Mundo de ficçãoIniciar sessãoÍris Calloway vive por regras simples: não se apegar, não confiar, não perder o controle da própria saída. Numa única noite, ela quebrou todas. Enviada no círculo de Kael Ashford, Íris se aproxima com um plano impecável. Sabe quem é o alvo. Sabe o que precisa fazer. Sabe quem é. Até Kael olhar para ela. Ele a observa como se já a conhecesse. Como se já a esperasse. Kael não acredita em coincidências. E Íris chegou tarde demais para ser apenas uma. À medida que a missão avança, as certezas de Íris começam a ruir. E o homem que deveria destruir torna-se, perigosamente, o único em quem ela considera confiar. Para Kael, Íris é um erro na equação, algo que ele não consegue prever, controlar ou ignorar. Ele sabe que ela mente. Sabe que a aproximação não foi acidental. Ainda assim, contra tudo o que construiu em anos de poder e isolamento, começa a perceber que existe uma diferença entre o que precisa… e o que quer. E essa diferença tem o rosto dela. Entre eles: obsessão, jogos de poder e uma atração que nenhum dos dois ousa nomear. Ao redor: traições, alianças instáveis e uma organização que transforma pessoas em peças descartáveis. E, por trás de tudo, um passado que nunca deixou de existir. O Preço do Silêncio é uma história sobre o perigo de ser visto, de verdade, por alguém que enxerga além das mentiras. Sobre a linha tênue entre proteção e controle. E sobre o momento em que dois predadores descobrem que o maior risco nunca foi um ao outro… Mas aquilo que despertam em si mesmos.
Ler maisAprendi ainda nova que sorrisos eram armas.
O meu, naquela noite, estava calibrado com precisão cirúrgica: largo o suficiente para parecer à vontade, contido o suficiente para não parecer desesperada. Passei três minutos inteiros a ensaiá-lo no espelho do banheiro do Claridge's antes de descer para o evento. Não porque precisasse de prática, já sorri para homens piores em lugares piores. Precisava de foco. Rodei o indicador direito com o polegar, um vício antigo, de quando usava um anel da minha mãe que perdi aos dezoito anos e cujo peso ainda espero sentir por vezes, involuntariamente, em sítios errados. Precisava lembrar por que estava ali e não na minha cama com um copo de vinho e a consciência limpa, que era onde qualquer pessoa sensata estaria numa noite de novembro em Londres. Mas sensatez nunca foi exactamente a minha especialidade. Rodei o indicador direito com o polegar — um vício antigo, de quando usava um anel da minha mãe que perdi aos dezoito anos e cujo peso ainda espero sentir por vezes, involuntariamente, em sítios errados. O leilão de arte da Fundação Harrington acontecia todo segundo sábado de novembro no salão nobre do hotel, um evento fechado, lista de convidados com menos de duzentos nomes, champanhe que custava mais do que a maioria das pessoas ganha numa semana e quadros que custavam mais do que a maioria das pessoas ganha em vida. Era o tipo de lugar onde dinheiro e poder se misturavam com tanta naturalidade que ninguém precisava mencionar nenhum dos dois. Toda a gente simplesmente sabia. Eu usava um vestido preto, decote ousado nas costas, corte reto na frente. Nada que gritasse. Tudo que sussurrava. Cabelo escuro preso numa trança lateral sobre o ombro esquerdo, brincos pequenos de ouro, salto suficientemente alto para a altura certa. Passei dois dias a estudar fotografias dos eventos anteriores. Sabia o que funcionava naquele ambiente. O que não havia calculado, e isso irritou-me de uma forma que só reconheci horas depois, sozinha no carro de volta a casa, foi ele. Kael Ashford estava do outro lado do salão quando entrei, e vi-o antes mesmo dos meus olhos se ajustarem à iluminação âmbar do espaço. Era impossível não ver. Não porque fosse o homem mais alto da sala, embora fossex nem porque usasse um fato que provavelmente custava mais do que o meu aluguer mensal. Era a forma como ocupava o espaço. Como se o ar ao redor dele tivesse decidido, por conta própria, manter uma distância respeitosa. E ele não estava a olhar para mim. Essa foi a primeira coisa que notei, e foi exactamente por isso que o meu estômago contraiu levemente. Todos os outros homens no salão, e alguns tinham cinquenta anos de treino em discrição, olharam para mim quando entrei. Kael Ashford estava a conversar com dois homens de fato cinzento, uma taça na mão, e não desviou o olhar nem por um segundo. Perguntei-me, por uma fracção de momento, se simplesmente não me tinha visto. Se não me havia achado suficientemente interessante para merecer atenção. A ideia foi simultaneamente ofensiva e útil. Decidi ignorá-la. Depois decidi que não importava de qualquer forma. Não estava ali por ele, estava ali por causa do que ele guardava. Há uma diferença crucial entre as duas coisas, e naquela altura ainda conseguia mantê-las separadas sem esforço. — Íris. — A voz de Marcus Gentile surgiu à minha esquerda, e virei-me com o sorriso já no lugar. Marcus era o sócio de Ashford no sector imobiliário, cinquenta e poucos anos, cabelo grisalho com aquele corte que custa caro a parecer descuidado, casado pela terceira vez com uma mulher vinte e dois anos mais nova. Havia passado a última semana a tentar marcar um jantar comigo sob o pretexto de discutir um contrato de consultoria jurídica. — Vieste. — Disse que vinha. — Aceitei os dois beijos na face com naturalidade. A mão dele a pousar um segundo mais do que o necessário no meu cotovelo. Deixei. Era informação útil sobre o quanto ele precisava de acreditar que tinha poder sobre a situação.— Que lugar impressionante. — Nunca tinhas estado aqui? — Ele pareceu genuinamente surpreendido, o que era exactamente o que eu queria. — Nunca consegui convite antes. — Uma pausa calculada. Deixei os olhos saírem para o salão por meio segundo, como se estivesse a verificar se havia alguém que eu conhecesse. Não havia. Era o tempo de que precisava. — Até ti. Marcus sorriu com a vaidade de quem acabou de ganhar um troféu. Deixei que me conduzisse pelo salão, apresentando-me a rostos que já conhecia de memória mas fingi conhecer pela primeira vez. Bebi o champanhe devagar. Ri no momento certo. Fiz as perguntas certas. Foi um desempenho perfeitamente competente, se me é permitido dizê-lo. E de tempos em tempos, quase sem querer, os meus olhos deslizavam para o outro lado do salão. Ashford continuava lá. Havia mudado de interlocutores, mas a posição era a mesma — encostado levemente numa coluna, corpo relaxado, expressão neutra. Tinha o tipo de rosto que era difícil de ler, todas as linhas um pouco duras demais, a mandíbula quadrada, o olhar escuro e directo. Não era convencional. Era impossível de ignorar. Como uma tempestade que ainda estava longe mas sobre a qual você sabia, com certeza absoluta, que estava a aproximar-se. Foi então que olhou para mim. Não foi o olhar de quem acabou de reparar em alguém. Foi o olhar de quem estava à espera do momento certo para olhar. Directo, sem pressa, sem o recuo polido que a maioria dos homens usa quando são apanhados a observar. Ele simplesmente olhou para mim, como se tivesse todo o direito do mundo de fazer isso, e senti alguma coisa apertar no peito que cataloguei imediatamente como adrenalina profissional. Não desviei o olhar. Ele também não. Foram talvez três segundos. Depois voltou para a conversa que estava tendo, com a mesma naturalidade de quem vira uma janela e decidiu fechá-la. Como se eu fosse uma paisagem que havia decidido verificar e arquivar. Bebi mais um gole de champanhe. Considerou-se o episódio encerrado. — Conheces Kael Ashford? — perguntei a Marcus , com o cuidado de tornar a pergunta leve, quase casual. Marcus seguiu o meu olhar e fez um som levemente tenso. — Conheço. Sócio em alguns projectos. Porquê? — Parece... interessante. — É complicado. — Marcus pausou, depois acrescentou com o tom de quem está a partilhar uma informação valiosa: — Não é o tipo de homem com quem se mexe sem saber o que se está a fazer. — Ainda bem que eu sei sempre o que estou a fazer. — Sorri, e Marcus riu, mas o riso não chegou completamente aos olhos. A noite avançou com a lentidão de eventos que custam caro demais para terminar rápido. O leilão em si foi uma performance, arte contemporânea que eu achava honestamente sem graça, mas sobre a qual comentei com autoridade suficiente para Marcus ficar impressionado. Dei uma licitação numa escultura pequena de bronze, não porque a quisesse, mas porque participar tornava a presença mais legítima. Perdi a licitação de propósito para um homem de fato azul-marinho que parecia genuinamente encantado com a peça. Que aproveitasse. Foi durante o intervalo do leilão que ele apareceu. Estava sozinha por talvez quarenta e cinco segundos, Marcus havia ido buscar outra taça, quando senti uma presença ao meu lado. Não ouvi passos. Não houve aviso. Ele simplesmente estava lá, de repente, como se o espaço ao meu lado tivesse decidido preenchê-lo. — Licitaste e depois desististe. — A voz dele era mais grave do que havia antecipado. Directa, sem preâmbulo, sem o "olá" protocolar que a maioria das pessoas usa como almofada antes de dizer o que realmente quer dizer. Virei-me para ele com cuidado. De perto, era ainda mais difícil de processar. Os olhos eram quase negros sob a iluminação do salão, e havia algo na forma como me olhava que me fez pensar, por um segundo completamente absurdo, que estava a ler algo que eu não sabia que estava escrito em mim. Isso incomodou-me mais do que devia. — Nunca quis a escultura — respondi. — Mas é indelicado não participar. — Então participaste por educação. — Participei para não parecer que estava apenas a observar. Ele inclinou levemente a cabeça. Não um gesto de concordância — mais de reconhecimento. — E o que estavas a fazer, se não era observar? — A aprender. — Uma pausa. — Lugares novos pedem atenção antes de acção. — Lugares novos. — Repetiu as palavras como se estivesse a pesar cada uma. — Nunca estiveste aqui antes? — Primeira vez. — Hm. — O som foi curto, quase imperceptível. Mas havia algo nele. Uma inflexão mínima que não consegui classificar. — Kael Ashford. A mão estendida, palma aberta, sem urgência. — Íris Calloway . O aperto de mão durou um segundo além do necessário. Não porque ele não largasse, porque nenhum dos dois se mexeu primeiro. — És amiga de Marcus ? — perguntou, quando as mãos finalmente se separaram. — Conheço-o pelo trabalho. Direito corporativo. — Advogada. — Entre outras coisas. Ele quase sorriu. Quase — os cantos da boca moveram-se apenas o suficiente para que eu reparasse, mas não o suficiente para constituir um sorriso de facto. — Que outras coisas? — Dependeria de quanto tempo tens. — Tenho o que for necessário. Era exactamente o tipo de resposta que havia esperado de um homem com o ego e o poder que Kael Ashford carregava. O que não havia esperado foi a forma como a disse — sem arrogância, sem o subtexto sedutor barato que a maioria dos homens injeta em frases assim. Como uma declaração de facto. Tinha tempo porque escolhia ter. Ponto. Decidi que precisava ter muito cuidado. A conversa que se seguiu durou vinte minutos. Sei disso porque contei mentalmente — é um hábito, uma forma de manter o controlo do tempo mesmo quando a situação tenta fazer-me perdê-lo. Falámos sobre arte, sobre a cidade, sobre um projecto de requalificação urbana em Shoreditch que havia saído nos jornais. Ele falava pouco e ouvia muito, o que era, na minha experiência, infinitamente mais perigoso do que o oposto. Homens que falam muito revelam tudo. Homens que ouvem muito descobrem tudo. Marcus voltou, encontrou-nos a conversar e fez um esforço visível para não demonstrar o desconforto que claramente sentiu. A conversa a três foi mais curta — Ashford despediu-se com cortesia exacta e desapareceu no salão com a mesma naturalidade com que havia aparecido. — Como acabaste a conversar com ele? — perguntou Marcus , o tom um grau mais tenso. — Ele veio falar comigo. Marcus abriu a boca, fechou, bebeu o champanhe. Não disse mais nada sobre Kael Ashford. Autora Não esqueça de deixar like e prosseguir para os próximos capítulos que contém muito hot, vulgo tensão sexual.O almoço de família dos Ashford não era chamado de almoço de família.Ashford havia dito, no sábado de manhã enquanto tomávamos café no apartamento dele, que havia um "almoço" na casa do tio Edmund naquele domingo. Tom completamente neutro, a palavra "almoço" lançada no ar como se não tivesse nenhum peso específico. Havia virado a página do jornal antes de acrescentar: — Vens.Foi uma maldita ordem, tal como tem sido desde início. Ele sabia que eu queria algo dele, então essas eram as condições.— Não fui convidada — disse eu, suspirando.— Eu estou a convidar. — Deu de ombros.— Não é a mesma coisa.— Na família Ashford é. — Fechou o jornal, olhou para mim com aquele olhar directo que não aceitava argumentos periféricos. — Ao meio-dia. Podes trazer vinho se quiseres, mas não é obrigatório.Trouxe vinho. Não porque achasse que era obrigatório, mas porque aparecer de mãos a abanar numa família britânica de certa geração seria o tipo de deslize que eu não podia dar-me ao luxo de
Liguei para Serena na sexta-feira à tarde, da varanda do apartamento com o telemóvel seguro no modo encriptado que a organização exigia para comunicações sensíveis.A conversa que havia planeado ter era objectiva: actualização de estado, revisão do prazo, discussão das inconsistências documentais que havia encontrado. Uma conversa profissional entre duas agentes de uma organização com uma missão activa.A conversa que realmente aconteceu foi diferente.— Tenho um problema — disse, quando Serena atendeu.— Que tipo de problema?— O tipo que não está no manual.Uma pausa. A respiração de Serena do outro lado mudou ligeiramente, não muito, mas conhecia-a há onze anos. — Fala. — parecia apreensiva.— Encontrei inconsistências na cronologia. A transacção portuária aconteceu dois meses antes do início do trabalho de Rafael. A cadeia de ligação que a organização estabeleceu tem três intermediários com acesso parcial, é possível, mas está longe de ser conclusiva.— Eu sei — disse Se
Há coisas que faço por razões que consigo articular com precisão. E há coisas que faço e que, se alguém me pedisse uma razão, simplesmente produziria silêncio. Aparecer no apartamento de Íris Calloway numa quinta-feira às oito e meia da noite sem aviso pertencia à segunda categoria. Sabia onde ela vivia. Isso não foi difícil, Ciro havia verificado o endereço na primeira semana, parte do processo de due diligence que faço com toda a gente que entra no meu campo de atenção. Sabia o edifício, o andar, o número da porta. Informação. Não havia feito nada com ela até àquela noite. Naquela noite, fui. Bati na porta três vezes. Espaçadas. Não havia urgência no gesto, sabia que não ia ser ignorado. Íris abriu a porta e houve um segundo de silêncio entre nós, ela em pijama, cabelo preso de qualquer forma, sem maquilhagem, no meio de um jantar improvisado que conseguia ver pela linha da cozinha e de um documento jurídico espalhado sobre a mesa. O apartamento na versão real, não a versão
Há uma coisa irritante sobre pessoas que ouvem muito: ficam na cabeça depois. Homens que falam muito revelam tudo imediatamente e depois desaparecem, a informação esgota-se e não sobra nada para pensar. Kael Ashford não havia dito nada que eu não conseguisse repetir de memória e mesmo assim havia qualquer coisa nas margens das conversas que continuava a acontecer na minha cabeça depois de ele não estar lá. Um tom. Uma inflexão. A forma como havia dito tenho o que for necessário sem arrogância, apenas como facto. Estava na fila de uma farmácia às onze da noite de uma quarta-feira com dor de cabeça e a pensar no tom de voz de um homem que estava a investigar. Profissionalismo exemplar. Já disse isso. Por coincidência, conheci Dante Ashford na farmácia, quando os dois estávamos no mesmo corredor a olhar para a secção de analgésicos com expressões que, imagino, eram variações do mesmo problema: dor de cabeça que não passava. — Ibuprofeno ou paracetamol? — perguntou, sem preâmbul
Último capítulo