Capítulo 6

A Sra. Winters entrou no meu quarto às sete horas da manhã.

Não bateu. Não perguntou se eu estava acordada. Apenas abriu a porta e acendeu a luz como se fosse uma carcereira e eu, uma detenta.

— Levante-se. Temos muito o que fazer antes do almoço.

Eu estava sentada na cama desde as cinco. Não dormi. De novo. A cama macia, o cheiro de lavanda, o silêncio absoluto — tudo me lembrava que eu não pertencia àquele lugar.

— O que tem no almoço? — minha voz saiu rouca.

— O Sr. Maximus convidou Verônica para conhecer você.

— Verônica?

A Sra. Winters abriu a pasta que carregava debaixo do braço. Tirou uma foto.

Uma mulher. Trinta e poucos anos. Cabelo curto, preto, repicado. Olhos grandes e expressivos. Sorriso largo, confiante. Na foto, ela abraçava Tessa. As duas riam juntas.

— Veronica é a melhor amiga de Tessa. Se conhecem há quinze anos. Ela sabe cada detalhe da vida de Tessa. Cada mania. Cada medo. Cada segredo.

Meu estômago embrulhou.

— Se ela conhece Tessa há quinze anos, vai perceber na hora que eu sou falsa.

— Não vai — a Sra. Winters respondeu, com uma confiança que me assustou. — Porque você vai ser treinada para ser Tessa em cada detalhe. E porque Verônica quer acreditar que Tessa voltou.

— Por que ela iria querer acreditar em uma mentira?

A Sra. Winters me olhou por cima da prancheta.

— Porque a verdade é mais dolorosa.

Ela não explicou o que isso significava. E eu aprendi, na noite anterior, que não adiantava perguntar.

As quatro horas seguintes foram um inferno.

A Sra. Winters me fez repetir fatos sobre a vida de Tessa até que eu sonhasse com eles.

— Tessa conheceu Maximus onde?

— Em uma galeria de arte. Ele estava comprando um quadro. Ela era a dona da galeria.

— Qual era o nome da galeria?

— Arte & Alma.

— Qual era o pintor favorito de Tessa?

— Ela não tinha um pintor favorito. Ela gostava de descobrir artistas novos.

— Qual era o medo de Tessa?

— Altura. E baratas.

— O que Tessa comia no café da manhã?

— Iogurte grego com mel e granola. Nunca pão. Nunca café.

— Qual era o perfume de Tessa?

Eu hesitei.

— Lavanda? — chutei.

A Sra. Winters parou de andar. Me olhou como se eu tivesse dito uma obscenidade.

— Errei?

— Tessa usava um perfume francês. Chama-se L' Amour. Custa três mil reais o frasco.

— Quem é que paga três mil reais num perfume?

— O Sr. Maximus pagava. E agora, você vai usar.

Ela tirou uma caixa da gaveta. Preta, discreta, com um laço de cetim. Dentro, um frasco de vidro fumê.

Borrifei no pulso.

O cheiro era doce, mas não enjoativo. Tinha alguma coisa amadeirada no fundo. Um cheiro de dinheiro. De poder.

— Tessa gostava desse cheiro?

— Tessa gostava de tudo que o Sr. Maximus escolhia para ela.

Aquilo me incomodou mais do que deveria.

Ao meio-dia, a Sra. Winters finalmente me deixou sozinha.

— Vista o vestido azul claro que está na cama. Coloque os sapatos de salto bege. Faça a maquiagem como eu ensinei. O cabelo preso, mas com mechas soltas. Verônica chega em uma hora.

— O que eu falo para ela?

— A verdade.

— A verdade?

— Que você é Tessa. Que voltou. Que está feliz. Que sentiu falta dela.

— E se ela perguntar onde eu estive?

A Sra. Winters hesitou. A primeira hesitação dela desde que chegou.

— Diga que não quer falar sobre isso. Que foi um período difícil. Que você precisa de tempo.

— E ela vai aceitar?

— Se ela realmente for sua amiga... sim.

Ela saiu. A porta fechou.

Eu fiquei sozinha com o vestido azul, os sapatos bege, e o cheiro de um perfume de três mil reais que não era meu.

13h05.

O interfone tocou.

Eu estava sentada na sala de estar, como a Sra. Winters tinha ordenado. Coluna reta. Mãos no colo. Pernas cruzadas na altura dos tornozelos.

Como Tessa fazia.

Meu coração batia tão rápido que eu podia sentir o sangue pulsando nos meus ouvidos.

Dois segundos depois, ouvi a voz dela antes de ver o rosto.

— Tessa!

Verônica entrou na sala como um furacão. Saltos altos, vestido vermelho, cabelo curto perfeitamente repicado. Ela era o oposto de tudo que eu tinha aprendido sobre Tessa.

Tessa não chamava atenção. Verônica exigia.

Ela parou na minha frente. Me olhou dos pés à cabeça.

Os olhos dela brilharam.

— Você voltou — ela sussurrou. — Eu não acredito que você voltou.

Ela se aproximou. Me abraçou.

O abraço era apertado. Verdadeiro. O tipo de abraço que só uma amiga de quinze anos dá.

Eu congelei.

Não sabia onde colocar as mãos. Não sabia como retribuir. Não sabia o que dizer.

Verônica se afastou. Olhou no fundo dos meus olhos.

— Você está diferente.

Meu coração parou.

— Diferente como? — minha voz saiu estranha. Mais aguda do que o normal.

— Seu cabelo... você alisou? Tessa, você sempre odiou cabelo liso.

— Mudei de ideia.

Verônica arqueou uma sobrancelha.

— Muda de ideia sobre cabelo, mas não muda sobre maquiagem? Ainda usando esse tom de batom? Tessa, amiga, isso é tão 2022.

Eu não sabia o que Tessa usava. Não sabia o que estava na moda. Não sabia nada.

A Sra. Winters tinha me ensinado fatos. Datas. Nomes. Perfumes.

Mas ela não tinha me ensinado a improvisar.

— Eu gosto desse tom — eu respondi, tentando soar natural. — Combina com o vestido.

Verônica me olhou por mais um segundo. Depois sorriu.

— Você sempre foi teimosa. oito meses sumida e continua teimosa.

Ela sentou no sofá ao meu lado. Cruzou as pernas. Apoiou o queixo na mão.

— Agora me conta. Onde você estava? O que aconteceu? Por que você sumiu? Todo mundo estava preocupado. Maximus quase enlouqueceu.

— Estou bem — eu disse. Era a única verdade que eu conseguia oferecer. — Só precisei de um tempo.

— Um tempo? Oito meses? Tessa...

— Não quero falar sobre isso.

As palavras saíram mais duras do que eu planejava. Mas funcionaram.

Verônica se calou.

Me olhou por um longo segundo.

— Você mudou — ela disse, mas dessa vez não era sobre o cabelo ou a maquiagem. — Você não parece a mesma pessoa.

O ar sumiu da sala.

Ela sabe. Ela descobriu. Acabou. O contrato vai ser cancelado. Vou perder o dinheiro. Vou perder Sophia.

— É o que acontece quando você quase morre — uma voz disse.

Eu demorei um segundo para perceber que a voz era minha.

Verônica arregalou os olhos.

— Quase morre? Tessa, o que você está dizendo?

— Não quero falar sobre isso. — repeti, dessa vez com mais firmeza. — Estou aqui agora. Voltei. Não importa o resto.

O silêncio se alongou.

Verônica me olhou. Eu a olhei de volta.

E então, contra todas as expectativas, ela sorriu.

— Você finalmente cresceu, amiga.

Ela me abraçou de novo.

Dessa vez, eu abracei de volta.

Quando Verônica foi embora, duas horas depois, eu desabei na escada da entrada.

Minhas pernas tremiam. Minhas mãos suavam. Meu coração parecia que ia sair pela boca.

A Sra. Winters apareceu do nada.

— Ela acreditou? — perguntou, sem entonação.

— Acho que sim.

— Como foi a conversa?

— Difícil. Ela perguntou onde eu estive. Eu disse que não queria falar. Ela insistiu. Eu falei que 'quase morri'.

A Sra. Winters franziu a testa.

— Quase morreu?

— Eu não sabia o que dizer. Saiu sozinho. Mas funcionou.

A Sra. Winters anotou algo na prancheta.

— Anotado. "Quase morreu" será a explicação oficial para o desaparecimento. Se alguém perguntar, você estava se recuperando em uma clínica no exterior. Sigilo médico. Ninguém pode confirmar, ninguém pode negar.

Eu olhei para ela.

— Você inventou isso agora?

— Eu trabalho com o que tenho.

Ela virou as costas e foi embora.

Mais uma vez, fiquei sozinha.

Mais uma vez, me perguntei o que diabos eu estava fazendo ali.

Naquela noite, depois do jantar com Maximus (salmão de novo, talheres de prata, silêncio cortante), eu subi para o quarto.

A Sra. Winters tinha deixado um envelope na minha cama.

Dentro, uma foto.

Não era de Tessa.

Era de Sophia.

Ela estava na escola. Uniforme novo. Mochila nova. As tranças ainda tortas.

Do lado de fora do portão, meu ex-marido. Gustavo. Ele sorria para o celular. Não olhava para ela.

Atrás da foto, escrito à mão:

"Ela perguntou por você hoje. Disse que sente saudades da mãe."

Eu segurei a foto com tanta força que quase rasguei.

Pela primeira vez desde que entrei naquele carro preto, eu chorei.

Não foi um choro bonito. Não foi um choro de novela.

Foi feio. Foi barulhento. Foi desesperado.

Porque eu sentia falta dela.

Porque eu precisava dela.

Porque se isso não desse certo, se Maximus descobrisse que eu não era boa o suficiente, se Verônica contasse para alguém que eu estava estranha...

Eu nunca mais veria minha filha.

E o pior: ela cresceria achando que a mãe a abandonou.

Eu desabei na cama, com a foto no peito, e chorei até não ter mais lágrimas.

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