Capítulo 5

— É a primeira regra da casa. Todos os jantares são compartilhados pelo casal. Tessa nunca jantava sozinha. Você também não vai.

Eu olhei para os vestidos pastel. Para os saltos altos. Para a boneca que eu precisava me tornar.

— E se eu não quiser?

— Você assinou o contrato, Sra. Natalie.

Ela disse como se fosse a coisa mais definitiva do mundo.

E era.

Eu escolhi um vestido azul bebê. Com um laço. Porque não tinha escolha.

A Sra. Winters aprovou com um aceno seco.

Colocou um par de sapatos de salto na minha frente. Ao lado, uma caixa de maquiagem aberta.

— Eu mesma vou fazer sua maquiagem. E seu cabelo. Tessa usava ondas soltas, nunca preso.

— Meu cabelo é cacheado.

— Tessa alisava o dela.

— Eu não vou alisar meu cabelo.

A Sra. Winters me encarou.

— Sra. Natalie — a voz dela ficou mais baixa, quase um sussurro. — Eu não estou aqui para ser sua inimiga. Estou aqui para ajudá-la a sobreviver.

— Sobreviver?

— É a palavra certa.

Ela se aproximou.

— O Sr. Maximus não é um homem paciente. Ele perdeu a esposa. Ele contratou duas mulheres antes de você. Agora você está aqui. Se você falhar, ele vai encontrar uma quarta. E você vai voltar para sua vida antiga. Sem dinheiro. Sem filha. Sem nada.

O sangue gelou nas minhas veias.

— Você está me ameaçando?

— Estou te avisando. Há uma diferença.

Ela pegou o secador de cabelo.

— Agora, sente-se. Vamos começar. Temos muito o que fazer antes das oito.

Eram 19h55 quando a Sra. Winters deu o último retoque no meu batom.

O espelho refletia uma mulher que eu não conhecia.

O cabelo não era mais cacheado. Era liso. Ondulado nas pontas.

A maquiagem era leve, quase invisível. Mas transformava meu rosto em algo mais... suave. Mais dócil.

O vestido azul bebê me apertava na cintura. O salto dez centímetros me deixava mais alta, mais vulnerável, mais dela.

— Tessa — a Sra. Winters disse, me observando de longe. — É a cara dela.

Eu olhei para o meu reflexo.

Não era a minha cara.

Era o rosto de uma mulher que eu não conhecia.

Uma mulher que sumiu.

Uma mulher que talvez estivesse morta.

— Estou pronta — eu menti.

A Sra. Winters abriu a porta do quarto.

O corredor estava escuro. Apenas algumas luzes amareladas indicavam o caminho.

— Desça as escadas. Vire à direita. A sala de jantar fica no fundo.

— Você não vai comigo?

— O jantar é só entre o casal.

Ela disse "casal" como se fosse verdade.

Eu desci as escadas.

Cada degrau era uma eternidade. O salto alto rangia no mármore. O vestido azul farfalhava a cada movimento.

No fundo do corredor, uma porta aberta. Luz quente. O som de talheres contra porcelana.

Maximus já estava sentado à mesa.

Camisa branca, mangas dobradas. Nenhum paletó. Nenhuma gravata. Ele parecia mais humano assim. Quase acessível.

Ele levantou os olhos quando eu entrei.

Me olhou dos pés à cabeça. Devagar. Avaliando. Como a Sra. Winters tinha feito mais cedo.

— Sente-se — ele disse.

Não puxou minha cadeira. Não perguntou como eu estava. Nada.

Apenas apontou para o lugar à sua frente.

Sentei.

O silêncio se instalou entre nós. Pesado. Desconfortável.

Um garçom apareceu do nada. Serviu vinho tinto para ele, água com gás para mim.

— Tessa não bebia álcool — Maximus explicou, sem eu perguntar.

— Eu bebo.

— Não mais.

Ele pegou o talher. Começou a comer como se eu não estivesse ali.

Eu olhei para o prato na minha frente. Salmão grelhado. Legumes no vapor. Algo sofisticado demais para o meu paladar acostumado com pão com margarina.

— Maximus — eu disse.

Ele não respondeu. Continuou cortando o salmão em pedaços pequenos.

— Maximus — repeti, mais alto.

Ele levantou os olhos.

— Eu não sei fazer isso.

— Fazer o quê?

— Ser ela. Ser Tessa. Ser uma boneca de porcelana que usa rosa e não bebe e não ri alto.

Ele largou o garfo.

O som do metal contra a porcelana ecoou pela sala vazia.

— Natalie — ele disse meu nome pela primeira vez. Não "Sra. Natalie". Não "Contratada". Natalie. — Ninguém nasce sabendo ser Tessa. Nem a própria Tessa.

— Então como ela aprendeu?

— Eu ensinei.

O ar gelou.

— Você... a transformou nisso?

— Eu a moldei. Como vou moldar você.

Ele pegou o garfo novamente. Voltou a comer.

— Você não precisa gostar, Natalie. Você só precisa executar.

Executar.

Palavra de funcionário. Palavra de máquina.

Não palavra de mulher.

— E se eu não conseguir? — minha voz saiu mais fraca do que eu queria.

— Você vai conseguir.

— Por que está tão certo?

Ele parou de comer. Me encarou.

— Porque eu li seu contrato. Sei tudo sobre você, desde o nome da sua filha até o medo que sentiu quando o juiz bateu o martelo. Sei que você é mais forte do que parece. Sei que você não desiste.

— Como você pode saber que eu não desisto?

— Porque você está aqui.

Ele tocou o copo de vinho, fez um brinde silencioso para si mesmo.

— Uma mulher que desiste teria saído do carro ontem. Uma mulher que desiste não teria assinado 47 páginas de contrato. Uma mulher que desiste não estaria usando um vestido azul que odeia para jantar com um homem que não conhece.

Ele bebeu um gole de vinho.

— Você não desiste, Natalie. Você luta. E é por isso que eu escolhi você.

O silêncio voltou.

Mas dessa vez, era diferente.

Porque ele tinha dito "escolhi você".

Não "encontrei você". Não "contratei você".

Escolhi.

Como se eu fosse especial.

Como se eu não fosse apenas a terceira tentativa.

Eu olhei para o salmão no meu prato. Peguei o garfo.

Comi o primeiro pedaço.

— Amanhã — Maximus disse, depois de um longo minuto — você vai conhecer o círculo social de Tessa.

— Círculo social?

— Amigas. Inimigas. Pessoas que vão testar você. Pessoas que vão tentar descobrir se você é verdadeira.

Meu estômago embrulhou.

— E se descobrirem?

Ele sorriu. Pela primeira vez no jantar.

Um sorriso que não era triste. Não era frio.

Era perigoso.

— Não vão descobrir.

— Por quê?

— Porque você vai ser melhor do que ela.

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