Mundo de ficçãoIniciar sessãoDeise vai para uma nova escola, em que conseguiu uma bolsa de estudos graças a patroa de sua mãe. Sendo a única negra em uma escola tradicional paulistana, enfrenta os desafios de se adaptar a uma nova realidade. Entre as idas e vindas da escola, descobriu o amor. E que crescer era um processo doloroso e inevitável. Mesmo sempre estando acompanhada, Deise se sentia solitária em sua vida. Com apoio de seus entes próximos, já na vida adulta, ela terá a chance de viver verdadeiramente o amor.
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Às cinco da manhã, o rádio relógio de Deise tocou o alarme. A adolescente de quinze anos esticou o braço e apertou o botão para desligar o despertador. De imediato se levantou para tomar um banho. Seu padrasto já havia saído para trabalhar. Sua mãe ainda dormia.
A jovem estava ansiosa e rapidamente terminou o banho e se arrumou vestindo uma de suas roupas preferidas: uma calça jeans bag da cor azul, uma camiseta com estampa do time de basquete Charlotte Hornets e tênis skatista. Com o devido esforço, ajeitou seu cabelo crespo em um rabo de cavalo alto.
Providenciou seu próprio café da manhã, visto que a mãe não se levantava antes das sete da manhã. Pão com manteiga e mortadela e um copo de café foram seu desjejum. Rapidamente se alimentou e por fim foi escovar os dentes antes de sair.
A mochila com seu material já estava arrumada desde o dia anterior. A pegou e posicionou nas costas.
Deise recolheu o dinheiro que a mãe havia deixado em um antigo cinzeiro que havia sobre a estante da sala para pagar suas passagens e lanche na nova escola.
Era por volta das seis da manhã quando Deise saiu de seu apartamento rumo ao ponto de ônibus. Fez uma caminhada tranquila pelas ruas do bairro até chegar no ponto que ficava na rua principal do bairro, cujo nome era uma homenagem a um imigrante armênio que se estabeleceu na mesma localidade em que Deise vivia.
Naquele horário, ainda era possível conseguir entrar no veículo de transporte público, mesmo que já estivesse abarrotado. Dificilmente a jovem mulata conseguia passar pela roleta até que o ônibus chegasse ao seu ponto final que era a estação de metrô Conceição.
Como era seu primeiro dia de aula, ainda precisava enfrentar a fila no caixa do metrô para comprar o bilhete de passagem. Por ser uma segunda-feira e início de mês, a fila estava grande, porém o atendimento era rápido e não levou nem dez minutos para que a jovem estivesse já dentro do vagão do metrô em direção ao seu destino.
A viagem era rápida e frenética com o entra e sai de passageiros apressados rumo aos seus compromissos diários. Em menos de vinte minutos, Deise desceu na estação São Joaquim e foi para sua nova escola, que ficava há uns quinhentos metros da estação.
Já sabia bem o caminho, pois, tinha vindo com sua mãe no dia da matrícula e entrevista, visto que havia sido beneficiada com uma bolsa de estudos em um colégio tradicional paulistano.
Após a saída da estação do metrô, desceu pela rua lateral e poucos minutos depois já estava na porta do Colégio Franciscano.
Deise se sentia nervosa. Observou todos ao seu redor. O movimento era grande na rua e não dava para ter certeza quem eram os alunos do colégio visto que não se usava uniforme no mesmo.
Se aproximando da entrada, Deise viu dois rostos familiares e acenou timidamente. Os dois adolescentes que também a reconheceram apenas fizeram um movimento discreto inclinando suas cabeças à frente, em sinal de cumprimento à distância.
Eram os primos Marcos e Sávio. A mãe de Deise trabalhava como diarista na casa de ambos e graças a mãe de Marcos, Deise conseguiu sua bolsa de estudos naquele estabelecimento.
De origem humilde, e sempre tendo estudado em escola pública, Deise estava introspectiva e com receio de interagir com os outros alunos.
Ouviu-se o sino e o portão da escola foi aberto simultaneamente. Junto aos demais, a garota entrou e pela sinalização nos corredores encontrou sua turma. Havia apenas uma turma de cada ano do ensino médio. Os corredores do colégio eram estreitos e as salas, apesar de grandes, tinham um espaço de locomoção reduzido pelo excesso de carteiras.
Havia cerca de quarenta alunos na sala de Deise. A maioria eram meninos.
Observando ao seu redor, não demorou muito para que a jovem se desse conta de que era a única aluna não branca naquela sala.
Suspirou fundo e tentou relaxar. Foi surpreendida por uma voz delicada.
— Oi! Tudo bem?
— Oi. Estou sim. — Deise respondeu sorrindo.
— Me chamo Thaizza e você?
— Me chamo, Deise.
— O que você está achando da escola? — Thaizza puxou sua carteira para se aproximar de Deise.
— Ah! Sei lá. É estranho. Nem parece que estou numa escola.
Thaizza gargalhou.
— Logo você acostuma.
— Você já era aluna aqui?
— Não! É meu primeiro ano. E que eu saiba de todos aqui, pois essa escola é apenas de ensino médio.
— Ah! Entendi.
Um professor entrou, interrompendo a conversa das duas garotas e ganhando a atenção de todos os presentes.
As primeiras aulas seriam de física. O professor iniciou a aula com uma revisão. Para Deise, não era uma revisão, pois nunca tinha estudado notação científica. Para sua sorte, o professor explicou o tema com muita clareza e passou exercícios no quadro.
Enquanto tentava resolver as atividades propostas, Deise achou o tema complexo. Thaizza a cutucou pedindo ajuda.
Deise não se incomodou em passar as respostas para a recém conhecida. Contudo, Thaizza foi verificar as respostas de outra garota que estava sentada à sua esquerda.
Assim conheceram Aline, uma descendente de japoneses, baixinha, com rosto arredondado e cabelos lisos na altura dos ombros, de olhos bem puxados e mascando um chiclete. Aline se gabava de ter estudado em excelentes colégios e dizia saber resolver os exercícios. As respostas da jovem nipo-brasileira estavam conflitando com as de Deise.
Diante do currículo invejável de Aline e na crença da inteligência superior dos japoneses, Thaizza apagou as respostas que havia copiado de Deise e colocou as mesmas de Aline.
Deise ficou chateada com a situação. Revisou suas respostas e acreditava estar certa. Manteve tudo como estava.
Thaizza nem sequer lhe dava mais atenção. Só acompanhava a conversa de Aline e Viviana que também havia se aproximado para comparar respostas.
Após o tempo determinado pelo professor terminar, o homem de cerca de cinquenta anos se aproximou do quadro para fazer a correção.
Qual não foi a surpresa das três garotas ao se darem conta de que haviam errado todas as questões.
Thaizza bufou e se virou para Deise, falando:
— Poxa! As suas respostas é que estavam certas!
Deise apenas sorriu, satisfeita por ter compreendido a atividade proposta e por ter acreditado em si mesma..
A primeira semana de férias foi tão bem-vinda que passou num piscar de olhos. Num sábado à tarde, Deise foi a um mercadinho próximo de casa para comprar pão doce, mussarela e presunto para o café da tarde. Estava na fila e ficou vendo uma foto que os rapazes do local adoravam exibir e contar a história dela. Diziam que a menina na foto era a loira do tchan e que ela havia estudado junto deles na mesma turma por muitos anos. A tal escola Deise conhecia, tinha feito apenas o oitavo ano nela quando foi transferida devido às agressões físicas e verbais que sofria na escola anterior. Sorriu vendo a foto e gostaria de ter conhecido a menina que certamente se formou antes dela ser transferida. Fez seu pedido, pagou e voltou para casa. No caminho avistou Miriam que provavelmente estava indo no mesmo mercadinho. As duas não se encontraram desde o dia que Miriam ficou com o caderno de Thaizza.— Oi. Eu estava querendo falar com você já faz tempo.— Oi Deise! — Miriam percebeu no semblante da me
Mais uma semana havia terminado e Deise estava aliviada com a chegada do fim de semana. Finalmente lhe ocorreu que ela não se encaixava bem na sua atual escola. Apesar das tentativas de fazer amizades verdadeiras, ela apenas se frustrou. Eram muito diferentes e a garota passou a se sentir uma estranha entre eles. Foi inevitável um distanciamento.Deise já tinha manifestado a sua mãe que queria doar seus brinquedos para Sandra, sua amiguinha e vizinha de andar. Contudo, Maria queria fazer a doação para o Centro Espírita que a sua patroa frequentava.E assim, Maria e Deise foram para um dos encontros do grupo fraternal espírita que ficava no próprio bairro onde elas moravam. Foram recebidas por Marise, mãe de Marcos.— Que bom que vocês vieram!Marise abraçou Maria e Deise.— Então você é a Deise, sua mãe fala muito de você. — Oi. — Deise estava retraída, sem saber o que conversar. — Eu trouxe algumas coisas para doar.— Ah! Que maravilha! Isso é muito bom, Deise. Querida, pode deixar
— Não era só um jogo. Eu realmente queria ganhar!Deise falou sozinha quando um funcionário do prédio apareceu para limpar a quadra e a avisou que ela deveria ir embora.Deise foi então para o vestiário a fim de buscar sua mochila. O silêncio era assustador. Todos já haviam ido embora. Ela se apressou e desceu pelo elevador.Ao chegar a rua sentiu frio. Já era fim de tarde e com o corpo suado se tremeu toda com a brisa. Pegou um moletom na mochila e foi para o metrô. Conforme o corpo esfriava, a dor abdominal aumentava. Deise não conseguia tirar da mente a imagem de Jéssica a atingindo. Sentiu raiva. Deise adorava competições e lidar com derrotas sempre foi um desafio desde que perdera um campeonato de handebol no sétimo ano e seu time era o favorito. Contudo, o que ganhou foi apenas um amargo segundo lugar.A menina chegou em casa aos prantos. Maria ficou preocupada e foi logo vê-la.— O que foi, Deise?— Minha barriga dói muito, mãe!— O que houve?— Eu tomei uma bolada na aula.Mar
Na aula de educação física, o professor surpreendeu a todos informando que haveria uma disputa entre primeiro e segundo anos para definir um time que representaria a escola em competições externas. A modalidade seria o futebol e naquele dia competiriam as meninas. Por terem poucas meninas no primeiro ano, os times deveriam ter seis integrantes cada. O primeiro ano foi formado por Deise, Renata, Thaizza, Aline, Viviana e Patrícia. O segundo ano seria formado por Jéssica,Suzana, Helena, Julia, Maria Antônia e Eliza.Thaizza foi escolhida a capitã do primeiro ano e Jéssica a capitã do segundo ano. Ambas não se suportavam e frequentemente se esbarravam nas matinês paulistanas. Tiraram cara ou coroa para escolher o lado da quadra. Jéssica ganhou e deixou Thaizza escolher o lado, ficando então com a posse da bola. O primeiro ano combinou que Patrícia ficaria no gol, por ser mais robusta e mais alta que as demais. Deise estava animada pois já tinha participado de um campeonato de futebol em










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