Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu não sei quanto tempo fiquei parada no jardim.
O envelope pesava na minha mão como se fosse feito de chumbo. A mansão brilhava à minha frente, toda iluminada, cheia de janelas que pareciam olhos me vigiando.
Você pode ir embora, a voz na minha cabeça dizia. É só voltar para o carro. Pedir para o motorista te levar de volta. Esquecer que isso tudo aconteceu.
Mas eu não me mexia.
Porque "voltar" significava voltar para o colchão fino. Para as marmitas requentadas. Para o saldo negativo. Para os 47 dias até o próximo abraço de Sophia.
Para a mensagem do Gustavo: "Na próxima audiência, vou pedir a suspensão total das visitas."
— A senhora vai ficar aí parada a noite toda?
A voz veio de trás de mim. Quase pulei de susto.
Um segurança. Grande, de terno preto, com um fio no ouvido. Ele me olhava sem expressão, como se eu fosse um móvel fora do lugar.
— Eu só... — minha voz saiu falhando. — Eu só preciso de um minuto.
Ele não respondeu. Apenas ficou lá, parado, esperando.
Eu olhei para a mansão mais uma vez.
Respirei fundo.
Entrei.
O hall de entrada era maior que o meu apartamento inteiro.
Mármore branco no chão. Um lustre gigante pendurado no teto. Escadas que subiam para os dois lados, como naqueles filmes de época. Tudo limpo, organizado, frio.
Não tinha uma foto na parede. Não tinha um brinquedo jogado no canto. Não tinha vida.
— O quarto da Sra. Tessa fica no segundo andar, corredor à esquerda.
O segurança tinha aparecido ao meu lado sem fazer barulho. Um fantasma de terno preto.
— Eu não sou a Sra. Tessa ainda — eu respondi, mais para mim do que para ele.
Ele não disse nada. Apenas apontou para as escadas.
Subi.
Cada degrau rangia um pouco. O único som na casa inteira. Parecia que o lugar estava morto. Ou dormindo. Não dava para saber.
No segundo andar, um corredor imenso. Portas espaçadas, todas fechadas. Luzes amareladas que não deixavam nenhuma sombra escapar.
Parece um hospital, eu pensei. Um hospital de rico.
A porta do quarto estava entreaberta. Luz acesa.
Empurrei devagar.
O quarto era enorme.
Cama de dossel, branca, com lençóis de seda. Um closet aberto do lado esquerdo, cheio de roupas que não eram minhas. Uma penteadeira com frascos de perfume e pincéis de maquiagem perfeitamente alinhados.
Tudo arrumado. Tudo no lugar.
Tudo dela.
No centro da cama, um envelope igual ao que Maximus tinha me dado no carro. Mas esse já estava aberto.
Ao lado, uma caneta.
Eu me sentei na borda da cama. O colchão era tão macio que eu afundei. Tão diferente do meu colchão fino que doeu fisicamente.
Tirei o contrato do envelope.
47 páginas. Papel grosso, cheiro de tinta de impressora cara. Termos jurídicos em letras miúdas.
Comecei a ler.
"CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS ENTRE MAXIMUS [SOBRENOME OMITIDO] — DORAVANTE DENOMINADO 'CONTRATANTE' — E NATALIE ALVES — DORAVANTE DENOMINADA 'CONTRATADA'."
Pulei as primeiras páginas. Juridiquês. Nada que eu entendesse direito.
Cláusula 1: A CONTRATADA compromete-se a assumir publicamente a identidade de TESSA [SOBRENOME OMITIDO], esposa do CONTRATANTE, em todos os aspectos da vida social e doméstica.
Cláusula 2: A CONTRATADA deverá residir na residência principal do CONTRATANTE durante toda a vigência deste contrato.
Cláusula 3: A CONTRATADA receberá uma remuneração mensal de R$ [R$ 150.000,00], depositada em conta corrente aberta exclusivamente para este fim.
O valor me fez parar.
Não era um número. Era uma fortuna. Quinze vezes o que eu ganhava no escritório de contabilidade. Quinze vezes o que eu precisava para pagar um bom advogado.
Eu li de novo. Os números não mudaram.
Respirei fundo. Continuei.
Cláusula 7: A CONTRATADA deverá se submeter a treinamentos de voz, postura e comportamento ministrados por profissionais indicados pelo CONTRATANTE.
Cláusula 8: A CONTRATADA deverá acompanhar o CONTRATANTE em eventos públicos, jantares de negócios e compromissos sociais sempre que solicitada.
Cláusula 9: A CONTRATADA deverá manter a aparência física compatível com a SRA. TESSA, incluindo cabelo, maquiagem e vestuário, cabendo ao CONTRATANTE o pagamento de todas as despesas relacionadas.
Cada cláusula era uma corrente. Cada palavra me lembrava que eu não era eu. Eu era ela.
E então cheguei na página 12.
Cláusula 12: A CONTRATADA não poderá, sob hipótese alguma, investigar, questionar, buscar informações ou tentar localizar o paradeiro da SRA. TESSA [SOBRENOME OMITIDO]. Qualquer violação desta cláusula constituirá quebra grave do contrato, resultando na rescisão imediata e na obrigação da CONTRATADA de devolver 100% dos valores já recebidos.
Meu estômago embrulhou.
Devolver tudo.
Ficar sem nada.
Perder Sophia para sempre.
Abaixo da cláusula, escrito à mão com caneta preta estava:
"Nem todas as respostas valem o preço."
A letra era firme, elegante. Masculina.
Maximus tinha escrito aquilo.
Eu fechei o contrato. Meu coração batia tão rápido que eu podia sentir o pulsar nos meus dedos.
— Isso é loucura — eu sussurrei para o quarto vazio.
O quarto não respondeu.
Eu olhei para a penteadeira. Para os frascos de perfume. Para os pincéis de maquiagem perfeitamente alinhados. Isso era o que restava de Tessa. Uma vida resumida a objetos arrumados por empregadas.
O que aconteceu com ela?
Para onde ela foi?
Por que Maximus não queria que ninguém perguntasse?
As perguntas se acumulavam na minha cabeça como moscas em volta de uma ferida.
Você não pode perguntar.
A voz na minha cabeça não era minha. Era dele.
Você não quer saber, Natalie. Acredite.
Eu levantei da cama. Comecei a andar de um lado para o outro. Precisava pensar. Precisava de ar. Precisava de alguém para me dizer que isso era loucura e que eu não deveria fazer isso.
Mas não havia ninguém.
Era só eu. O contrato. E a foto de Sophia que eu tinha gravada na memória.
Uma hora depois, eu ainda estava no quarto.
Tinha lido o contrato inteiro. Cada cláusula. Cada parágrafo. Cada letra miúda.
Algumas coisas me incomodaram mais do que outras.
Cláusula 15: A CONTRATADA não poderá receber visitas não autorizadas pelo CONTRATANTE.
Cláusula 18: A CONTRATADA não poderá utilizar telefone celular ou dispositivos eletrônicos não fornecidos pelo CONTRATANTE.
Cláusula 22: A CONTRATADA não poderá deixar a residência principal sem acompanhamento de um segurança designado pelo CONTRATANTE.
Eu não era uma esposa falsa.
Eu era uma prisioneira.
Sentei na cama novamente. O peso daquilo tudo caiu sobre mim como um caminhão.
O que você está fazendo, Natalie?
Isso é loucura.
Você não conhece esse homem.
Você não sabe o que aconteceu com a esposa dele.
Você não sabe o que pode acontecer com você.
Mas aí eu pensei nela.
Sophia.
Seis anos. As tranças tortas. O uniforme que eu não comprei. A mochila nova que eu não escolhi.
A mensagem do Gustavo: "suspensão total das visitas"
Se eu perdesse as visitas, não teria mais 47 dias.
Não teria mais nada.
Eu seria uma estranha para minha própria filha.
Peguei a caneta.
Minha mão tremia.
O contrato estava aberto na última página. Uma linha pontilhada para assinar. Ao lado, o nome de Maximus já estava lá. Uma assinatura firme, elegante, que parecia ter sido feita sem hesitação.
Ele não duvidou.
Por que eu estava duvidando?
Porque você é humana, Natalie. Porque isso é uma loucura.
Mas é a única chance.
Eu encostei a caneta no papel.
Fechei os olhos.
Vi o rosto de Sophia.
A caneta deslizou.
Natalie Alves.
Assinei.
Passei o resto da noite acordada.
Não consegui dormir. A cama era macia demais, o travesseiro cheirava a lavanda, e o silêncio era tão absoluto que eu podia ouvir meu próprio coração.
Toda vez que fechava os olhos, via o rosto de Maximus. Os olhos cinza. A fala fria. O sorriso triste.
"Você não quer saber, Natalie."
"As duas mulheres que vieram antes de você perguntaram."
"Uma está num hospital psiquiátrico."
"A outra... ninguém encontrou."
Eu virei na cama. Olhei para o teto. O lustre de cristal brilhava fraco, refletindo a lua que entrava pela janela aberta.
O que você fez, Natalie?
O que você acabou de fazer?
O sol começou a nascer. A luz entrou pelos vidros, pintando tudo de laranja e rosa.
E então eu ouvi.
Passos no corredor.
Não eram apressados. Não eram pesados. Eram medidos. Controlados. O tipo de passo de quem sabe que é dono de cada centímetro daquele lugar.
A porta rangeu.
Maximus estava ali.
Camisa branca, mangas dobradas. Calça escura. Pés descalços. Pela primeira vez, ele não parecia um anúncio. Parecia um homem.
— Leu o contrato? — perguntou.
— Assinei.
Ele entrou no quarto. Pegou o contrato da mesa de cabeceira. Folheou até a última página. Viu minha assinatura.
— Sem perguntas?
— Sem perguntas.
Ele me encarou. Os olhos cinza pareciam estar procurando por algo. Uma mentira. Uma hesitação. Um sinal de que eu ia quebrar.
Eu não piscava.
— Tudo bem — ele disse, guardando o contrato no envelope. — Começamos hoje.
— Começamos o quê?
— O treinamento.
Ele se virou para sair.
— Maximus.
Ele parou. Não se virou.
— Eu ainda não sei quem é Tessa. De verdade.
— É melhor assim.
— E as outras duas mulheres? As que vieram antes de mim? Também estavam tentando ser a Tessa?
O silêncio se alongou.
— Você leu a cláusula 12, não leu?
— Li.
— Então não faça perguntas.
Ele saiu.
A porta fechou.
E eu fiquei sozinha no quarto da esposa desaparecida, com a aliança de ouro que alguém tinha deixado na mesa de cabeceira brilhando sob a luz da manhã.
A aliança de Tessa.
Eu não deveria ter tocado.
Mas toquei.
Ela era mais leve do que eu imaginava.
Assim como a minha consciência naquele momento.







