Mundo ficciónIniciar sesiónNatalie Almeida perdeu tudo. Após um divórcio devastador, ela se vê sem dinheiro, sem apoio e, o pior de tudo: sem a guarda da filha de seis anos. Com o prazo para recorrer da justiça se esgotando e apenas moedas na conta bancária, o destino coloca um monstro — ou um anjo — em seu caminho. Maximus é um bilionário frio que guarda um segredo sombrio. Sua esposa, Tessa, desapareceu, colocando em risco sua imensa fortuna e o controle de suas empresas. Ele precisa de uma substituta. Ele precisa de Natalie. O acordo é simples: 30 dias. Milhares de reais. Uma nova identidade. Natalie deve se tornar Tessa. Ela deve usar o perfume dela, morar na casa dela e dormir na cama dela. Mas há uma regra fatal: nunca perguntar o que aconteceu com a verdadeira Tessa. Entre o luxo sufocante e o olhar gélido de Maximus, Natalie descobre que o preço de recuperar sua filha pode ser a sua própria vida. Quando o desejo começa a se misturar ao contrato, ela terá que decidir: está sendo amada por quem é, ou apenas sendo o fantasma de uma mulher que Maximus não consegue esquecer?
Leer másO relógio na parede do fórum, de um branco encardido pelo tempo, marcava 11h47 quando o juiz bateu o martelo. Para o mundo, era apenas o fim de mais uma audiência de custódia em uma manhã de terça-feira. Para mim, foi o som da guilhotina. Não foi um estrondo de justiça; foi um clique seco, quase educado, o som de madeira polida encontrando madeira polida. Como se o magistrado estivesse apenas carimbando um formulário de imposto burocrático, e não arrancando o meu coração do peito para servi-lo em uma bandeja de prata ao homem que eu mais odiava.
— Guarda concedida ao pai — sentenciou o juiz com uma voz monótona, sem sequer desviar os olhos dos papéis à sua frente. O ar sumiu dos meus pulmões. Tentei falar, mas minha garganta parecia cheia de vidro moído. Minha advogada, Dra. Heloísa, tocou meu braço. Foi um toque profissional, desprovido de calor, o tipo de gesto que se reserva para quem já perdeu muito antes de entrar no tribunal. — Cabe recurso, Natalie. Mas precisamos de... Ela não terminou a frase. Não precisava. A palavra ficou suspensa no ar pesado da sala, brilhando como um troféu de ouro guardado atrás de uma vitrine blindada: Dinheiro. Um valor alto. Um prazo curto de trinta dias. Uma esperança que eu não podia comprar nem se vendesse cada centavo do meu sangue. Do outro lado da sala, Gustavo estava lá. Ele não comemorou. Um homem como ele, com o sobrenome dele e o saldo bancário dele, não precisava comemorar o óbvio. Ele apenas ajustou o punho do seu terno cinza sob medida e exibiu aquela expressão pesarosa, a máscara perfeita do "bom pai" que sofre por ter que afastar a filha de uma mãe "instável". O monstro que me destruiu nos últimos dois anos agora me oferecia um olhar de piedade que me dava náuseas. Eu não olhava para ele. Eu me recusei a dar a ele o gosto de ver minhas lágrimas. Meus olhos estavam fixos na última fileira. Sophia, com apenas seis anos e o rosto pálido pela confusão, estava sentada ao lado de uma assistente social de rosto severo. As tranças no cabelo dela estavam tortas e frouxas — eu sabia que Gustavo não tinha paciência para os detalhes, que as mãos dele eram pesadas demais para o cabelo delicado da nossa filha. — Mãe? — O chamado dela não foi um grito. Foi um sopro, um lembrete sussurrado que cortou o barulho dos papéis sendo recolhidos. Tentei sorrir. Tentei passar toda a força que eu não tinha através de um único olhar. Mas antes que eu pudesse dar um passo em sua direção, antes que eu pudesse dizer que daria um jeito, a assistente social a puxou pela mão. Sophia olhou por cima do ombro uma última vez antes da porta dupla de madeira se fechar, me deixando sozinha no silêncio ensurdecedor da derrota. Três semanas se passaram. Vinte e uma noites. Eu as contei em cada rachadura do teto da pensão onde eu morava. O colchão era fino o suficiente para eu sentir as molas contra minhas costelas, mas o que realmente doía era o silêncio do meu celular. O aplicativo de visitas era a minha única conexão com o mundo de Sophia, e a próxima data marcada brilhava na tela como uma sentença de morte: daqui a 47 dias. Quarenta e sete dias sem sentir o cheiro de shampoo de maçã do cabelo dela. Quarenta e sete dias sem ouvir suas risadas. Eu estava no caixa do supermercado de bairro, segurando uma pequena cesta com o básico para não morrer de fome, quando recebi a notificação do banco. O visor do celular brilhou com a crueldade dos números. Saldo negativo: R$ — 312,47. Eu ri. Não foi um riso de humor, mas aquele som seco e rouco de quem está tão quebrada que o absurdo finalmente começa a fazer sentido. A moça do caixa, uma jovem com o crachá que dizia "Tati", me olhou com uma mistura de pena e impaciência. — Cartão recusado, moça. Deu erro de limite. O bipe da máquina de cartões soou exatamente como o martelo do juiz. Clique seco. A humilhação tem um cheiro específico naquela cidade: cheiro de asfalto molhado e moedas suadas. Abri minha bolsa e comecei a catar cada centavo que restava no fundo, entre farelos de papel e chaves velhas. — Eu vou levar só o leite e o pão — murmurei, sentindo as orelhas queimarem enquanto a fila atrás de mim começava a bufar. Paguei com as moedas. Sete reais e doze centavos. Saí da loja segurando a sacola plástica como se fosse o último tesouro da terra. Dava para mais três dias de sobrevivência. Depois disso, eu não tinha ideia do que faria. Caminhei em direção ao escritório de contabilidade onde eu trabalhava como arquivista. Ninguém lá sabia meu nome. Para os contadores de gravata colorida e as secretárias de salto alto, eu era apenas "a moça do arquivo", a sombra que organizava pastas de empresas milionárias enquanto não tinha dinheiro para o próprio ônibus. O turno terminou às 20h, mas eu fiquei até as 21h, fingindo organizar papéis só para não ter que voltar para o vazio do meu quarto. Quando finalmente saí, a chuva fina começava a cair, transformando a iluminação dos postes em borrões amarelados. Eu estava prestes a atravessar a rua quando um carro estacionou ao meu lado. Não era um carro comum. Era uma nave de metal preto fosco, com vidros tão escuros que pareciam absorver a luz da rua. As rodas eram enormes e valiam mais do que meu aluguel de cinco anos. Eu parei, o coração saltando na garganta, e desviei o caminho, achando que o motorista tinha se enganado de endereço. O vidro do passageiro desceu com um zumbido elétrico, quase imperceptível. — Natalie Alves? A voz era calma. Grave. O tipo de voz que não precisava gritar para ser obedecida, que carregava o peso de quem manda em milhares de pessoas antes do café da manhã. Eu parei. Meus instintos de sobrevivência, moldados por anos vivendo no limite, gritaram para eu correr. Mas minhas pernas pareciam presas ao chão. O homem dentro do carro não era velho, talvez tivesse quarenta e poucos anos. Tinha o cabelo escuro, perfeitamente cortado, com fios grisalhos nas laterais que lhe davam uma aura de sabedoria perigosa. O rosto era anguloso, com uma mandíbula marcada que nunca parecia ter conhecido o riso. Vestia um terno azul-marinho que gritava exclusividade e uma camisa branca aberta no colarinho. Ele parecia um anúncio de banco de investimentos de elite. Ou um assassino que matava com uma caneta de ouro. — Quem quer saber? — respondi, tentando manter a voz firme apesar do tremor nas mãos. Ele não se ofendeu. Não mudou a expressão. Apenas esticou o braço e abriu a porta do passageiro por dentro. O interior do carro exalava um cheiro inebriante de couro novo, sândalo e poder puro. — Alguém que pode resolver todos os seus problemas, Natalie. E alguém que sabe que você tem nove dias para não perder sua filha para sempre. O nome de Sophia ecoou na minha mente como um disparo. Como ele sabia? Como ele ousava pronunciar o nome da minha dor naquele tom tão clínico? Eu deveria ter virado as costas. Deveria ter corrido para o metrô e desaparecido na multidão. Mas ele disse as palavras mágicas: "todos os seus problemas". E eu pensei na trança torta. Pensei no uniforme que eu não podia pagar. Pensei no juiz e no martelo. Fechei os olhos por um segundo, pedi perdão ao meu orgulho e entrei no carro. O silêncio lá dentro era absoluto, isolando o mundo exterior como se estivéssemos em uma cápsula no espaço. Ele não me olhou imediatamente. Ele manteve os olhos no horizonte enquanto o motorista arrancava com uma suavidade assustadora. Ele então estendeu um envelope de papel pardo, pesado e volumoso. — O meu nome é Maximus — ele disse, e finalmente virou o rosto para mim. Seus olhos eram de um cinza gélido, desprovidos de qualquer empatia. — E a partir de amanhã, o seu nome será Tessa.Eu não conseguia me mexer.O choque me paralisou. A imagem da marca na costela de Tessa ainda queimava na minha retina. O símbolo.E agora Tessa dizia que eu também tinha uma.Por baixo da tatuagem.Esperando.Desde o começo.— Isso não pode ser verdade — eu sussurrei, a voz falhando. — Eu não tenho nenhuma marca. Eu nunca tive.Tessa riu. Aquele riso seco, amargo, que não tinha nada de felicidade.— Você nunca olhou no espelho? Nunca se perguntou por que aquela tatuagem de flor estava exatamente ali? Por que você escolheu aquele lugar?— Eu escolhi porque era bonito. Porque eu queria esconder...Ela parou.Esconder o quê?Por que eu fiz aquela tatuagem?Eu lembrava. Eu tinha feito para cobrir alguma coisa.Alguma coisa que eu não gostava.Alguma coisa que me envergonhava.Uma cicatriz.Uma queimadura.Uma marca.O símbolo.— Não — eu neguei, balançando a cabeça. — Não. Isso é loucura. Não é possível.— É possível. É real. É verdade.Tessa deu um passo na minha direção.— Você nasceu
(Ponto de Vista de Maximus)O quarto do hotel estava escuro quando acordei.Não lembrava de ter dormido. Não lembrava de ter deitado. A última coisa que me lembrava era a imagem do ferro na mão do meu tio, a marca gravada na pele de Tessa.Tessa.O símbolo.A herança.O sangue.Levantei da cama. A camisa estava amassada, suada, grudada no corpo. Tirei. Joguei no chão. Fiquei só de calça, andando de um lado para o outro do quarto pequeno, as mãos no cabelo, a cabeça prestes a explodir.Eu vi aquela marca antes.Não nas fotos.Não nos documentos.Na pele de Tessa.A memória veio como um tiro.Era noite. O quarto estava escuro, apenas a luz da lua entrando pelas frestas das cortinas. O cheiro de Tessa preenchia o ar — flores, sabonete francês, o perfume caro que ela usava nos eventos. Ela estava deitada de lado, nua, os cabelos escuros espalhados sobre o travesseiro branco. Eu estava ao lado dela, a mão percorrendo as costas dela, descendo devagar, acariciando a curva da cintura, o começ
O cabelo escuro, liso, igual ao meu quando a Sra. Winters alisava. Os olhos claros, frios, diferentes dos meus. O rosto magro, cansado, marcado pelo tempo e pelo medo. As roupas simples, escuras, discretas.Mas o corpo. A altura. O jeito de ficar em pé.Era como olhar no espelho.O choque veio como um tapa.Tessa.Ela estava ali.Viva.Real.Enfrentando a minha frente.Minhas pernas fraquejaram. Apoiei na parede.— Você — eu sussurrei. — Você é a Tessa.Ela me olhou.Os olhos claros não piscavam.— Não — ela disse. A voz era calma. Baixa. Serena. — Eu sou o seu fim.Meu corpo tremia.Não um tremor leve, desses que passam com um gole de água. Era um tremor profundo, que vinha dos ossos, que sacudia meus ombros, minhas mãos, meus lábios. Eu não conseguia parar. Não conseguia pensar. Não conseguia fugir.Os olhos de Tessa estavam fixos nos meus.Os olhos claros. Frios. Vazios.Como os de alguém que já viu o inferno e resolveu morar lá.— O que você fez com os seguranças? — minha voz saiu
O hospital estava mais silencioso do que de costume.Passei a manhã e a tarde ao lado da cama de Camila. Ela dormia a maior parte do tempo, mas quando acordava, os olhos estavam assustados. Ela não falava muito. Apenas olhava para as paredes, para o teto, para as mãos dela. Como se procurasse alguma coisa.O médico disse que era normal. Que o corpo reagia ao trauma. Que a mente precisava de tempo.— O que ela precisa é de calma — ele disse, na porta do quarto. — Evitar estímulos. Evitar notícias ruins. Evitar qualquer coisa que possa provocar outra crise.— Ela vai ficar boa?— Vai. Mas vai levar tempo.Eu olhei para Camila. Ela estava encolhida na cama, com os joelhos abraçados contra o peito, os olhos fixos na janela. Ela parecia uma criança. Uma criança assustada.Sentei ao lado dela.Toquei a mão dela.— Oi — eu disse.Ela não respondeu.— Você quer que eu leia alguma coisa? Posso ler um livro. Ou uma revista. Ou só ficar aqui em silêncio.Ela virou o rosto devagar.— Fica — ela s





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