Mundo ficciónIniciar sesiónA fala dele ainda ecoava nos meus ouvidos quando o carro arrancou.
— A partir de amanhã, o seu nome será Tessa.
Eu fiquei paralisada. O envelope de papel pardo pesava no meu colo como uma bomba relógio.
— Espera — minha voz saiu estrangulada. — Você não pode simplesmente... dizer uma coisa dessas e ficar em silêncio.
Maximus não respondeu. Apenas virou o rosto para a janela, como se a paisagem noturna da cidade fosse mais interessante do que qualquer explicação.
— O que significa "meu nome será Tessa"? Quem é Tessa? O que aconteceu com ela? Por que eu? Como você me encontrou?
As perguntas escapavam como se alguém tivesse aberto uma torneira dentro da minha boca. Eu sabia que parecia desesperada. Eu estava desesperada.
Ele suspirou. Aquele som de quem já estava cansado de mim.
— Você não leu o contrato?
— Que contrato? Você não me mostrou contrato nenhum até agora! Você apareceu do nada, falou um monte de coisas assustadoras, e eu, por algum motivo idiota, entrei no seu carro. Isso não significa que eu concordei com nada!
Minhas mãos tremiam. Meu coração batia tão rápido que eu podia sentir o sangue pulsando nas têmporas.
Maximus virou o rosto lentamente. Me olhou. Não com maldade. Com avaliação. Como se eu fosse um animal desconhecido que ele estava decidindo se valia a pena domesticar.
— Você entrou no meu carro porque não tem nenhum centavo no banco, porque vai perder o direito de ver sua filha e porque acabou de receber uma mensagem do seu ex-marido ameaçando suspender suas visitas.
O ar sumiu dos meus pulmões.
— Como você sabe da mensagem?
— Eu sei tudo sobre você, Natalie. Desde o nome do seu primeiro namorado até a última vez que você comeu algo que não fosse pão com margarina.
Aquilo foi um tapa. Não físico. Pior.
Ele sabia que eu estava com fome. Ele sabia que eu estava quebrada. Ele sabia que eu era uma presa fácil.
E o pior: ele estava certo.
— Isso é assustador — eu sussurrei. — Você está me assustando.
— Bom. Era a intenção.
A honestidade cruel dele me desarmou. Eu esperava negação, desculpas, um "não foi bem assim". Mas não. Ele apenas admitiu.
— Eu preciso que você entenda a gravidade do que estou propondo — ele continuou, com uma paciência que parecia ensaiada. — Não é um emprego normal. Não é um favor entre amigos. É um contrato. Com regras. Com consequências.
— Que tipo de consequências?
— Leia o contrato. Depois conversamos.
— E se eu não quiser?
Ele me encarou. Os olhos cinza escuros não piscaram.
— Então eu peço para o motorista parar, você desce e volta para sua vida. O colchão na Rua Austina. As marmitas requentadas. O saldo negativo. E a mensagem do seu ex-marido sobre a suspensão das visitas.
A última frase foi um golpe baixo. Ele sabia o quanto aquelas visitas eram tudo que eu tinha da minha filha.
Eu odiava que ele soubesse.
O silêncio voltou. Dessa vez, não era só vazio. Era medo. Era dúvida. Era a voz na minha cabeça gritando "isso é loucura" enquanto outra voz, mais baixa, sussurrava "mas é a única chance".
— Quem é Tessa? — eu perguntei, mais calma. — Antes de eu decidir qualquer coisa, eu preciso saber.
Maximus demorou a responder. Tanto tempo que eu achei que ele não ia responder.
— Tessa era minha esposa.
— Era?
— Ela desapareceu há oito meses.
— Desapareceu como?
— Eu não sei.
— Você não sabe?
— Ela simplesmente... não estava mais lá. Um dia, acordei e ela tinha ido. Levou apenas uma mala. Deixou o resto. Roupas, joias, celular, documentos.
A voz dele não tremia. Mas tinha alguma coisa naquela fala que me fez acreditar que ele não estava mentindo.
— Você procurou?
— Contratei investigadores. Gastei dinheiro que você não pode imaginar.
— E não encontraram nada?
— Nada. Até que uma semana atrás, encontraram você.
Meu estômago embrulhou.
— Como assim "encontraram você"?
— Você se parece com ela. Fisicamente, quero dizer. Mesmo tom de pele, mesmo formato de rosto. Na primeira foto que me enviaram, achei que fosse ela.
Eu senti um arrepio percorrer minha espinha.
— Você está me dizendo que... me escolheu porque eu pareço com a sua esposa desaparecida?
— Isso mesmo.
— Isso é insano.
— É. Mas é o que eu tenho.
Ele disse aquilo como quem admite uma fraqueza. Um bilionário. Poderoso. Frio. Admitindo que estava desesperado.
— Por que você precisa de alguém no lugar dela? — insisti. — Por que não simplesmente... seguir em frente?
Maximus virou o rosto para a janela novamente. A cidade passava. Luzes. Gente. Vidas normais.
— Tessa está desaparecida, Natalie. Não morta. Enquanto ela não for encontrada, viva ou morta, eu não posso seguir em frente. Existem bens. Existe uma herança. Existem acordos de sócios que exigem um estado civil estável.
— Então é por dinheiro?
— É por controle.
A resposta foi tão fria que gelou o ar dentro do carro.
— Eu não posso declarar Tessa morta. Não posso pedir divórcio. Não posso fazer nada sem arriscar perder metade do que construí. Mas se eu tiver alguém ocupando o lugar dela... ninguém pergunta. Ninguém investiga. Ninguém me tira o que é meu.
— E Tessa? O que acontece com ela se um dia voltar?
Ele me encarou. A primeira fagulha de algo humano surgiu naqueles olhos.
— Se Tessa voltar, você pega seu dinheiro e vai embora. E eu resolvo com ela o que precisar ser resolvido.
— Depois de tudo... eu sou só um tapa-buraco.
— Você é uma solução. É diferente.
Eu ri. Não foi um riso de humor. Foi aquele riso amargo de quem acabou de entender o próprio lugar no mundo.
— E o que eu ganho com isso?
— Dinheiro. Bastante dinheiro. O suficiente para contratar o advogado que você quiser. O suficiente para pagar a melhor escola para sua filha. O suficiente para nunca mais depender de ninguém.
— Por quanto tempo?
— Até eu não precisar mais. Pode ser seis meses. Pode ser um ano.
— E se eu quiser sair antes?
— Você não vai querer.
— Por quê?
Ele se inclinou ligeiramente. Apenas o suficiente para eu sentir o peso da presença dele.
— Porque você vai ter a vida que sempre quis. E no final, vai ter sua filha de volta. É o que você quer, não é? Só isso?
Eu não respondi.
Porque ele estava certo.
O carro parou. Não em frente ao meu prédio. Em frente a um lugar que eu não conhecia.
— Onde estamos?
— No seu novo lar.
Olhei pela janela. Uma mansão. Muros altos. Jardins impecáveis. Câmeras em cada canto.
Parecia uma prisão dourada.
— Isso é... sua casa?
— Nossa casa. A partir de agora.
Eu não conseguia mexer as pernas.
— Eu não posso simplesmente... morar com um estranho.
— Pode. E vai. Ficará no quarto principal. Tudo já está preparado. Roupas, objetos pessoais, tudo o que você precisa.
— E se eu recusar? Agora? Neste exato momento?
Ele abriu a porta do carro. O ar noturno entrou, frio e cortante.
— Então o motorista te leva de volta. E você nunca mais me vê.
Eu olhei para a mansão. Para as câmeras. Para o homem de terno azul-marinho que parecia saído de um pesadelo de rico.
Pensei na Sophia.
Pensei na mensagem do meu ex-marido.
Pensei no saldo negativo de 312 reais.
— Eu quero ler o contrato antes de assinar qualquer coisa.
Maximus apontou para o envelope do meu lado no carro. Grande. Grosso. Papel de qualidade.
— São 47 páginas. Leia cada cláusula. Amanhã me devolve com sua resposta.
Eu peguei o envelope. Meus dedos tremiam tanto que quase deixei cair.
— Tem alguma cláusula que você queira me contar agora?
— Apenas uma. A mais importante.
Ele se inclinou. Seus olhos cinza encontraram os meus com uma intensidade que me prendeu no lugar.
— Você nunca pode perguntar o que aconteceu com Tessa.
— Por quê?
— Porque as duas mulheres que vieram antes de você perguntaram.
O ar sumiu dos meus pulmões.
— Duas mulheres?
— Uma está num hospital psiquiátrico. A outra... ninguém encontrou.
— Você está me ameaçando?
— Estou te avisando. Você não quer saber, Natalie. Acredite. Você só quer o dinheiro. E eu só preciso de alguém no lugar dela. É simples.
— Nada disso é simples.
Ele sorriu. Aquele sorriso triste. Cansado.
— Você ainda tem muito o que aprender.
Ele entrou na mansão. Não olhou para trás.
Eu fiquei parada no meio do jardim, com o envelope nas mãos, o coração disparado e uma única certeza na cabeça:
Eu tinha acabado de vender minha alma por um contrato de 47 páginas.
E ainda não sabia o preço.







