Capítulo 7

Eu acordei com o sol na cara.

Não lembrava de ter dormido. Lembrava de chorar. Lembrava da foto de Sophia. Lembrava do desespero.

Mas o sono tinha vencido.

E agora, a luz da manhã entrava pelas janelas abertas, pintando o quarto todo de dourado.

Eu me sentei na cama. Algo caiu do meu ombro.

Um cobertor.

Não era o meu. Meu cobertor era fino, barato, comprado na promoção de uma loja de departamentos. Esse era pesado. Macio. Cheirava a madeira e âmbar.

O mesmo cheiro que eu tinha sentido no carro.

O cheiro dele.

Meu coração deu um pulo.

— Maximus — eu sussurrei, para ninguém.

Ele tinha vindo.

No meio da noite.

Enquanto eu dormia.

Ele tinha entrado no meu quarto, me coberto, e ido embora.

Por quê?

A pergunta martelou na minha cabeça enquanto eu olhava ao redor. O quarto estava igual. Vestidos no armário. Sapatos alinhados. A penteadeira impecável.

Mas tinha algo diferente.

Na mesa de cabeceira, uma xícara.

Chá branco.

Como Tessa tomava.

Uma nuvem de vapor ainda subia da superfície. Estava fresco. Feito há poucos minutos.

Ao lado da xícara, um pedaço de papel dobrado.

Eu peguei com dedos trêmulos.

Abri.

A caligrafia era firme, elegante. Masculina. A mesma do bilhete no contrato, mas dessa vez mais íntima. Mais pessoal.

"Sua filha é linda. Você vai vê-la em breve. Max."

Meus olhos encheram de lágrimas de novo.

Mas não eram lágrimas de desespero.

Eram lágrimas de...

Eu nem sabia o que era.

Alívio? Medo? Esperança?

Você vai vê-la em breve.

O que significava "em breve"?

Dias? Semanas?

Ele sabia que eu estava chorando por ela? Ele sabia que eu tinha segurado a foto até quase rasgar? Ele sabia que eu estava desmoronando?

Claro que sabia.

Ele sabia tudo sobre mim.

Eu tomei banho. Vista um vestido que a Sra. Winters tinha deixado no cabide — amarelo claro, com um cinto fino na cintura. Passei o perfume francês. Fiz a maquiagem leve, quase invisível.

Quando olhei no espelho, a mulher que me encarava não era eu.

Não era Tessa também.

Era alguma coisa no meio.

Alguém que ainda não sabia quem queria ser.

Desci para o café da manhã.

Maximus já estava na mesa.

Camisa branca, mangas dobradas. Jornal aberto na frente dele. Uma xícara de café preto na mão.

Ele levantou os olhos quando eu entrei.

Me olhou dos pés à cabeça. Como sempre.

— Bom dia — eu disse, tentando soar normal.

— Sente-se.

Ele apontou para a cadeira à sua frente.

Sentei.

Uma funcionária que eu nunca tinha visto apareceu do nada e colocou um prato na minha frente. Iogurte grego. Mel. Granola. Como Tessa comia.

Nada de pão. Nada de café.

— Dormiu bem? — ele perguntou, sem largar o jornal.

— Não.

Ele baixou o jornal.

— Por quê?

— Você sabe por quê.

O olhar dele se manteve fixo no meu. Não era um olhar de desafio. Era de curiosidade. Como se ele estivesse me testando.

— Eu sei — ele admitiu. — Mas quero ouvir da sua boca.

Eu respirei fundo.

— Eu chorei por causa da minha filha. Chorei porque senti falta dela. Chorei porque se isso não der certo...

— Vai dar certo.

— Como você pode ter tanta certeza?

— Porque eu estou pagando para dar certo.

A honestidade cruel dele me desarmou.

— Você veio ao meu quarto ontem — eu disse, mudando de assunto. — Me cobriu com um cobertor.

Ele não negou.

— Deixou um bilhete.

Ele não negou.

— E o chá.

Ele pegou o jornal novamente.

— Você precisa comer. O dia vai ser longo.

— Maximus.

Ele não respondeu.

— Maximus — repeti, mais alto.

Ele suspirou. Baixou o jornal.

— O quê?

— Por que você fez isso?

O silêncio se alongou.

— Porque você estava chorando.

— E isso importa para você?

Ele me encarou. Os olhos cinza escuros pareciam estar procurando por algo dentro de mim.

— Mais do que eu gostaria.

A resposta foi tão baixa que quase não ouvi.

Ele voltou a ler o jornal.

Eu olhei para o meu iogurte.

Comi em silêncio.

Mas alguma coisa tinha mudado.

Depois do café, a Sra. Winters apareceu com uma pasta nova.

— Hoje — ela anunciou — vamos trabalhar a etiqueta social. Tessa era conhecida por sua elegância em eventos. Você precisa saber como se comportar em jantares, coquetéis e ocasiões formais.

— Quantos eventos eu vou ter que ir?

— Depende do Sr. Maximus. Mas pelo menos dois por semana.

Dois por semana.

Em público.

Sendo Tessa.

Com pessoas que a conheciam.

O pavor subiu pela minha espinha.

— E se alguém perceber que eu não sou ela?

— Não vão perceber.

— Como você sabe?

A Sra. Winters fechou a pasta.

— Porque a Sra. Tessa era tão fechada que ninguém realmente a conhecia. As pessoas conheciam a versão que o Sr. Maximus criou. E essa versão... você pode aprender.

— E a versão verdadeira?

— A versão verdadeira desapareceu com ela.

A Sra. Winters passou as três horas seguintes me ensinando a comer.

Parecia ridículo. Eu sabia comer. Comia desde os dois anos de idade, como qualquer ser humano normal.

Mas não, eu não sabia comer como Tessa.

— Tessa nunca pegava no garfo com a mão direita.

— O quê?

— Ela era canhota.

— Eu sou destra.

— Agora é canhota.

— Isso é idiota.

— Isso é detalhe. E detalhes fazem a diferença entre uma substituta e a verdadeira.

Ela me fez praticar. Garfo na mão esquerda. Faca na direita. Cortar um pedaço de carne sem fazer barulho. Levar à boca sem mostrar os dentes. Mastigar devagar. Sete vezes. Nem mais, nem menos.

— Sete vezes?

— Tessa mastigava cada garfada sete vezes.

— Ela contava?

— Ela tinha um relógio interno.

No final da terceira hora, eu queria enfiar o garfo na parede.

Mas aprendi.

17h30.

A Sra. Winters tinha ido embora. Uma funcionária colocou um chá preto na mesa de centro da sala. Eu estava sozinha, folheando um dos álbuns de fotos que a Sra. Winters tinha deixado.

Tessa em Paris. Tessa em Milão. Tessa em um iate na Grécia.

Sempre sorrindo. Sempre elegante. Sempre perfeita.

Sempre vazia.

Eu me perguntei se ela era feliz.

Se ela amava Maximus.

Se ela tinha fugido ou se tinha sido levada.

Não faça perguntas. A voz na minha cabeça era dele.

Você não quer saber.

— Pensando em quê?

A voz veio de trás do sofá. Quase pulei.

Maximus estava ali. Camisa branca, mangas dobradas, pés descalços. Ele tinha uma mania de andar sem fazer barulho.

— Em nada. — eu menti.

Ele sentou na poltrona em frente a mim. Pegou uma das fotos do álbum.

— Ela era bonita — ele disse. Não era uma pergunta.

— Muito.

— Você é mais.

Meu coração parou.

— Não fale isso.

— Por quê? É verdade.

— Porque você não está me vendo. Você está vendo ela.

Ele me encarou.

— Você acha mesmo que eu confundiria vocês duas?

— Você disse que eu pareço com ela.

— Parece. Mas não é igual. Seus olhos são diferentes.

— Como diferentes?

— Os dela eram vazios. Os seus... têm medo.

Eu não sabia se aquilo era um elogio ou uma crítica.

— Medo não é uma coisa boa.

— Depende. Medo mantém você viva. Tessa não tinha medo. E olha no que deu.

O silêncio caiu entre nós. Pesado, mas não desconfortável.

— Maximus — eu quebrei o silêncio. — Por que você escolheu fazer isso? Por que não simplesmente... deixa ela ir?

Ele demorou a responder.

— Porque eu não sei deixar as coisas irem.

— Nem as pessoas?

Ele me olhou.

— Nem as pessoas.

22h00.

Jantar acabado. Salmão de novo. Eu ia começar a ter pesadelos com salmão.

Subi as escadas arrastando os pés. O salto dez centímetros estava machucando meus dedos. A Sra. Winters ia me matar se eu reclamasse.

— Tessa usava salto doze. Reclamava menos. — eu imitei a voz da Sra. Winters, andando pelo corredor.

Foi quando eu vi.

A porta do fundo.

Não era a do meu quarto. Não era a do closet. Era uma porta que eu não tinha notado antes. Pequena. Discreta. Quase escondida no final do corredor.

Uma fechadura digital brilhava na maçaneta.

Eu parei.

Não faça perguntas.

Você não quer saber.

Cláusula 12.

Eu deveria ir para o meu quarto. Tomar banho. Dormir. Esquecer que vi a porta.

Mas meus pés não obedeceram.

Andei até ela. Devagar. O coração batendo rápido.

Toquei na maçaneta.

Trancada.

Claro.

Colei o ouvido na madeira.

Silêncio.

Mas não era um silêncio vazio. Era o silêncio de quem está esperando.

— Natalie.

A voz veio de trás de mim. Congelei.

Maximus estava no meio do corredor. Braços cruzados. Rosto inexpressivo.

— Eu só... — comecei.

— Não explique. Só vá dormir.

— O que tem ali?

— Nada que te interessa.

— Se não me interessa, por que está trancado?

Ele deu um passo na minha direção. Depois outro.

— Porque tem coisas que são minhas, não suas.

— Maximus...

— Vá dormir, Natalie.

O tom de voz não deixava espaço para discussão.

Eu fui.

Mas, antes de entrar no quarto, olhei para trás.

Maximus ainda estava ali. Em frente à porta. Com a mão na maçaneta.

Ele não entrou.

Apenas ficou, como um guarda.

Ou um carcereiro.

Na cama, com o cheiro de lavanda no travesseiro, eu não conseguia parar de pensar.

O que tinha atrás daquela porta?

Documentos? Dinheiro?

Tessa?

Ela podia estar ali o tempo todo?

Você não quer saber, a voz dele ecoava.

Mas eu queria.

Pela primeira vez desde que assinei o contrato, eu queria muito.

Não por Sophia. Não pelo dinheiro.

Por mim.

Porque eu estava cansada de não saber.

Cansada de ser uma boneca.

Cansada de ser Tessa.

Eu fechei os olhos.

O sono demorou para chegar.

E quando chegou, eu sonhei com uma porta trancada.

E do outro lado, alguém batia.

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