Capítulo 4

Duas horas depois de Maximus sair do quarto, eu ainda estava sentada na cama, olhando para a aliança de Tessa brilhando na mesa de cabeceira.

Não dormi. Não comi. Não tomei banho.

Eu só fiquei ali, processando.

Assinei.

Assinei um contrato de 47 páginas para ser a esposa falsa de um homem que não conheço.

Assinei sem saber o que aconteceu com a verdadeira esposa.

Assinei sabendo que duas mulheres vieram antes de mim e uma delas sumiu.

O que eu fiz?

O que eu fiz?

Um barulho de passos no corredor me tirou do transe. Não eram os passos de Maximus. Esses eram mais leves, mais rápidos, acompanhados de um tilintar metálico.

Alguém bateu na porta. Não esperou resposta.

Uma mulher entrou.

Cinquenta e poucos anos. Cabelo grisalho preso num coque apertado. Olhos pequenos e afiados, como duas agulhas. Vestido cinza, social demais para ser funcionária comum. Uma prancheta na mão.

— Sra. Natalie — ela disse, sem entoação. — Eu sou a Sra. Winters. Fui contratada pelo Sr. Maximus para supervisionar seu treinamento.

Meu estômago embrulhou.

— Treinamento para quê?

— Para ser a Sra. Tessa.

Ela disse como se fosse óbvio. Como se eu tivesse perguntado "para que serve uma faca" e ela respondesse "para cortar".

Eu olhei para ela. Ela olhou para mim. Seus olhos de águia percorreram meu corpo da cabeça aos pés, avaliando, medindo, julgando.

— Vamos começar — ela anunciou, virando-se para o armário. — O Sr. Maximus quer a primeira aparição pública em dez dias. É tempo suficiente para o básico, mas teremos que acelerar o ritmo.

— Espera — eu levantei da cama. Minhas pernas estavam dormentes. — Dez dias? Que aparição? Que básico? Eu não sei de nada disso!

A Sra. Winters nem piscou. Abriu o armário.

Pendurados ali, em perfeita ordem, havia pelo menos trinta vestidos. Todos em tons pastel. Rosê claro, azul bebê, creme, lavanda.

Nada preto. Nada vermelho. Nada que uma pessoa normal usaria.

— Tessa — a Sra. Winters começou, tirando um vestido do cabide — era uma mulher discreta. Elegante. Nunca chamava atenção para si. Suas roupas refletiam isso.

Ela estendeu o vestido na minha frente. Era curto, rosa claro, com um laço na cintura.

Me lembrou uma boneca.

Literalmente uma boneca.

— Eu não uso rosa — eu disse.

— Agora usa.

— Eu não uso laço.

— Agora usa.

Eu cruzei os braços. Não por rebeldia. Por puro instinto de sobrevivência.

— Quem é a Sra. Winters para me dizer o que eu uso ou não uso?

Ela não se ofendeu. Apenas virou a prancheta para mim.

No topo da página, em letras garrafais: "SUPERVISORA DE TREINAMENTO — SRA. WINTERS — CONTRATO DE R$ 30.000,00 MENSAIS."

Abaixo, uma lista de responsabilidades: postura, vestuário, maquiagem, etiqueta, comportamento social, conhecimento do círculo de convivência da Sra. Tessa.

Eu engoli em seco.

— Trinta mil reais por mês? Para me ensinar a ser outra pessoa?

— O Sr. Maximus não gosta de amadores — ela respondeu, guardando o vestido de volta no armário. — Agora, vamos começar com as regras básicas.

Ela sentou na cadeira da penteadeira. Cruzou as pernas. Abriu a prancheta.

— Tessa nunca usava preto. Preto, para ela, era cor de luto. E ela não tinha nada para lamentar.

— Soa como uma pessoa muito feliz.

— Soa como uma pessoa que sabia o que o marido esperava dela.

Aquilo me calou.

A Sra. Winters continuou, lendo de uma lista:

— Tessa sorria com os lábios fechados. Não ria alto, não dava gargalhadas, não mostrava os dentes.

— Ela tinha problema nos dentes?

A Sra. Winters me olhou por cima da prancheta. O olhar dizia: "você não vai durar uma semana."

— Ela tinha classe, Sra. Natalie.

— Classe.

— Classe. Tessa não gostava de café. Tomava chá branco às oito da manhã e chá preto às cinco da tarde.

— E se ela estivesse com sono?

— Ela não sentia sono.

— Tessa não sentia sono?

— Tessa dormia oito horas por noite, acordava às seis e meia, tomava seu chá branco e começava o dia. Ela era disciplinada.

— Ela parece um robô.

A Sra. Winters fechou a prancheta.

— Sra. Natalie — ela disse, com uma paciência que parecia ensaiada —, eu não estou aqui para discutir o caráter da Sra. Tessa. Estou aqui para transformá-la nela. Se o Sr. Maximus a escolheu, é porque viu potencial. Não desperdice essa chance fazendo perguntas desnecessárias.

— Tudo que eu faço é fazer perguntas. É assim que pessoas normais funcionam.

— Pessoas normais não moram nesta casa.

Aquilo doeu mais do que deveria.

Porque ela estava certa.

Eu não era normal ali. Eu era uma peça. Um mecanismo. Uma substituta.

A Sra. Winters passou as duas horas seguintes me ensinando coisas sobre Tessa que eu nunca imaginei que precisaria saber.

— Tessa tinha alergia a morango. Portanto, você também tem.

— E se eu comer morango?

— Não vai comer.

— Tessa tinha medo de altura.

— Não tenho medo de altura.

— Agora tem.

— Tessa usava salto dez centímetros em todas as ocasiões.

— Eu mal consigo andar de salto cinco.

— Vai aprender.

— Tessa chamava o Sr. Maximus de 'amor' em público e de 'Max' em particular.

— E se eu esquecer?

— Não vai esquecer.

Ela parecia tão segura de tudo. De cada detalhe. Como se Tessa fosse uma receita de bolo e ela soubesse todos os ingredientes de cor.

No meio da tarde, a Sra. Winters me levou para o closet. Era maior que a minha antiga sala de estar. Sapatos organizados por cor. Bolsas alinhadas em prateleiras de vidro. Joias dentro de uma vitrine iluminada.

— Escolha um vestido para o jantar de hoje — ela ordenou.

— Jantar?

— O Sr. Maximus janta às oito da noite. Pontualmente. Você vai jantar com ele.

Meu coração disparou.

— Jantar? Sozinha? Com ele?

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