antonella. — Escute bem, Antonella — ele se aproximou tanto que senti seu hálito quente na minha bochecha, fazendo os pelos da minha nuca se arrepiarem. — Minha casa é o meu santuário de silêncio. Eu detesto barulho. Detesto incompetência. E, acima de tudo, detesto ser interrompido. Se você entrar por essa porta, você pertence ao meu serviço. Se a minha filha chorar por sua causa, ou se você falhar em uma única tarefa, eu a jogarei na rua pessoalmente. Entendeu? Engoli em seco, sentindo o peso daquela sentença. Ele era um ogro. Rude, prepotente e claramente sem coração. Mas ele era a minha única muralha contra o mundo. — Entendi. — Ótimo. — Ele se afastou, abrindo espaço. — Entre. Há um quarto nos fundos da cozinha. Tome um banho, jogue esses trapos no lixo e tente não parecer um cadáver. Se eu vir uma única lágrima no seu rosto enquanto você estiver com a Lara, você estará fora. Eu não suporto gente fraca. Entrei na mansão, sentindo o mármore frio sob meus pés descalços dentro dos tênis. Lorenzo passou por mim sem olhar para trás, subindo as escadas com uma elegância predatória. Eu estava dentro. Eu tinha um teto. Mas, enquanto eu olhava para as costas daquele homem arrogante, percebi que tinha trocado um inferno conhecido por um labirinto de gelo. Lorenzo Cavalcanti não queria apenas uma babá; ele queria uma sombra que pudesse moldar. E, por algum motivo que eu não conseguia explicar, o jeito cruel com que ele falava comigo fazia meu coração bater de um jeito novo. Não era apenas medo. Era o despertar de algo sombrio e, talvez, irremediável.






